Ponto Novo recebe 4º Festival de Sementes Crioulas da Bahia

18/09/2026 às 18:2758 Aufrufe
Mais longevo encontro de sementes crioulas do estado chega à 26ª edição na quarta-feira (19)
Mais longevo encontro de sementes crioulas do estado chega à 26ª edição na quarta-feira (19)
Brasil de Fato

Uma década após a sua primeira edição, o Festival das Sementes Crioulas na Bahia chega ao seu quarto encontro reunindo cerca de mil pessoas entre camponeses, guardiões e guardiãs da agrobiodiversidade, pesquisadores e movimentos populares do campo e da cidade. Organizado pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e pela Cooperativa de Produção e Comercialização Camponesa (CPC-BA), o evento acontece no Assentamento Terra Nossa, no município de Ponto Novo, norte da Bahia, nos dias 18 e 19 de setembro.

Com o lema “Sementes Crioulas: Da Resistência Camponesa à Soberania dos Povos”, o evento coloca no centro do debate a defesa das variedades tradicionais como escudo no enfrentamento às mudanças climáticas e ferramenta essencial para garantir comida saudável na mesa da população trabalhadora.

Em um cenário de secas severas e desequilíbrios do regime de chuvas que afetam o semiárido e toda a região nordeste, a preservação genética cultivada pelos povos tradicionais ganha contornos de segurança e soberania alimentar. Diferente dos pacotes tecnológicos industriais, as sementes crioulas são selecionadas e adaptadas naturalmente aos biomas baianos, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, há gerações.

Para Saiane Santos, dirigente do MPA na Bahia, o festival demarca a urgência de encarar a autonomia das sementes como questão pública. “Este ano trazemos essa discussão sobre o papel da semente crioula na defesa da soberania alimentar articulada à questão climática. O avanço das mudanças do clima impacta diretamente a vida do campesinato. Para nós, a semente é indispensável para pensarmos a autonomia e a soberania dos povos, garantindo comida boa de verdade no prato do povo”, afirma.

Além das discussões locais, o encontro impulsiona a atualização do Plano Nacional de Sementes do MPA, que organiza casas, campos e bancos comunitários de sementes pelo país, e pauta a criação e fortalecimento de políticas públicas voltadas ao setor junto aos governos estadual e federal.

Ponto Novo, terra de luta e transição agroecológica

A escolha do local do evento reflete a disputa dos modelos de desenvolvimento para o campo. O Assentamento Terra Nossa nasceu da luta pela terra iniciada em 2008 e abriga atualmente 60 famílias, 30 organizadas pelo MPA e 30 pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Localizado em uma área de perímetro irrigado historicamente ocupada pela lógica das monoculturas convencionais, o território se tornou um polo de resistência e experimentação camponesa, onde as famílias desenvolvem projetos de transição agroecológica irrigada voltados para a diversidade e a produção de alimentos sem veneno.

“Fazer esse festival em Ponto Novo tem muita simbologia para nós. É um território onde o MPA faz a luta pela terra desde 2008, e hoje estamos desenvolvendo um projeto de produção agroecológica irrigada justamente para fazer o contraponto com o modelo do agronegócio, que foi muito difundido nessa área”, pontua Saiane.

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Programação

O primeiro dia de atividades reúne cerca de 500 delegados vindos em caravanas de mais de 60 municípios baianos para momentos de estudo e formação técnica e política. A programação conta com debates sobre soberania alimentar e enfrentamento ao agronegócio; produção própria de bioinsumos e transição agroecológica; educação do campo e saúde coletiva; questões jurídicas e direitos territoriais; o papel das infâncias e da juventude camponesa na guarda das sementes.

No segundo dia, o espaço é aberto à comunidade regional com a realização da Feira das Sementes Crioulas e da Sociobiodiversidade da Bahia, que promove trocas diretas de variedades de milho, feijão, fava, tubérculos e manivas entre agricultores de diferentes biomas. A jornada encerra com um grande ato político e intervenções culturais de samba de coco, forró pé-de-serra e poesias populares da região.

Sobre o Festival

A iniciativa teve início em 2016, em Feira de Santana, a partir de uma articulação pioneira entre o campesinato e a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). O processo seguiu com o 2º Festival em Brumado (2018), marco do lançamento da campanha “Adote uma Semente”, e com a 3ª edição em Jacobina (2023), que vinculou a produção de sementes ao combate emergencial à fome no estado.

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Brasil de Fato
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