Erika Hilton celebra avanço feminista apesar da força da extrema direita: ‘EUA e big techs impulsionam ataque aos direitos das mulheres’

Von Rodrigo Chagas07/10/2026 às 15:0288 Aufrufe
Erika Hilton no plenário da Câmara; nova legislatura terá mais mulheres, mas homens continuarão maioria na Casa
Erika Hilton no plenário da Câmara; nova legislatura terá mais mulheres, mas homens continuarão maioria na Casa
Brasil de Fato

A deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) foi reeleita com 1.596.472 votos e se tornou a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados. O resultado ocorreu em uma eleição que ampliou a presença feminina no Congresso, mas também fortaleceu uma maioria de direita e levou mulheres de discurso antifeminista a votações expressivas em diferentes estados.

A partir de 2027, a Câmara terá 109 deputadas, contra 91 eleitas em 2022. As mulheres ocuparão 21,2% das 513 cadeiras. Entre elas, 47 foram eleitas por partidos de esquerda, enquanto 62 são de direita.

Hilton vê, no desempenho das candidaturas progressistas, um reconhecimento do trabalho realizado durante a atual legislatura. No próprio caso, atribui a votação à combinação entre pautas que atingem diretamente a vida dos trabalhadores, como o fim da escala 6×1, atuação institucional e presença nas redes.

“Entendo que esse resultado é, primeiramente, um reconhecimento do trabalho que desenvolvi nos últimos quatro anos. Mas também é fruto de uma combinação entre propostas de grande relevância, como o fim da escala 6×1, uma atuação constante no Judiciário e uma comunicação efetiva”, afirmou ao Brasil de Fato.

A parlamentar diz que sua atuação procurou combinar essas agendas com a defesa de grupos historicamente discriminados.

“As pessoas esperam respostas para os seus problemas reais, e é isso que eu me dediquei a fazer de forma interseccional, sem nunca deixar de falar dos direitos das mulheres, da comunidade LGBT+, da população negra, da população em situação de rua e outros grupos atacados por esse sistema.”

Para Hilton, o desempenho eleitoral das mulheres de esquerda também decorre da atuação construída durante os últimos quatro anos dentro e fora do Congresso.

“As candidaturas das mulheres de esquerda fizeram história por conta do enfrentamento que fomos capazes de fazer, na Câmara, nas ruas e nas redes, mesmo sendo a minoria da minoria na política”, diz. “Uma parcela relevante da população viu o nosso trabalho e confiou em nós para protegermos seus direitos frente a uma agenda de ódio e subalternização das mulheres.”

‘Ataque aos direitos das mulheres’

O avanço das candidaturas progressistas ocorreu ao mesmo tempo em que mulheres identificadas com a direita conquistaram espaços importantes. A nova bancada feminina da Câmara será mais plural ideologicamente, enquanto o conjunto da Casa continuará majoritariamente à direita. Parlamentares conservadoras também tiveram algumas das maiores votações estaduais.

Hilton insere esse resultado em um movimento internacional de reação a direitos conquistados por mulheres e minorias.

“Existe um movimento global de ataque aos direitos das mulheres que está sendo impulsionado abertamente pelo governo dos EUA e pelos bilionários das big techs. No caso das big techs, há até a monetização do discurso red pill e incel”, afirma.

A deputada considera que esses discursos procuram redirecionar para mulheres e minorias a insatisfação com problemas econômicos e sociais. “O que eles querem é convencer a população de que, de alguma forma, as condições materiais precárias que o sistema capitalista lhes oferece são culpa da liberdade, da felicidade e dos direitos das mulheres e minorias políticas”, diz.

“Estão pegando a insatisfação causada pelo sistema em que vivemos e colocando a culpa dela nas maiores vítimas desse sistema”, completa.

Para Hilton, a força eleitoral de candidaturas antifeministas mostra que esse discurso extravasou das redes para as urnas. “E isso colou. Isso virou voto feminino em quem quer o fim do voto feminino.”

Disputa no Congresso

A nova composição da Câmara impõe, na avaliação da deputada, uma disputa ainda mais dura em torno dos direitos das mulheres. A direita elegeu 303 dos 513 deputados federais, enquanto os partidos classificados à esquerda ficaram com 124 cadeiras.

Hilton afirma que a atual legislatura demonstrou, porém, que uma correlação de forças desfavorável não impede avanços quando há mobilização dentro e fora do Parlamento.

“Nessa legislatura, mesmo com tudo apontado contra nós, conseguimos avanços importantes nos direitos das mulheres, como o avanço da criminalização da misoginia e outras legislações que protegem a vida das mulheres, e derrotar bancadas gigantescas que queriam aprovar propostas como o PL do Estupro.”

O projeto que criminaliza a misoginia, já aprovado pelo Senado, teve a urgência aprovada pela Câmara em julho, mas ainda aguarda votação de mérito no plenário. A proposta equipara crimes motivados por misoginia aos previstos na Lei do Racismo.

Já o PL 1.904/2024, apelidado por seus críticos de “PL do Estupro”, teve o regime de urgência aprovado em 2024, mas não avançou para votação de mérito após mobilização popular. A proposta estabelece pena equivalente à de homicídio para abortos realizados após 22 semanas, inclusive em casos de gravidez decorrente de estupro.

“Isso foi fruto de mobilização, nas redes e nas ruas, ininterrupta. E é assim que precisaremos continuar, de forma ainda mais intensa, nessa próxima legislatura. Pois é isso que temos em mãos com a nova composição do Congresso”, afirma Hilton.

‘Problemas reais’ e disputa pelo voto

A deputada também relaciona a capacidade de conter o avanço da extrema direita à disputa por questões materiais. Para ela, uma das tarefas do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) será tornar mais explícitas as diferenças entre os dois projetos na vida cotidiana.

“Precisamos de comunicação direta e didática sobre os riscos que Flávio Bolsonaro oferece para a vida cotidiana das pessoas em comparação com as entregas reais do governo Lula.”

Hilton aponta o fim da escala 6×1 como exemplo. A proposta, já aprovada pela Câmara e no segundo dia de discussões no Senado, reduz a jornada semanal e amplia os dias de descanso sem redução de salário. Flávio Bolsonaro criticou a medida e defendeu maior liberdade para negociação de jornadas e remuneração entre trabalhadores e empregadores.

“Flávio Bolsonaro defende que as pessoas recebam pelas horas trabalhadas. Lula quer o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho sem redução salarial. Quem compara, vota Lula”, afirma.

Para a deputada, a pauta não deve ser vista apenas como uma proposta a ser aprovada, mas como parte de um esforço mais amplo para reconquistar eleitores que votaram na direita ou se afastaram do campo progressista no primeiro turno.

“Não apenas a aprovação do fim da escala 6×1 pode influenciar, como o próprio processo legislativo para tal já está influenciando e ajudando a virar esse jogo”, analisa a deputada, que completa: “E sim, há condições de aprovarmos a proposta antes do segundo turno. E é para isso que já estamos nos mobilizando”.

Quelle
Brasil de Fato
Original öffnen ↗
War diese Nachricht nützlich?

Debatten 0

Seien Sie der Erste, der zur Debatte beiträgt.

Teilen Sie Ihre Informationen und fördern Sie Ihr Argument

Zögern Sie nicht, nützliche Informationen zu veröffentlichen.

Um an der Diskussion teilzunehmen, melden Sie sich an oder erstellen Sie ein kostenloses Konto.