Viciados em atum: Humanidade vem pescando esses predadores marinhos há 44 mil anos

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Door Emma Elliott Smith, Research Associate in Anthropology, National Museum of Natural History, Smithsonian Institution; University of New Mexico14/10/2026 às 11:347 weergaven
Há milênios as pessoas vêm encontrando maneiras de localizar, pescar e compartilhar atuns, mas a pesca comercial e industrial das últimas décadas pode colocar em risco o futuro de algumas espécies do peixe.
          LUNAMARINA/iStock via Getty Images Plus
Há milênios as pessoas vêm encontrando maneiras de localizar, pescar e compartilhar atuns, mas a pesca comercial e industrial das últimas décadas pode colocar em risco o futuro de algumas espécies do peixe. LUNAMARINA/iStock via Getty Images Plus
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Há milênios as pessoas vêm encontrando maneiras de localizar, pescar e compartilhar atuns, mas a pesca comercial e industrial das últimas décadas pode colocar em risco o futuro de algumas espécies do peixe. LUNAMARINA/iStock via Getty Images Plus
Há milênios as pessoas vêm encontrando maneiras de localizar, pescar e compartilhar atuns, mas a pesca comercial e industrial das últimas décadas pode colocar em risco o futuro de algumas espécies do peixe. LUNAMARINA/iStock via Getty Images Plus

Desde um humilde sanduíche recheado de maionese até um pedaço caro de sashimi, o atum é uma fonte de alimento muito apreciada por pessoas em todo o mundo. Outrora uma fonte de proteína enlatada barata e fácil de transportar, os atuns-azuis de hoje podem chegar a preços na faixa dos milhões de dólares em leilões. Milhões de toneladas de atum são capturadas todos os anos, sustentando uma indústria global avaliada em cerca de US$ 40 bilhões (cerca de R$ 200 bilhões) anualmente.

Mas os atuns são mais do que apenas a carne rosada encontrada em latas e no sushi, e a história da Humanidade com esses peixes remonta a tempos mais antigos do que você imagina.

Como uma bióloga e um arqueólogo interessados nas interações de longo prazo entre o ser humano e o meio ambiente, queríamos investigar o registro profundo da relação das pessoas com os atuns.

Contamos com a expertise de 18 pesquisadores renomados em todo o mundo e estudamos uma variedade de fontes, desde restos esqueléticos de atuns em sítios arqueológicos até arte rupestre antiga, pinturas em afrescos e vasos, registros históricos escritos e relatos etnográficos de comunidades indígenas. Esses dados nos ajudaram a compreender onde, quando e por que as pessoas pescavam atuns, e quais forças culturais e ambientais moldaram essas primeiras atividades pesqueiras. Por sua vez, isso proporcionou novos insights sobre como as capturas do passado se comparam às milhões de toneladas pescadas atualmente.

Os atuns viajam em cardumes que podem incluir milhares de peixes. DeepAqua/iStock via Getty Images Plus
Os atuns viajam em cardumes que podem incluir milhares de peixes. DeepAqua/iStock via Getty Images Plus

Um predador de topo no oceano

“Atum” é um nome comum dado a um grupo de 15 espécies de peixes. As principais espécies comercializadas incluem oito “atum-verdadeiros” do gênero Thunnus, juntamente com o atum-bonito (Katsuwonus pelamis).

Os atuns estão entre os maiores predadores do oceano aberto, com algumas espécies atingindo mais de 3 metros de comprimento e vivendo por mais de 40 anos. Os atuns são nadadores excepcionais; o atum-azul-do-Pacífico pode migrar 8.000 quilômetros pelo Pacífico Norte em questão de meses.

O atum também é um importante predador de topo do ponto de vista ecológico e atua como sentinela da saúde dos oceanos. Mas a maior parte das pesquisas científicas tem se concentrado nos últimos 75 anos, com avaliações da saúde das populações de atum comparadas ao ano de 1950. O foco nas últimas décadas levanta uma série de questões sobre a história mais antiga da pesca do atum antes do século passado.

Arqueólogos encontraram os ossos de atum mais antigos capturados por seres humanos na Caverna de Jerimalai, em Timor-Leste. Sue O’Connor
Arqueólogos encontraram os ossos de atum mais antigos capturados por seres humanos na Caverna de Jerimalai, em Timor-Leste. Sue O’Connor

Uma história profunda e dinâmica

A evidência definitiva mais antiga da pesca do atum, na forma de restos esqueléticos do que provavelmente eram atuns-bonito, provém de Timor-Leste no sudeste asiático, há cerca de 44.000 anos. Provavelmente auxiliada por canais de águas profundas que traziam os atuns para perto da costa, essa forma primitiva de pesca de atum é um tanto incomum — a maioria das regiões do mundo não apresenta evidências de pesca de atum até 10.000 anos atrás ou em épocas mais recentes.

Os antigos pescadores do Japão e da Coreia, por exemplo, capturavam atuns há pelo menos 7.000 anos, com uma rica tradição culinária e capturas em grande escala que se estendem até o gosto atual por esses peixes na região.

Uma gravura do século XIII mostra armadilhas para atuns em Zahara de los Atunes, na Espanha, onde os pescadores apertavam a rede e puxavam os peixes em direção à costa. Fundación Casa Medina Sidonia
Uma gravura do século XIII mostra armadilhas para atuns em Zahara de los Atunes, na Espanha, onde os pescadores apertavam a rede e puxavam os peixes em direção à costa. Fundación Casa Medina Sidonia

O nordeste do Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo abrigam uma das mais antigas e importantes zonas de pesca de atum do mundo, voltadas para o atum-azul-do-Atlântico. Alguns ossos antigos de atum encontrados em um sítio neandertal em Gibraltar, datado de cerca de 26.000 anos atrás podem ter sido obtidos por neandertais que se alimentavam de carniça. Mas entre 9.000 e 11.000 anos atrás milhares de ossos de atum foram depositados na Grécia, em uma caverna com vista para a Baía de Kiladha. O número de sítios arqueológicos em toda a Europa com restos de atum aumenta rapidamente nos registros arqueológicos a partir de cerca de 8.000 anos atrás.

Esses primeiros pescadores utilizavam uma variedade de métodos para capturar atuns, incluindo anzol e linha, arpões e armadilhas ou redes. Frequentemente, aproveitavam características topográficas que permitiam conduzir os peixes para perto da costa. Essa pesca do atum está registrada em documentos escritos, pinturas e outras formas de arte, demonstrando a importância cultural desses peixes para as antigas sociedades europeias. Os antigos gregos consideravam o atum digno de sacrifício aos deuses e o utilizavam como oferendas a Poseidon.

Há 3.000 anos, já havia se formado no Mediterrâneo uma pesca comercial do atum-azul-do-Atlântico, com comércio em grande escala e redes e armadilhas especializadas. Nos séculos XVI e XVII, as pessoas provavelmente capturavam dezenas de milhares de toneladas por ano. Essa pesca foi viabilizada pelos padrões previsíveis de migração do atum-azul-do-Atlântico e pelo acesso costeiro aos atuns – sem a necessidade de perigosas viagens oceânicas.

Um osso de atum-azul-do-Pacífico encontrado em um sítio arqueológico na Ilha de Vancouver. Iain McKechnie
Um osso de atum-azul-do-Pacífico encontrado em um sítio arqueológico na Ilha de Vancouver. Iain McKechnie

Por mais de 5.000 anos, os povos indígenas da costa noroeste da América do Norte, particularmente no território Nuu-chah-nulth, mantiveram uma pesca importante e complexa do atum-azul-do-Pacífico.

Relatos etnográficos de anciãos nativos descrevem como, durante eventos únicos de águas quentes no final do verão, as pessoas navegavam à noite pelos fiordes, auxiliadas pelo plâncton bioluminescente natural. Com observadores vigiando os fiordes e se comunicando a partir da terra, os pescadores acendiam fogueiras nas canoas para atrair os atuns para perto o suficiente para serem arpados. As pessoas lançavam suas lanças contra esses peixes enormes, alguns talvez com mais de 2 metros de comprimento e pesando 290 quilos. Vértebras de atum-azul foram encontradas em 23 sítios arqueológicos na região.

No sul da Califórnia, as pessoas também capturavam atuns, principalmente nas proximidades da Ilha de Santa Catalina, onde pescadores indígenas capturavam atum-azul-do-Pacífico, atum-albacora, atum-amarelo e atum-bonito por 6.000 anos, deixando restos esqueléticos dos peixes em sítios arqueológicos na região.

Trabalhadores em uma fábrica de conservas de atum da Starkist em 1953, na Califórnia. Charles E. Rotkin/Corbis/VCG via Getty Images
Trabalhadores em uma fábrica de conservas de atum da Starkist em 1953, na Califórnia. Charles E. Rotkin/Corbis/VCG via Getty Images

Mas foi somente nos séculos XIX e XX que a pesca comercial e esportiva do atum se desenvolveu na região. O atum experimentou um aumento meteórico de popularidade durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. Frequentemente concentradas em torno das fábricas de conservas em Los Angeles e San Diego, a pesca comercial e industrial de atum do sul da Califórnia se beneficiou das comunidades pesqueiras de imigrantes japoneses e portugueses, o que ajudou a dar origem a uma indústria global de atum.

Surgimento da exploração oceânica

O consumo de atum pelas pessoas obviamente não é novidade. Mas como a escala da captura de atum mudou ao longo do tempo?

Usando a quantidade de espinhas de atum presentes em sítios arqueológicos como uma métrica aproximada, descobrimos que mesmo as maiores dessas antigas pescarias – as do Mediterrâneo – provavelmente retiraram apenas milhares de toneladas de atum do mar ao longo de milênios, o que é insignificante em comparação com as milhões de toneladas de atum agora retiradas dos oceanos a cada ano.

Esse contraste levanta questões importantes: quais são as consequências da explosão da exploração oceânica em um período de tempo relativamente curto? Como as pessoas podem gerenciar de forma sustentável as populações de atum? Não há respostas fáceis, e três das espécies de atum comercialmente importantes — o atum-azul-do-sul, o atum-azul-do-Pacífico e o atum-patudo — continuam ameaçadas de extinção, vulneráveis ou quase ameaçadas. Em várias regiões, porém, uma combinação de governança eficaz, monitoramento e controles de captura estabilizou as populações de atum, mesmo com capturas intensivas.

As pessoas têm uma longa relação com o atum, não apenas capturando-o, mas também retratando-o na arte. Heritage Art/Heritage Images/Hulton Archive via Getty Images
As pessoas têm uma longa relação com o atum, não apenas capturando-o, mas também retratando-o na arte. Heritage Art/Heritage Images/Hulton Archive via Getty Images

A longa história da pesca do atum também destaca a capacidade humana de inovação. Há mais de 44.000 anos as pessoas vêm encontrando maneiras de localizar, capturar e compartilhar o atum. Essa mesma capacidade, canalizada para a cooperação internacional e a gestão baseada na ciência, pode ajudar a manter os estoques globais de atum em níveis sustentáveis – mesmo que provavelmente nunca mais atinjam os níveis de abundância anteriores à pesca comercial.

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Emma Elliott Smith recebe financiamento do Smithsonian Institution.

Torben Rick não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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