Ah, o Brasil… Ao Sul, limitado pelo Pampa, cujos risonhos lindos campos têm mais flores (com o recorde de 64 espécies por metro quadrado). Ao Norte, limitado pela Amazônia, cujos bosques têm mais vida: a maior floresta tropical do mundo com cerca de 14 mil espécies de plantas. Mas é ao Leste, dentro dos limites da Mata Atlântica (com aproximadamente 75% de área original desmatada), que vivem cerca de 2/3 da população deste país.
Seja no âmbito doméstico ou internacional, é amplo o reconhecimento da vastidão e da importância da natureza na construção cultural brasileira. O meio ambiente é um dos ativos brasileiros mais valiosos também em termos comerciais.
Sendo sua relevância unânime, é dado como certo e parece que ninguém precisaria trazer à tona tal assunto em qualquer mesa de debates, seja mesa de bar, almoço de família ou sabatina de presidenciáveis televisionada nacionalmente em horário nobre. Mas será que esse não deveria ser um debate fundamental na atual campanha eleitoral?
Um tema pouquíssimo debatido
Em 1º de janeiro de 2003, o Brasil assistiu à posse do novo presidente da República. O ato hoje é visto como um triunfo democrático, em que lados opostos, rivais políticos, se uniram em celebração. Depois de o Brasil ver sua democracia subitamente ameaçada, o tema passou a pautar qualquer debate. A democracia não aparentava mais ser uma unanimidade.
Atualmente, o Brasil assiste possivelmente seu maior ativo ser ameaçado, degradado e vilipendiado. Mesmo assim, ameaças diárias não são suficientes para tornar o meio ambiente ponto focal dos debates.
Seriam as constantes notícias acerca da degradação ambiental no nosso país uma forma de anestesia social, em que o que é garantido como certo não é só sua importância, mas, contraditoriamente, também a sua degradação em detrimento do desenvolvimento humano? A relevância da natureza brasileira já perdeu seu status de unanimidade há muito tempo.
A percepção da importância de ações concretas que visem frear o avanço das mudanças climáticas pelos presidenciáveis reflete compromisso científico. Dos 13 planos de governo disponibilizados, seis não comentam em nenhum momento a palavra “natureza”, destes, dois também não comentam a palavra “meio ambiente”.
Quando analisamos termos relacionados à questão climática (financiamento, mudança ou emergência climática) o cenário consegue ser muito pior: nove planos de governo não citam nenhuma dessas palavras. Dos quatro restantes, dois citam apenas uma vez, um cita cinco vezes. O que mais cita, onze vezes, é o único que utiliza o termo “emergência climática”. De tantos, inseridos em diferentes regiões do espectro político, apenas um candidato reconhece o caráter emergencial da mudança climática.
Alterações climáticas e o meio ambiente
Incansáveis pesquisadores vem alertando para a importância da preservação ambiental para a manutenção da vida na Terra. O impacto humano sobre a natureza assume caráter global através das mudanças climáticas. Tais mudanças, em sua aceleração, já tomaram dimensão imparável, cabendo a nós dedicar esforços na frenagem das taxas de mudança através, não-exclusivamente, da contenção de emissões de gases de efeito estufa. À necessidade iminente de ação neste fronte, nomeamos emergência climática.
Projeções pretéritas, presente e futuras da distribuição das espécies no espaço geográfico são obtidas em pesquisas a partir de uma técnica chamada modelagem de distribuição de espécies. Essa metodologia usa algoritmos de aprendizado de máquina para cruzar dados de ocorrência de espécies com o clima.
O rearranjo espacial de espécies observado impõe alterações na composição das comunidades e nas relações entre elas, causando a disrupção de serviços ecossistêmicos essenciais e impactando a produção agrícola, a disponibilidade de recursos hídricos, entre outros impactos mensuráveis.
Nesse sentido, a Mata Atlântica é um dos biomas brasileiros mais críticos devido à sua população e povoamento. Nos últimos anos, desenvolvi duas pesquisas que sintetizam um panorama concreto para os brasileiros. Ambas trazem projeções da distribuição de espécies de árvores de diferentes habitats da Mata Atlântica.
A primeira se refere aos cenários futuros. O estudo demonstra que diferentes habitats responderão de forma desigual às alterações climáticas. Projeções mostram uma contração da região de ocorrência das espécies arbóreas em direção às regiões núcleo da Mata Atlântica (Serra do Mar, Sudeste e Sul do Brasil) com intensa substituição de espécies na região Nordeste e em regiões interioranas.
Olhando para o passado, a segunda pesquisa aponta refúgios climáticos que são regiões de estabilidade climática ao longo dos últimos 25 mil anos na região. Como resultado, seis regiões são apontadas como refúgios: litoral de Pernambuco; litoral do Sul da Bahia e do norte do Espírito Santo; a Serra do Mar entre Santos e São Paulo; a Serra do Mar subtropical; a Serra do Espinhaço; e a bacia do Rio Paranaíba.
Ambas as pesquisas apontam para regiões-chave do território nacional onde são necessárias políticas de conservação para proteger e manter áreas de refúgio para espécies de árvore na Mata Atlântica brasileira. Além disso, destacam a necessidade de financiamento voltado à promoção da sustentabilidade dos serviços ecossistêmicos, também através de estratégias de restauração em regiões consideradas refúgios para ajudar a manter os habitats e seus serviços ecossistêmicos associados.
Sendo o meio ambiente tema escanteado, resta ao eleitor instigar pessoalmente o debate sobre natureza, ciência e emergência climática, seja na mesa de bar ou no almoço de família. Talvez assim poderemos manter nosso título de gigante pela própria natureza.

Luíz Fernando Esser recebe financiamento do CNPq e recentemente recebeu também da Fundação Araucária dentro do projeto Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação (NAPI) - Emergência Climática.
