Em abril de 2020, o então ministro do Meio Ambiente sugeriu algo revelador. Disse que o governo poderia aproveitar a pandemia de covid-19 para afrouxar regras ambientais. A frase ficou conhecida como “passar a boiada”.
Este texto conta outra história de boiada. Uma que passou de um jeito bem diferente. Ela atravessou um quilombo na Amazônia depois de uma conversa longa, difícil e, no fim, acolhedora.
Um caminho, duas famílias, um impasse de anos
O caso aconteceu no quilombo de Murumurutuba, no Planalto Santareno, perto de Santarém, no Pará. Desde cerca de 2018, um morador da comunidade, identificado apenas como J., não deixava o gado dos vizinhos passar por um ramal dentro do seu terreno. O caminho ligava a várzea, área alagada parte do ano, à terra firme. Era essencial para os criadores de gado levarem seus animais entre as duas regiões.
Para a maioria dos moradores, a pecuária em pequena escala funciona como poupança. Um dos participantes do processo explicou isso assim: se alguém adoece de repente, ou é picado por uma cobra, vende-se um boi e resolve-se o problema.
J. alegava ser dono da passagem. Dizia ter documento do terreno. E cobrava respeito por parte de uma comunidade que, segundo ele, nunca cuidava do caminho depois que o gado passava.
Por trás disso havia mais coisa. J. relatou isolamento: contou que já teve o gado roubado, a canoa solta no rio e a luz cortada por vizinhos que jogavam paus no fio. Por outro lado, um morador, historicamente rival de J., chegou a dizer, durante o encontro, que o pai dele havia matado seu tio, décadas antes.
O conflito, portanto, não era só sobre gado. Envolvia uma disputa de terra, feridas antigas entre famílias e uma pergunta sobre pertencimento. Quem realmente faz parte daquela comunidade?
Por que não chamar a polícia de novo?
Em anos anteriores, episódios parecidos haviam terminado com policiais escoltando a passagem do gado à força. Desta vez, a comunidade escolheu outro caminho.
A Federação das Organizações Quilombolas de Santarém autorizou uma intervenção diferente. A proposta veio da Clínica de Justiça Restaurativa da Amazônia, ligada à Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).
A metodologia usada foi o círculo de construção de paz, criada por Kay Pranis, Barry Stuart e Mark Wedge. A técnica nasceu de tradições indígenas norte-americanas de resolução comunitária de conflitos. Hoje é uma das ferramentas mais usadas no Brasil dentro da chamada justiça restaurativa.
A ideia central é simples. Em vez de um juiz decidir quem tem razão, as próprias pessoas envolvidas conversam, ouvem-se e constroem juntas uma solução. Um objeto passa de mão em mão. Só quem o segura pode falar. Ninguém interrompe.
No Pará, esse tipo de prática já vinha sendo testado em escolas e unidades prisionais, dentro de um programa estadual de justiça restaurativa coordenado pelo Tribunal de Justiça do Pará.
Escutar antes de decidir
O processo teve três etapas. Primeiro, uma equipe conversou separadamente com cada lado. Escutou J. Depois escutou os criadores de gado.
Nessas conversas, muita coisa veio à tona. Os criadores mostraram que outros caminhos alternativos eram inviáveis. Um deles, por exemplo, exigia atravessar um trecho lamacento onde já haviam perdido uma vaca afogada.
J. disse que não se sentia incluído. Reclamou de estar sozinho, sem apoio dos vizinhos. Falou também que via a comunidade “criando gado para os outros”, às custas do seu terreno.
Na segunda etapa, todos se sentaram juntos, pela primeira vez, para dialogar. A conversa começou tensa. Dois participantes trocaram acusações duras. Um deles chegou a dizer que J. tinha “as mãos manchadas de sangue”, por causa da história antiga entre as famílias.
Os facilitadores precisaram pedir calma várias vezes. Aos poucos, porém, o grupo voltou ao ponto central. Valores como respeito, sinceridade e escuta foram escritos em papéis e colocados no centro da roda.
Foi então que a conversa mudou de tom. Moradores lembraram que o gado sustentava famílias inteiras em momentos de necessidade. Um deles disse algo que resumiu bem o espírito do encontro: “estamos juntos, temos que nos amparar; do contrário, todos perdem”.
O acordo e o que ele revela
No fim, chegou-se a um entendimento possível. O gado passaria naquele ano. Em contrapartida, a comunidade se comprometeu a buscar, no ano seguinte, outro caminho alternativo para a travessia.
J. aceitou. Disse, ao se despedir, que finalmente pôde “falar umas verdades” que ninguém antes quisera ouvir.
Eu e o outro pesquisador responsável pelo caso, Nirson Medeiros da Silva Neto, publicamos a análise completa do caso em um capítulo do livro Direitos, Ambientes e Conflitos. Para nós, o episódio mostra algo maior do que uma simples negociação sobre gado.
Conflitos socioambientais como esse costumam esconder camadas profundas. Envolvem racismo estrutural contra comunidades tradicionais, um fenômeno que pesquisadores chamam de “racismo ambiental”. Envolvem também disputas antigas sobre terra, muitas vezes ligadas a processos de reconhecimento territorial quilombola previstos no artigo 68 da Constituição de 1988.
Ou seja, resolver “a passagem do gado” exigiu lidar com décadas de história mal resolvida entre vizinhos.
Uma lição para além do quilombo
O caso de Murumurutuba não resolveu tudo de uma vez. Os próprios pesquisadores reconhecem isso. O acordo tratou apenas de uma passagem naquele ano específico, deixando em aberto uma solução permanente.
Ainda assim, o episódio mostra algo importante. É possível tratar conflitos de terra e recursos naturais sem recorrer imediatamente à Justiça ou à força policial. Basta criar um espaço onde todos possam falar e, principalmente, ser ouvidos.
Enquanto autoridades por vezes tratam a proteção ambiental como obstáculo a ser flexibilizado nas sombras, esse pequeno quilombo do Pará mostrou o caminho oposto. A boiada passou. Mas passou depois de conversa, e não de força.

Maike Joel Vieira da Silva (Maike Kumaruara) não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
