
“Cynthia Lammel Fogaça: atleta convocada para a Seleção Brasileira de Surdos”. Há alguns anos, essa frase parecia inimaginável para a hoje goleira da UFSM Futsal, acadêmica do 8º semestre de Enfermagem na UFSM, nascida e criada em Derrubadas, município da Região Noroeste do Rio Grande do Sul com pouco menos de 3 mil habitantes.
Ela recebeu um convite da Confederação Brasileira de Desportos de Surdos e, em julho, foi a São Paulo participar de um processo seletivo. De lá, no mesmo dia da atividade, voltou com a confirmação de que seria parte do grupo de jogadoras que defenderá o país nas Surdolimpíadas de Inverno de 2027, que acontecem entre 15 a 24 de janeiro, na Áustria.
Focada na seletiva, foram semanas de trabalho e superações tentando dividir todas as esferas da vida para chegar preparada para o compromisso na capital paulista. Em meio a todo o orgulho de si mesma, uma vez que conseguia reconhecer que precisou transformar suor e lágrimas em dedicação e esforço para chegar neste momento, sabia que tinha algo ainda a ser feito: uma ligação, que não precisou de palavras.
“É um sonho que eu tinha. Foi um sentimento sensacional. A primeira coisa que eu quis fazer foi contar para a minha mãe. Quando eu saí do treino, logo liguei para ela, mas ela não atendeu. Eu estava a caminho de pegar o voo para voltar e ela me ligou de volta. Eu só chorava, não conseguia falar nada, e ela já tinha entendido que eu havia sido convocada”.
Uma vida inteira com a bola no pé
Cynthia nasceu com surdez total. No processo de oralização, ela fez duas cirurgias: a primeira com 9 anos de idade e a segunda aos 15, mas precisava usar um aparelho externo que, segundo a própria, “não ajudava muito”. Hoje, usa um implante: a parte externa capta os sons, enquanto a interna os envia à cóclea, estrutura do ouvido responsável pela audição, o que permite que ela ouça.
Começou a viver o futsal tão nova que nem sabe dizer quando. “Hoje tenho 22 anos, então são cerca de 20 anos já nessa caminhada”, contou. A atleta entrou no time da UFSM em 2024, mas foi um ano antes que sua vida teve diferentes reviravoltas: ao mesmo tempo em que chegava a Santa Maria e ingressava no curso de Enfermagem, se tornava goleira – posição em que despontou.
A mãe de Cynthia, Carla Lammel, confirma que a filha realmente sempre teve intimidade com a prática do futsal. Muito proativa, ela jogava “na linha” – jogadoras que atuam na quadra e podem usar apenas os pés e o corpo, sem as mãos – e participava das famosas “escolinhas” durante a infância e, como muitas vezes não havia meninas para jogar, acabava jogando com os meninos.
“Desde pequena, procurei proporcionar à Cynthia tudo o que estava ao meu alcance para que ela tivesse uma vida plena, com oportunidades como qualquer outra criança da sua idade. Por causa da deficiência auditiva, busquei constantemente incentivá-la a experimentar, participar e descobrir suas próprias capacidades. O esporte foi se tornando uma parte muito importante da vida dela, porque, além de desenvolver suas habilidades, permitiu que ela mostrasse seu potencial e conquistasse seu espaço”, disse Carla.
A amiga de infância da atleta, Eduarda Rasch, a define como alguém “com muita personalidade”, esforçada e inteligente. O traço mais marcante, porém, é a preocupação com quem ela preza. “Ela prioriza muito quem convive com ela, se doa de verdade e está sempre presente quando alguém precisa, seja de ajuda ou apenas de uma palavra de apoio”, aponta. Qualidade que pesa ainda mais em um esporte coletivo como o futsal.

Sejam gritos ou sinais
Atualmente, junto de eventuais compromissos com a Seleção Brasileira, em São Paulo, Cynthia divide o tempo dedicado às quadras em três equipes no Rio Grande do Sul: além da UFSM Futsal, em que disputou neste ano a primeira divisão estadual, defende o “Sport FC”, de Tupanciretã, e o time da Associação dos Surdos de Santa Maria. Ela explica que há diferenças entre jogar com surdas e com aquelas colegas que classifica como “ouvintes”.
“Minha comunicação com as ouvintes é bem tranquila, eu consigo escutar perfeitamente e me comunicar normalmente. A gente vive gritando durante os jogos, então não tem como não ouvir”, declarou de forma bem-humorada. “Com as surdas é com sinais, e a gente precisa estar ainda mais atento. Como sou goleira, quando alguém passa por trás, eu tenho que cuidar. Com as ouvintes dá para avisar: ‘tá vindo alguém de trás’. Com as surdas, elas só olham o que está na frente. Vindo de costas, não conseguem escutar”.
Na Seleção Brasileira de Futsal de Surdos, de acordo com Cynthia, apenas quatro atletas são oralizadas – ou seja, o diálogo com o elenco completo se dá através da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Para igualar as condições, ninguém pode usar aparelho auditivo durante as partidas.
Na visão do treinador da UFSM Futsal, Daniel Correa, a jogadora é uma das lideranças da equipe dentro de quadra e, tecnicamente, “faz parte do futsal moderno”: apesar de ser goleira, não se resume a isso e não teme “jogar com os pés” quando necessário. “É uma menina que faz bastante pelo plantel em todos os aspectos e acaba se tornando completa”, comentou.
A ala e capitã das “gurias da Federal”, Estéfane Marzari, a Tefa, é colega de equipe de Cynthia há duas temporadas e define a goleira como reservada fora das quatro linhas. Ainda assim, sempre se sentiu segura ao jogar sabendo que a companheira estava debaixo das traves e afirma entender as razões pelas quais a atleta da Universidade foi selecionada para representar o Brasil nas Surdolimpíadas.
“Na minha opinião, o que faz ela ser convocada hoje, acima de tudo, é a força de vontade e a garra dela. Apesar da surdez, ela buscou melhorar e estar no meio de todos e nunca usar isso como um empecilho, evoluindo e melhorando cada dia mais. Acredito que esse seja o grande diferencial dela”, frisou Tefa.
Entre as traves e o jaleco
Em certo momento, Cynthia chegou a pensar se, devido à sua conexão com o mundo dos esportes, não seria melhor ingressar em algum dos cursos de Educação Física. Porém, o que ela queria mesmo era praticar, ser atleta. A escolha, de qualquer forma, não fugiu da área da saúde – em que ela sempre quis trabalhar – e a jovem de Derrubadas encontrou a Enfermagem em seu caminho.

A amiga de infância Eduarda Rasch também cita como outra qualidade da goleira a capacidade de gerenciar seu tempo para cada tarefa. A representante da UFSM Futsal admite como é na prática: “eu vivo cada dia por vez, tentando conciliar tudo: aulas, pesquisas, futsal, meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), a vida pessoal… vou um passinho de cada vez, mas tem dado certo”.
Cynthia tem como orientadora a professora Graziele Dalmolin, do Departamento de Enfermagem. A docente revela que conhece a aluna desde que ela estava no terceiro semestre da graduação, quando lecionou uma das disciplinas. Posteriormente, a estudante se tornou bolsista de iniciação científica, função que exerce há três anos, e passou a integrar o Grupo de Pesquisa Trabalho, Ética, Saúde e Segurança do Paciente (GTESSP), liderado por Graziele.
A coordenadora do GTESSP conta que, como aluna, a goleira sempre foi muito determinada, estudiosa e participativa, e parte disso tem relação com as experiências dela no futsal. “Acredito que ela será uma enfermeira muito competente e humana porque já carrega esses valores com ela, seguindo os princípios éticos e articulada às políticas de saúde. Certamente a vivência dela no esporte vai enriquecer sua formação, ampliando sua sensibilidade para a diversidade, a inclusão e uma assistência mais acessível e atenta às necessidades de saúde da população”, pontuou a professora.
“Eu só preciso me provar para mim mesma”
Nem sempre Cynthia teve o sonho de defender a Seleção Brasileira de Futsal de Surdos e disputar uma edição das Surdolimpíadas. Ela foi se ambientar acerca desse cenário paralelo à modalidade somente quando passou a viver o esporte em Santa Maria, em 2024, e cultivar a possibilidade de um dia chegar onde hoje chegou. Antes, jogava com ouvintes e sentia que precisava se provar mais que as colegas.
“Apesar de ser goleira, e não precisar tanto ouvir o que minhas companheiras de linha dizem, ser surda e se comunicar dentro de quadra não é fácil. Nunca perdi oportunidades por ser surda, apesar de sofrer com a torcida, que costuma falar de mim, tentar debochar. Mas não me incomoda e nem nunca me impediu de seguir jogando. Eles falam, falam, falam e eu não presto atenção. Eu simplesmente ignoro e continuo focada. Ultimamente, não estou mais querendo me provar para os outros. Agora eu só preciso me provar para mim mesma”, desabafou.

Outra amiga e colega de UFSM Futsal de Cynthia, Rafaella Brum, enfatiza a importância de ver a parceira alçando voos maiores não só para si mesma, mas para quem acompanha de fora a nova jogadora da Seleção Brasileira. “É um sonho que ela conseguiu realizar. Ela tem um potencial enorme. Antes de nos aproximarmos, eu a via em competições regionais e ela sempre se destacava mais do que as outras da posição. Ela saiu do interior do Rio Grande do Sul e hoje inspira novas atletas a buscarem seus sonhos. Querendo ou não, muitas vezes a gente deixa um sonho de lado porque acha que não é capaz, mas a Cynthia é um bom exemplo de que não podemos fazer isso”, salientou Rafaella.
A convocação para as Surdolimpíadas mudou a forma como a Cynthia se enxergava, tanto como atleta quanto como pessoa. “Hoje, as pessoas me dizem que sou uma referência para muitas pessoas surdas e também para as ouvintes. Antes eu não me via como exemplo, só queria praticar e participar das competições. Agora me esforço bastante para ser profissional, porque me coloquei nessa posição”, destacou.
Uma boa classificação da Seleção Brasileira na disputa internacional pode levar a situação da goleira a outro patamar não só dentro do cenário do futsal de surdos. Se a equipe terminar no pódio – isto é, com a medalha de bronze, com o vice-campeonato ou com o título -, a representante da UFSM Futsal passará a ser beneficiada pelo programa Bolsa Atleta, iniciativa do Governo Federal que oferece apoio financeiro a atletas e paratletas de alto rendimento.
“Isso vai mudar muita coisa. Mas antes quero terminar bem este semestre, treinar bastante e evoluir para chegar bem preparada à Áustria. Será a minha primeira vez jogando lá e também será a minha primeira viagem para fora do país, então quero me preparar ainda mais. Ser campeã é o que eu espero”.
Texto: Pedro Pereira, jornalista
Fotos: IGB Fotos, da assessoria de imprensa da UFSM Futsal, e arquivo pessoal de Cynthia Lammel Fogaça
