A política não acontece apenas nos parlamentos, partidos, ruas ou campanhas eleitorais. Organiza-se também em redes digitais que conectam pessoas, difundem interpretações e mobilizam apoiadores. Essa transformação modifica as formas de participação, os vínculos coletivos e as disputas por visibilidade e influência.
Os canais de WhatsApp “Exército do Lula” e “Tropa do Flávio” ajudam a compreender essa mudança. O primeiro foi criado pelo deputado federal André Janones.
O segundo surgiu como iniciativa do Partido Liberal (PL), atribuída ao deputado Gustavo Gayer, com participação de Nikolas Ferreira na divulgação e administração. Associados, respectivamente, a Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, os canais distribuem mensagens, reforçam identificações e procuram transformar audiência em mobilização.
Essas iniciativas também colocam desafios para a Justiça Eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelece regras para a propaganda digital, mas a circulação acelerada de mensagens dificulta identificar responsáveis e fiscalizar possíveis irregularidades. O desafio é conciliar a aplicação da legislação com a liberdade de expressão e a dinâmica das redes.
A digitalização transforma a arena pública
Se a televisão profissionalizou a comunicação política, como nos debates presidenciais de 2002, em 2026 as plataformas digitais ampliam os agentes que produzem e fazem circular discursos. Influenciadores, comentaristas e usuários selecionam, editam e redistribuem falas, disputando a interpretação dos acontecimentos para além das emissoras tradicionais.
Nos canais de WhatsApp, administradores enviam conteúdos diretamente aos inscritos, que podem encaminhá-los a outras redes e conversas. Os próprios apoiadores tornam-se intermediários da comunicação, conectando lideranças, organizações e públicos. Partidos e meios tradicionais continuam importantes, mas disputam visibilidade com agentes que difundem narrativas próprias.
Essa estrutura não significa, necessariamente, ampliar o debate. Um canal pode alcançar milhares de pessoas sem promover interação ou confronto de ideias. Sua importância está também na capacidade de manter conteúdos em circulação, destacar acontecimentos e apresentar interpretações recorrentes. A digitalização não substitui a política institucional: transforma as condições em que ela acontece.
Pertencimento e identidade coletiva
Os nomes “Exército do Lula” e “Tropa do Flávio” têm significado sociológico. A linguagem militar sugere unidade, disciplina, confronto e compromisso com uma liderança. Os apoiadores são simbolicamente apresentados como integrantes de um coletivo que compartilha uma causa e se posiciona diante de adversários.
Grupos políticos não se constituem apenas pela concordância com programas ou propostas. Dependem também de símbolos, narrativas comuns e fronteiras que distinguem quem pertence ao grupo de quem é percebido como oponente.
Os canais digitais podem reforçar esses vínculos ao definir quais acontecimentos merecem atenção, quais valores devem ser defendidos e quem aparece como aliado ou adversário.
Processos semelhantes ocorrem em comunidades religiosas e movimentos sociais. A especificidade dos canais políticos está em articular o pertencimento coletivo à disputa por poder, representação e influência sobre decisões públicas.
É necessário, contudo, evitar presumir que todos os inscritos compartilhem as mesmas opiniões. Seguir um canal não significa concordar com todas as mensagens. Assim como uma audiência numerosa não equivale a uma organização coesa.
O número de seguidores tampouco corresponde diretamente a votos ou à capacidade de convencer eleitores. Alcance, engajamento, mobilização e influência são dimensões distintas.
A atenção como recurso político
Na arena digital, a atenção tornou-se um recurso estratégico. Não basta produzir uma mensagem: é preciso fazê-la circular e conquistar visibilidade. Vídeos, imagens, áudios e frases curtas podem ser compartilhados rapidamente, alcançando pessoas que não acompanham diretamente o canal de origem.
Conteúdos que provocam indignação, medo ou entusiasmo podem gerar reações imediatas e ampliar o engajamento. Em determinadas circunstâncias, essa dinâmica favorece mensagens simplificadoras, interpretações polarizadas e conteúdos que confirmam convicções existentes.
Isso não significa que a comunicação digital seja necessariamente prejudicial à democracia. Ela também pode divulgar informações relevantes, dar visibilidade a grupos pouco representados e facilitar a organização de ações coletivas. Seus efeitos dependem dos conteúdos, das práticas de comunicação, das relações de confiança e das condições institucionais em que as plataformas são utilizadas.
É importante distinguir visibilidade, mobilização e legitimidade. Um canal pode reunir muitos inscritos sem representar a opinião da sociedade. Uma mensagem pode alcançar grande audiência sem convencer seus destinatários. E a capacidade de mobilizar pessoas não confere, por si só, legitimidade democrática a uma liderança ou reivindicação.
Participação, desinformação e pluralismo
A circulação acelerada de mensagens cria desafios para o debate público. Conteúdos falsos, imagens retiradas de contexto e falas editadas podem circular antes de serem verificadas.
A Agência Lupa examinou publicações da “Tropa do Flávio” e identificou conteúdos enganosos no material analisado. Esse resultado se refere às mensagens verificadas e não autoriza generalizações sobre todos os seguidores do canal ou sobre todo um campo político.
A questão sociológica é compreender como a credibilidade se forma nas redes de comunicação. Uma mensagem pode ser recebida com confiança não apenas pelo que afirma, mas também por quem a compartilha e pela identificação que estabelece com o público.
Quando a identidade do grupo se torna central, conteúdos compatíveis com convicções existentes podem ser menos questionados, enquanto correções são interpretadas como ataques de adversários.
Os canais ampliam as possibilidades de participação. Usuários podem acompanhar conteúdos e encaminhar mensagens sem integrar formalmente um partido. Entretanto, participar da circulação de mensagens não é o mesmo que deliberar. O debate democrático exige acesso a informações confiáveis, possibilidade de contestação e reconhecimento da legitimidade de posições diferentes.
O pertencimento coletivo não é incompatível com o pluralismo. O problema surge quando a identificação com um grupo impede reconhecer a legitimidade dos adversários ou transforma divergências em ameaças. Por isso, importa perguntar não apenas quantas pessoas são mobilizadas, mas que tipo de participação é estimulado e quais condições existem para a discussão pública.
Uma nova infraestrutura da política
O “Exército do Lula” e a “Tropa do Flávio” expressam uma transformação que ultrapassa os dois casos. Os canais conectam lideranças e públicos, organizam a distribuição de mensagens e disputam a interpretação dos acontecimentos. A comunicação digital passa a integrar a própria infraestrutura da ação política.
Essa mudança precisa ser compreendida sem determinismo tecnológico. Os aplicativos não criam sozinhos identidades políticas, desigualdades ou conflitos ideológicos. Oferecem recursos que podem reorganizar e ampliar relações sociais já existentes. Seus efeitos dependem dos atores que os utilizam, das estratégias de comunicação, das características das plataformas e das instituições.
Compreender a política contemporânea exige observar não apenas eleições e instituições, mas também os circuitos de comunicação por meio dos quais grupos constroem visibilidade, sustentam vínculos e procuram influenciar a sociedade.
Essa perspectiva dialoga com análises sobre política e novas mídias no Brasil e sobre a arena pública digital.
O significado sociológico desses canais não está somente em sua dimensão numérica. Está em permitir observar como públicos são constituídos, identidades políticas são reafirmadas e mensagens se convertem em instrumentos de mobilização.
A questão decisiva é compreender em que condições essas formas de participação podem contribuir para uma esfera pública plural, informada e democrática.

Péricles Andrade não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
