O capitalismo depende do trabalho não remunerado das mulheres?

Von BdF Entrevista28/07/2026 às 09:00159 Aufrufe
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Brasil de Fato

O lançamento no Brasil do livro “Mulheres e Trabalho: Feminismo, Classe e Reprodução Social”, da acadêmica canadense Susan Ferguson, reacende o debate sobre o papel do trabalho invisível na sustentação do capitalismo. Ao BdF Entrevista, Rhaysa Ruas, professora de serviço social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e uma das tradutoras da obra, explica que a sociedade contemporânea é hierarquizada por meio da expropriação dos meios necessários para a produção e reprodução da vida.

Segundo a pesquisadora, o gênero tem sido um marcador fundamental nesse processo, especialmente quando se considera o trabalho que garante a manutenção cotidiana e intergeracional dos seres humanos. O tema foi trabalhado por diversas correntes do feminismo ao longo de séculos.

“Pensando o feminismo hoje, é muito importante a gente considerar que trabalho tem dois sentidos: o do trabalho produtivo, produtor de valor, esse trabalho que é quantificado e que é valorizado, visível na sociedade capitalista; e o trabalho naquele sentido geral, ontológico, trabalho enquanto qualquer atividade humana, prática, que interfere e se relaciona com a natureza e a modifica”, afirma.

Ruas destaca o conceito do cuidar, muito atrelado ao papel da mulher, em uma sociedade atravessada pelo patriarcado. E avalia que, no final das contas, as sociedades estruturadas fora do capitalismo é que olham para esse processo de aprisionamento da mulher na dinâmica dos cuidados domésticos e fornecem soluções, até por meio de infraestruturas públicas. A tradutora comenta, por exemplo, que na União Soviética existiam lavanderias públicas, restaurantes populares, escolas e centros educacionais, e os afazeres domésticos eram ensinados também aos meninos.

“Ao colocar a questão da reprodução da força de trabalho e localizar a opressão ali, colocou a necessidade da criação de uma infraestrutura pública que desse conta para que as mulheres fossem, de fato, emancipadas politica e materialmente, inclusive emocionalmente, porque tem toda uma carga de culpa, de peso emocional, psíquico, nessa obrigação de cuidar”, destaca.

Rhaysa Ruas também critica o que chama de “feminismo da igualdade” ou liberal, que foca na inserção da mulher no mercado remunerado para garantir independência. A assistente social argumenta que essa perspectiva universaliza a realidade de uma pequena parcela de brancas e burguesas, ignorando que mulheres pobres e racializadas sempre trabalharam sob exploração bárbara. “A relação entre gênero, raça e classe é uma unidade constitutiva do capitalismo”, defende, lembrando que, enquanto na Europa se discutia o “reino da liberdade”, mulheres negras eram escravizadas nas Américas e tinham até o direito de constituir família negado.

Além disso, Ruas avalia a cobrança social de a mulher ser mãe, mas a falta de infraestrutura provoca o que ela define como “maternidade ultrajada”. “Esse é um conceito que eu tenho desenvolvido, porque para todas nós também não há infraestrutura social que sustente a nossa maternidade. Então, nos exigem uma maternidade excelente, mas nos tiram condições para exercer essa maternidade. Os nossos locais de trabalho não têm creche, a gente não tem acesso à saúde pública gratuita de qualidade, porque o SUS está subfinanciado, precarizado”, destaca.

Para ela, a emancipação feminina deve estar ligada à recuperação do tempo e à transformação do cuidado em uma responsabilidade coletiva. “Reconsiderar o que é trabalho é fundamental para a gente pensar a sociedade hoje e recuperar o tempo para que a gente viva com qualidade”, conclui a professora.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

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