Política para ecossistemas de inovação: lógica da engenharia e projeto de sistemas complexos

10/09/2026 às 22:5138 visualizações
Marcelo Caldeira Pedroso
Marcelo Caldeira Pedroso
Jornal da USP

Por Marcelo Caldeira Pedroso, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP

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Os ecossistemas de inovação buscam promover uma conexão colaborativa e sinérgica entre diferentes stakeholders associados à economia do conhecimento. Essa racionalidade está fundamentada no modelo da hélice tríplice da inovação, que aborda a interação entre universidade, indústria e governo. Por meio da articulação entre esses atores, é possível transformar regiões em polos de conhecimento e tecnologia, e contribuir para o desenvolvimento econômico e social de forma sustentável.

Os ecossistemas de inovação se destacam pela governança colaborativa, engajamento dos stakeholders e infraestrutura. Eles podem apresentar diferentes configurações, tais como os hubs de inovação, distritos de inovação e parques tecnológicos.

Formatos dos ecossistemas de inovação

Existe uma certa sobreposição entre as definições dos formatos dos ecossistemas de inovação. Os hubs de inovação são regiões ou locais que conectam vários stakeholders – startups, empresas, universidades, cientistas, empreendedores, instituições públicas, investidores de capital de risco públicos e privados – para promover a colaboração e acelerar o desenvolvimento de novas tecnologias e modelos de negócios. Geralmente, esses hubs consideram uma vocação (ou foco) setorial, tais como saúde, tecnologia da informação, agronegócio, energia, economia azul (associada aos ecossistemas aquáticos) e, mais recentemente, inteligência artificial. Por exemplo, as regiões de São Carlos (SP) e Piracicaba (SP) apresentam, respectivamente, vocações para ciência aplicada e agronegócio.

Os distritos de inovação são caracterizados como áreas urbanas que reúnem instituições de pesquisa, organizações públicas e privadas intensivas em conhecimento e startups em espaços de uso misto (por exemplo, que combinam laboratórios, escritórios, apartamentos, lojas de conveniência e parques públicos). Exemplos de distrito de inovação incluem a Kendall Square (localizado em Cambridge, Estados Unidos) e o 22@Barcelona (em Barcelona, Espanha).

Os parques tecnológicos são espaços físicos planejados e institucionais que conectam universidades, governo e indústria. Geralmente, uma ou mais universidades são consideradas como instituições âncora dos parques tecnológicos. Esses espaços estimulam a transferência de tecnologia da academia para o mercado, bem como estão associados a ambientes de inovação que promovem a incubação e aceleração de novos negócios. Exemplos incluem o PIT (Parque de Inovação Tecnológica São José dos Campos, SP) e o Supera Parque (em Ribeirão Preto, SP).

Evolução dos ecossistemas de inovação

A forma como os ecossistemas emergem e evoluem é um tema pouco explorado pela literatura de negócios até o presente momento. Neste artigo, considero que a evolução dos ecossistemas de inovação pode seguir trajetórias distintas e complementares. Uma das formas consiste em adotar uma lógica de planejamento de ecossistemas de inovação. Essa lógica considera uma abordagem deliberada, de cima para baixo (top down), na qual as decisões e o planejamento são coordenados pelas lideranças e formuladores de políticas públicas. Esses líderes e gestores públicos definem os objetivos centrais com base em prioridades (por exemplo, determinadas no Plano Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação) e promovem um alinhamento estratégico com outras políticas públicas. Tipicamente, esse processo começa com a delimitação do escopo de atuação de determinado ecossistema de inovação, o mapeamento das vocações econômicas, sociais e tecnológicas da região e a análise do arranjo institucional local.

Uma segunda forma consiste na lógica de adaptação e aprendizagem. Essa lógica adota uma abordagem emergente, de baixo para cima (bottom up). Nesse caso, os ecossistemas de inovação surgem e evoluem conforme eles reagem às necessidades locais, se adaptam às mudanças e à evolução tecnológica, bem como acumulam conhecimentos e outros ativos estratégicos ao longo do tempo.

Lógica de engenharia e projeto de sistemas complexos

Uma terceira forma considera a adoção da engenharia e projeto de sistemas complexos. Essa lógica constitui uma área interdisciplinar voltada à concepção, análise, implantação e gestão de sistemas compostos de numerosos componentes interagentes. Esses sistemas complexos frequentemente apresentam comportamento emergente e sensibilidade às condições iniciais, exigindo abordagens sistêmicas que integrem seus componentes.

A engenharia e projeto de sistemas complexos possibilitam analisar as relações econômicas, sociais e tecnológicas entre diversos stakeholders em diferentes regiões. Uma das interações aborda a forma como as empresas conseguem conciliar cooperação e competição ao longo do tempo, particularmente no âmbito dos ecossistemas de inovação.

Nesse sentido, a lógica da engenharia e projeto de sistemas complexos pode ser utilizada no contexto dos ecossistemas de inovação, uma vez que estes abrangem diferentes atores e componentes interconectados, bem como requerem uma visão de longo prazo. Ademais, a abordagem sistêmica da engenharia e projeto de sistemas complexos permite harmonizar as lógicas de planejamento, adaptação e aprendizagem.

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Fonte
Jornal da USP
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