Um santo contra o fascismo

به قلم Fabio Potiguar22/09/2026 às 10:59130 بازدید
Pier Giorgio Frassati
Pier Giorgio Frassati
Brasil de Fato

O jovem se abaixa e ata as botas. Aperta os cadarços, toma a mochila e começa a subir. Diante dele, os Alpes. Pier Giorgio Frassati amava as montanhas, o vento no rosto, os amigos e aquele instante em que, depois da subida, o horizonte se alargava.

Nascido em 6 de abril de 1901, filho de Alfredo Frassati, fundador do jornal La Stampa, veio de uma família burguesa de Turim (Itália), mas encontrou Jesus na Ação Católica. Primeiro, na Eucaristia. Depois, o mesmo Cristo na carne dos pobres. Não eram dois Jesus. O Cristo adorado no Pão era o Cristo encontrado na rua. E compreendeu que amar o pobre não era apenas levar-lhe pão, mas perguntar por que lhe faltava o pão. Foi canonizado em 7 de setembro de 2025 pelo Papa Leão 14.

A Rerum Novarum ajudou-o a perceber que a fé tem consequências sociais. Empenhou-se pelos direitos dos trabalhadores, pela justiça e enfrentou o fascismo. O jovem que se ajoelhava diante da Eucaristia não se ajoelhou diante do fascismo. Será que os jovens que adoram Jesus na Eucaristia, pelas paróquias do Brasil afora, são fascinados pelo fascismo? Se ajoelham diante dele?

O fascismo de Mussolini, marcado pelo ódio, a violência e o totalitarismo, foi condenado por Pio 11 na encíclica Non abbiamo bisogno — “Não temos necessidade” —, de 1931. O Papa denunciou a pretensão de dominar a juventude e um Estado que invadia a consciência, a família e a Igreja. Precisamos repetir hoje: Non abbiamo bisogno. Não temos necessidade de fascismo.

Mas o que é o fascismo? E como reconhecê-lo antes que seja tarde?

Ele pode voltar com outras roupas. Em “O fascismo eterno”, Umberto Eco aponta sinais: medo da diferença, inimigos fabricados, desprezo pelo pensamento crítico, culto à força. Nas redes, mentira, ódio e preconceito encontram novas praças. É preciso reconhecê-lo antes que pareça normal.

O fascismo disputa consciências e cultura antes de tomar o Estado. Gramsci percebeu como o intolerável pode tornar-se aceitável. E Martin Niemöller, pastor perseguido pelo nazismo, advertiu: “Vieram buscar os outros, eu me calei. Quando vieram me buscar, já não havia quem falasse”. O fascismo que ameaça o outro também me ameaça. Estamos todos sob ameaça.

Hannah Arendt chamou nossa atenção para a banalização do mal: quando se deixa de pensar, aquilo que deveria indignar vira rotina. Pensar é resistir. Norberto Bobbio lembra que democracia, direitos humanos e Estado democrático de direito caminham juntos: o poder deve estar submetido à lei.

Há ainda um território novo. Em “21 Lições para o Século 21”, Yuval Noah Harari mostra como dados, redes e algoritmos podem explorar medos e radicalizar pessoas. O fascismo pode chegar pela tela que carregamos nas mãos. Defender a consciência e o pensamento é resistir ao governo do medo e da mentira.

E, quando isso acontece entre cristãos, estamos diante de uma contradição com o Evangelho. Há hipocrisia e farisaísmo quando os lábios proclamam Jesus, mas alimentam o ódio; quando se beija a cruz, mas se despreza quem nela continua crucificado; quando se fala em Deus, pátria, família e valores cristãos, enquanto se fica no moralismo, no rigorismo, no ritualismo e nos “madames satãs” da vida.

No Brasil, o neofascismo não é abstração. Tem nomes, rostos, púlpitos, partidos e estruturas de poder. Encontra eco também em setores cristãos: entre católicos — padres, frades, freiras e leigos — e entre pastores e fiéis evangélicos. Invoca Deus e a família enquanto dissemina intolerância e desprezo pelos direitos humanos e pela democracia.

Não cabem no discipulado de Jesus homofobia, misoginia, racismo, intolerância religiosa — especialmente contra as religiões de terreiro —, preconceito, discriminação, nem qualquer outra forma de ódio.

Não adianta ser papa-hóstia ou andar com a Bíblia no sovaco se sua prática é da guerra e se semeia o ódio. Jesus disse: “Amai-vos uns aos outros” (Jo 15,12) e “Dou-vos a minha paz” (Jo 14,27). O discípulo de Jesus não é do ódio, é do amor. Não é da guerra, é da paz.

Volto ao jovem nos Alpes. Pier Giorgio aperta as botas e continua subindo. Leva a Eucaristia no coração, encontra Cristo nos pobres e sabe que amar também é lutar para que ninguém seja privado de pão, dignidade, liberdade e justiça. Morreu em Turim, em 4 de julho de 1925, aos 24 anos, vítima de poliomielite fulminante.

Décadas se passaram. O fascismo mudou de roupa. A montanha continua ali. Talvez Pier Giorgio esteja alguns passos à nossa frente. Ele para, olha para trás e parece esperar por nós. É preciso continuar subindo.

منبع
Brasil de Fato
گشودن نسخه اصلی ↗
این خبر مفید بود؟

بحث‌ها 0

نخستین مشارکت‌کننده در بحث باشید.

اطلاعات خود را به اشتراک بگذارید و استدلال خود را مطرح کنید

در انتشار اطلاعات یا داده‌های مفید تردید نکنید.

برای شرکت در بحث، وارد شوید یا حساب رایگان بسازید.