As cidades foram planejadas para um clima que já não existe: o desafio da adaptação climática nas eleições de 2026

Por Observatório das Metrópoles - Núcleo São Paulo24/09/2026 às 19:5152 visualizações
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Brasil de Fato

Um clima diferente, cidades construídas com referências do passado

As cidades brasileiras foram construídas, ampliadas e infraestruturadas a partir de referências climáticas do passado. Sistemas de drenagem, vias, equipamentos públicos, edificações e regras de ocupação do solo foram concebidos considerando determinados padrões de chuva, temperatura e recorrência de eventos extremos. O problema é que essas referências já não são suficientes para orientar as decisões sobre o futuro.

A mudança do clima altera as condições sob as quais as cidades funcionam. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) demonstra que os riscos urbanos resultam da combinação entre perigos climáticos, exposição e vulnerabilidade e que seus impactos são agravados por desigualdades, déficits de infraestrutura e padrões inadequados de urbanização. Por isso, uma chuva intensa, uma onda de calor ou uma inundação não atingem uma cidade abstrata: encontram territórios produzidos historicamente, com capacidades muito diferentes de proteção e resposta.

A questão colocada para as eleições de 2026, portanto, não é apenas como responder ao próximo evento extremo. É saber se os governos estão dispostos a revisar a maneira como o território é planejado diante de condições climáticas que já estão mudando. Adaptar significa reconhecer que aquilo que funcionou como referência no passado não pode continuar sendo tratado como garantia para o futuro.

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Adaptação climática não é uma nova política setorial

Um dos riscos do debate sobre adaptação é transformá-la em mais uma política isolada, ao lado da habitação, do saneamento, da mobilidade ou do desenvolvimento urbano. Essa interpretação reduz justamente aquilo que torna a adaptação necessária: sua capacidade de reorganizar decisões que já são tomadas todos os dias sobre o território.

A Lei nº 14.904, de 27 de junho de 2024, estabelece diretrizes para a elaboração de planos de adaptação à mudança do clima e determina que a gestão dos riscos climáticos seja incorporada aos planos e às políticas públicas setoriais e temáticas existentes, assim como às estratégias de desenvolvimento nas diferentes escalas de governo. Não se trata, portanto, de criar uma agenda paralela, mas de modificar a forma como as políticas existentes são formuladas, financiadas e avaliadas.

Isso significa que uma política habitacional precisa perguntar se a localização escolhida continuará segura diante de novos cenários climáticos. Uma obra de saneamento deve considerar como alterações no regime de chuvas afetam sua operação e o território no qual será implantada. Uma rede de mobilidade precisa ser planejada não apenas para funcionar em condições normais, mas também para manter acessos essenciais durante eventos críticos. E o desenvolvimento urbano deve impedir que a expansão da cidade continue criando novas situações de exposição.

A adaptação climática começa, assim, quando o risco deixa de ser tratado como um problema exclusivo da Defesa Civil ou do órgão ambiental e passa a influenciar as decisões ordinárias do Estado.

Capacidade institucional também é infraestrutura climática

Entretanto, integrar políticas exige mais do que aprovar planos ou executar obras. Exige capacidade institucional. O IPCC identifica a fragmentação institucional, as limitações financeiras, as dificuldades de planejamento integrado e as lacunas de monitoramento e avaliação entre os obstáculos à adaptação urbana. O relatório destaca ainda que capacidade de governança, acesso à ciência, tecnologia, conhecimento local e aprendizado institucional são condições fundamentais para que as cidades consigam se adaptar de maneira contínua.

Essa dimensão é particularmente importante porque o clima não muda uma única vez, e sim faz parte de um ciclo natural da Terra, permitindo que o Estado encontre uma solução definitiva. As condições de risco, a ocupação urbana e as próprias respostas adotadas também se transformam. Adaptar exige observar essas mudanças, avaliar se as intervenções funcionaram e corrigir caminhos quando necessário.

Por isso, capacidade institucional também deve ser entendida como infraestrutura climática. Uma cidade pode produzir um excelente mapa de risco e, ainda assim, continuar vulnerável se esse conhecimento não for aplicado no Plano Diretor, orçamento, localização das obras ou nos critérios de investimento. Com isso, na prática, pode ser entendido como a instalação de sensores e sistemas de monitoramento sem conseguir transformar os dados em decisões, ao então, à elaboração de um plano de adaptação que permaneça desconectado das secretarias responsáveis pela produção cotidiana da cidade.

É nesse ponto que geotecnologias, indicadores territoriais, modelagens e sistemas de informação ganham relevância. Eles permitem acompanhar mudanças, identificar territórios mais expostos, construir cenários e orientar prioridades. Mas a tecnologia não substitui a política pública. Um mapa que não modifica decisões permanece apenas como diagnóstico; a capacidade adaptativa surge quando informação, equipes técnicas, financiamento, coordenação institucional e participação social conseguem produzir aprendizado contínuo sobre o território.

O território precisa ser o elo entre as políticas

Os riscos climáticos evidenciam um problema conhecido das políticas urbanas brasileiras: diferentes setores atuam sobre o mesmo território, mas nem sempre planejam juntos. Habitação, saneamento, mobilidade, meio ambiente, saúde, infraestrutura e redução de riscos podem possuir instrumentos próprios, equipes distintas e prioridades específicas, embora suas decisões se encontrem concretamente no mesmo espaço urbano.

A adaptação oferece uma oportunidade para enfrentar essa fragmentação. O território pode funcionar como elemento de integração, permitindo compreender como uma decisão tomada em um setor interfere nos demais. Uma intervenção de drenagem, por exemplo, não pode ser avaliada apenas por sua capacidade de retirar rapidamente a água de determinado ponto se ela simplesmente transferir o problema para áreas a jusante. Da mesma forma, retirar famílias de uma área perigosa não representa adaptação se o reassentamento produzir novas vulnerabilidades sociais e territoriais.

Esse cuidado é importante porque respostas mal planejadas podem deslocar riscos em vez de reduzi-los. O próprio Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas alerta que determinadas ações urbanas podem transferir riscos entre lugares, grupos sociais ou setores. Adaptar, portanto, exige compreender as relações existentes no território antes de intervir sobre uma de suas partes.

O Ministério das Cidades tem reforçado essa perspectiva ao orientar estados e municípios a incorporar a dimensão climática às políticas urbanas e a priorizar os territórios e as populações mais vulnerabilizadas. A adaptação climática, nesse sentido, também é uma agenda de justiça territorial: não basta reduzir perdas médias se os benefícios da proteção continuarem concentrados onde já existe maior capacidade de investimento e proteção.

O que as eleições de 2026 precisam colocar em disputa

O Brasil chega às eleições de 2026 com instrumentos importantes em implementação. O Plano Nacional sobre Mudança do Clima, denominado Plano Clima 2024–2035, estabelece a adaptação como um de seus eixos e define como meta que, até 2035, todos os estados e pelo menos 35% dos municípios brasileiros disponham de planos de adaptação. A meta é relevante, mas o debate eleitoral precisa ir além da quantidade de planos produzidos e enfrentar uma questão mais difícil: quais condições permitirão que eles sejam efetivamente executados?

Municípios com estruturas técnicas reduzidas não podem receber novas responsabilidades sem financiamento, formação especializada, dados e apoio continuado. Os estados precisam assumir papel de coordenação regional e metropolitana, sobretudo onde os riscos ultrapassam limites municipais, enquanto a União possui capacidade de induzir mudanças por meio do financiamento, da produção de informações, dos critérios para investimentos públicos e da articulação entre políticas nacionais. Mais do que criar instrumentos, portanto, é necessário construir capacidade institucional para que eles orientem decisões concretas sobre o território.

Os programas de governo deveriam explicar como pretendem transformar conhecimento climático em planejamento. Isso significa criar condições para atualizar diagnósticos e cenários, rever investimentos diante de novas evidências, monitorar os resultados das políticas e corrigir estratégias quando as respostas se mostrarem insuficientes. A adaptação não termina quando uma obra é inaugurada ou quando um plano é publicado, porque o clima, a ocupação urbana e as próprias condições de vulnerabilidade continuam se transformando.

Durante muito tempo, a política urbana brasileira respondeu aos desastres como acontecimentos excepcionais. A mudança do clima torna cada vez menos sustentável essa lógica. O desafio agora é preparar cidades capazes de continuar funcionando, proteger pessoas e garantir direitos, mesmo quando as condições deixam de corresponder às referências históricas utilizadas em seu planejamento. Adaptar não significa imaginar cidades imunes aos eventos extremos, mas reduzir vulnerabilidades antes das perdas, impedir a produção de novos riscos e construir instituições capazes de aprender continuamente com um território em transformação.

É justamente essa capacidade de aprender que as eleições de 2026 precisam colocar em disputa. Uma política climática consistente deve reconhecer as incertezas sem utilizá-las como justificativa para a inação, agir com o conhecimento disponível, acompanhar os efeitos das decisões e modificar rumos sempre que necessário. Isso também exige superar a ideia de que a adaptação pertence a uma única secretaria ou pode depender de programas temporários. Se desenvolvimento urbano, habitação, saneamento e mobilidade moldam cotidianamente as condições de exposição e proteção da população, adaptar a cidade significa transformar a maneira como todas essas políticas são planejadas conjuntamente.

Em 2026, portanto, a escolha não será apenas entre diferentes projetos de governo, mas também entre continuar administrando as consequências de um clima que mudou ou construir capacidade pública para antecipá-las. Em um clima que já não é o mesmo, continuar planejando como antes também é uma decisão política — e provavelmente a mais arriscada delas.

*Henry Tomio Kreniski Maru é bacharel em Geografia pela UNIFESP e mestrando em Geografia pela UNICAMP, e-mail [email protected];

**Fernanda Mayumi Alcantara Bognar é bacharela em Geografia pela UNIFESP, e-mail [email protected];

***Ana Carolina Kramer Lopes é graduanda em Geografia pela UNIFESP, e-mail [email protected].

****Flávia Midori Alcântara Bognar é graduanda em Ciências Ambientais pela UNIFESP, e-mail [email protected].

*****Lucas da Silva Souza Barbosa é graduando em Geografia pela UNIFESP, e-mail [email protected]

******Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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