Quando a violência vira símbolo político

Par Anderson Barcelos Martins13/10/2026 às 13:537 vues
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Brasil de Fato

A naturalização da violência começa quando a destruição do outro passa a ser confundida com força, identidade e vitória.

Uma criança de nove anos, vestindo a camiseta amarela da seleção brasileira, ergue um objeto semelhante a uma arma de fogo sobre um carro, enquanto adultos comemoram, ao redor, o avanço do candidato Flávio Bolsonaro ao segundo turno das eleições presidenciais. A cena foi registrada em Parnamirim, no Rio Grande do Norte.

Segundo informações divulgadas pelo Conselho Tutelar local, o objeto seria um simulacro. A distinção material é indispensável, mas não encerra a questão. Embora uma arma de brinquedo não seja uma arma de fogo, quando empunhada por uma criança como emblema de celebração, diante de adultos reunidos em torno de um acontecimento político, ela nos obriga a perguntar quais sentidos estão sendo produzidos e que formas de pertencimento se tornam desejáveis.

A violência não se naturaliza apenas quando deixa de provocar medo. Naturaliza-se também quando seus símbolos se tornam familiares, deixam de causar estranhamento e passam a funcionar como sinais de força, vitória ou identidade. Nesse processo, a violência não desaparece, apenas muda de significado.

Não se trata de atribuir a uma imagem isolada o poder de explicar uma sociedade inteira, tampouco de deduzir dela as convicções de cada pessoa presente. Trata-se de reconhecer que os símbolos participam da produção da vida social. Eles ensinam modos de perceber o mundo, distinguir aliados e inimigos, imaginar o poder e definir aquilo que merece ser celebrado. Uma imagem não explica tudo, mas pode tornar visível algo que uma sociedade já aprendeu a tolerar.

Antes de aprender a usar a violência, aprendemos seus símbolos. O símbolo precede a técnica, oferecendo vocabulários e repertórios pelos quais a violência pode se tornar imaginável, familiar e, em determinadas circunstâncias, legítima. O problema, portanto, não é apenas aquilo que uma criança vê ou segura, mas o universo de significados no qual aprende a interpretar o gesto. Quando armas se convertem em troféus, agressividade em coragem e força sobre o outro em demonstração de superioridade, a violência deixa de figurar somente como ameaça e passa a integrar o repertório cultural do pertencimento.

No campo político, a questão assume uma gravidade particular quando a diferença deixa de ser reconhecida como parte legítima da vida democrática e passa a ser construída como ameaça à própria existência do grupo. O adversário já não é alguém cujas ideias precisam ser confrontadas, mas alguém cuja presença passa a ser percebida como intolerável. A divergência converte-se em inimizade e a inimizade, em autorização moral para excluir, humilhar ou destruir.

A aniquilação do outro começa, muitas vezes, antes da agressão física. Começa quando se retiram do outro a complexidade, a dignidade e o direito de existir sem precisar justificar sua existência. Desumanizar é reduzir pessoas a categorias descartáveis, converter diferenças em defeitos e transformar a violência contra determinados grupos em algo aparentemente justificável. Quando isso acontece, a destruição já não precisa ser apresentada como crueldade. Pode ser celebrada como coragem, defesa ou restauração da ordem.

Uma democracia não se sustenta apenas pela realização de eleições, pela existência de instituições ou pelo reconhecimento formal de direitos. Ela depende também da capacidade de admitir que o outro, mesmo quando pensa de maneira radicalmente distinta, não perde por isso sua condição de sujeito. Quando a política passa a operar pela desqualificação da existência alheia, o espaço público deixa de ser lugar de disputa entre projetos e se aproxima de um campo de autorização da violência.

Há uma contradição incontornável quando discursos em defesa da família convivem com práticas que expõem crianças à instrumentalização política. A proteção integral da infância não pode depender da posição ideológica de quem a reivindica. O princípio deve valer independentemente da camiseta, da bandeira ou da manifestação. A criança não é responsável pelos símbolos que os adultos colocam ao seu redor, nem pode ser transformada em instrumento de suas disputas.

Na cultura digital, o acontecimento não termina quando a celebração acaba. A imagem ganha circulação própria, é compartilhada, comentada e convertida em argumento. A criança exposta no espaço público pode ser exposta novamente diante de uma audiência muito maior, transformada em prova, provocação ou munição retórica. Podemos protegê-la do objeto e, ainda assim, submetê-la à violência da exposição. A crítica à naturalização da violência não pode reproduzir, em nome da denúncia, outra forma de instrumentalização da infância.

A responsabilidade, por isso, não se restringe à família ou aos indivíduos diretamente envolvidos. Ela alcança instituições políticas, plataformas digitais, escolas e Estado, cada qual com atribuições distintas na construção de uma cultura de proteção e responsabilidade. Não basta perguntar se uma criança pode segurar determinado objeto. É necessário perguntar o que os adultos ensinam quando esse gesto é acolhido como parte de uma celebração e quais limites éticos desaparecem quando a violência se torna um signo de afirmação coletiva.

O ponto decisivo não é afirmar que aquela cena, por si só, produzirá adultos violentos. É compreender que nenhuma cultura se torna violenta apenas no instante em que alguém agride. Antes, há processos de significação que distribuem humanidade e desumanidade, sofrimento digno de compaixão e sofrimento considerado merecido, vidas que devem ser protegidas e vidas cuja destruição pode ser tolerada. A violência física pode ser o acontecimento visível, sua preparação simbólica, porém, pode ser longa, cotidiana e socialmente compartilhada.

Uma sociedade começa a naturalizar a violência quando seus símbolos já não parecem violentos. Quando a arma se torna troféu, a hostilidade se converte em sinal de força e a eliminação do diferente aparece como promessa de ordem, o problema já não está apenas no objeto empunhado. Está no horizonte moral que torna esse objeto inteligível e no tipo de comunidade que se reconhece nele.

Talvez o aspecto mais inquietante daquela imagem não seja apenas o que uma criança segura, mas o mundo que os adultos tornam possível ao redor dela. Porque a violência não precisa estar consumada para começar a ser legitimada. Às vezes, basta que deixe de causar estranhamento. E quando a destruição do outro passa a ser celebrada como vitória, não é apenas a infância que está em risco. É a própria possibilidade de viver democraticamente com aqueles que não somos.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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Brasil de Fato
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