Moradores da Nova Kampala questionam remoções e defendem permanência na área

Par Danielle Lobato24/09/2026 às 14:4428 vues

Jaime Rodríguez, 41, é costureiro e vive há nove anos na Nova Kampala, comunidade localizada no distrito da Penha, na zona leste de São Paulo. Peruano, está no Brasil há 18 anos e mora com a esposa e os dois filhos, de 7 e 4 anos, que foram criados no bairro, afetado pela remoção de moradias pela CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano).

Jaime vendia água mineral e acompanhou a redução do movimento à medida que as famílias começaram a deixar a comunidade. “Os clientes foram embora. O movimento diminuiu e eu acabei fechando o comércio. Não vendi mais”, conta.

Ao falar sobre o cenário atual, Jaime olha para as casas destruídas e o entulho espalhado pela comunidade.

‘Agora vê a comunidade: toda destruída, cheia de entulho. Dá muita tristeza, dá dor no coração’

Jaime, moradora da Nova Kampala

Jaime é um dos moradores que ainda permanecem na Nova Kampala. A saída de famílias, o fechamento de comércios e a destruição de imóveis viraram rotina, enquanto os moradores defendem a permanência na área por meio da regularização fundiária.

Moradores de Nova Kampala questionam remoções e defendem permanência na área @Danielle Lobato/Agência Mural
Moradores de Nova Kampala questionam remoções e defendem permanência na área @Danielle Lobato/Agência Mural

Moradores de Nova Kampala questionam remoções e defendem permanência na área @Danielle Lobato/Agência Mural

Na quinta-feira (17), houve uma mobilização para discutir as remoções e defender a permanência na área situada no distrito da Penha. Na manhã de sexta-feira (18), novas remoções foram realizadas, com a presença de máquinas da CDHU no local.

A CDHU afirma que há contaminação do solo, inclusive por metano, o que é questionado por lideranças da região.

O líder comunitário Osmar Fiuza, 45, afirma que a CDHU apresentou, em 2003, um material sobre a presença de metano em determinados pontos da área. Os moradores têm pedido acesso a estudos mais recentes sobre a contaminação do solo, mas, segundo ele, não receberam novos documentos.

Osmar chegou à comunidade em 2014. Marceneiro, tinha uma oficina no local e acompanhou de perto as transformações do bairro. Com a redução do movimento e o avanço das remoções, fechou o negócio. Hoje, trabalha no Brás.

Como liderança comunitária, Osmar também acompanha a saída das famílias. Segundo ele, cerca de 1.900 já deixaram a Nova Kampala e aproximadamente 800 ainda permanecem.

O número de 2.700 moradias citado pelos moradores surgiu de uma apuração feita pela própria comunidade durante uma assembleia. De acordo com Osmar, o levantamento também considerou imóveis desocupados. “Imagina você investir 10 anos da sua vida na sua casa e chegarem aqui e falarem: agora é minha”, afirma.

O avanço das remoções mudou a paisagem da Nova Kampala e afetou a rotina de moradores e comerciantes que ainda permanecem na comunidade. @Arquivo pessoal/Divulgação
O avanço das remoções mudou a paisagem da Nova Kampala e afetou a rotina de moradores e comerciantes que ainda permanecem na comunidade. @Arquivo pessoal/Divulgação

O avanço das remoções mudou a paisagem da Nova Kampala e afetou a rotina de moradores e comerciantes que ainda permanecem na comunidade. @Arquivo pessoal/Divulgação

Uma manifestação havia sido convocada para quinta-feira (17) para discutir as remoções e defender a regularização fundiária. Durante a concentração, fogo foi ateado no local, e o advogado que acompanhava os participantes orientou o grupo a não seguir para a avenida.

Na manhã de sexta-feira (18), eles foram surpreendidos pela presença de máquinas da CDHU. A companhia conduz o processo de reassentamento das famílias que vivem na área e, após a desocupação do terreno, prevê a construção de um conjunto habitacional no local.

No entanto, há outro interesse no terreno. A área também receberá a futura estação Gabriela Mistral, da Linha 2-Verde. O projeto integra a expansão da linha entre Penha e Guarulhos.

O avanço das remoções mudou a paisagem da Nova Kampala e afetou a rotina de moradores e comerciantes que ainda permanecem na comunidade. @Danielle Lobato/Agência Mural
O avanço das remoções mudou a paisagem da Nova Kampala e afetou a rotina de moradores e comerciantes que ainda permanecem na comunidade. @Danielle Lobato/Agência Mural

O avanço das remoções mudou a paisagem da Nova Kampala e afetou a rotina de moradores e comerciantes que ainda permanecem na comunidade. @Danielle Lobato/Agência Mural

Para quem precisar deixar o local, a reivindicação é por uma solução habitacional definitiva ou indenização. “Lutar por uma moradia digna”, resume Jaime.

Para ele, a casa também representa a história construída pela família. “Passo para meus filhos [que é preciso] defender a casa. É aqui que a gente dorme, come, dá risada, às vezes chora. A gente tem que cuidar muito da nossa casa”, diz.

O que diz a CDHU

A CDHU afirma que está em curso um plano de reassentamento voluntário das famílias que atualmente moram na Favela Kampala. O processo envolve 1,8 mil famílias e, até o momento, mais de 1,2 mil mudanças já foram realizadas, incluindo imóveis residenciais, comerciais e de serviços, o que representa 66,7% do total.

A comunidade ocupa áreas do Estado e do município. Na área da CDHU, existe uma ação de reintegração de posse. Segundo a companhia, as condições do local são impróprias para moradia devido à contaminação do solo, inclusive por metano, além de outros riscos associados à infraestrutura precária, como a ocorrência de incêndios.

O plano prevê caução de R$ 2,4 mil e auxílio-moradia mensal de R$ 800 até o atendimento habitacional definitivo. A companhia diz que foram oferecidas alternativas previstas na política habitacional do Estado, incluindo imóveis prospectados pela CDHU.

Afirma que uma das opções fica em frente à comunidade, permitindo a manutenção dos vínculos com o bairro, as escolas e os serviços públicos. A CDHU também afirma que as equipes permanecem no local para orientar os moradores e acompanhar o processo de reassentamento.

O que diz o Metrô

A área que receberá a futura estação Gabriela Mistral será cedida pela CDHU, que conduz o reassentamento no terreno em que também serão construídos uma estação da Linha 12-Safira, um terminal de ônibus e a extensão da rua Natal Basile.

Essa estação será um dos principais pontos de integração da expansão da Linha 2-Verde e tem previsão de atender quase 100 mil passageiros por dia.

O empreendimento integra a segunda fase da expansão da Linha 2-Verde do Metrô, que já foi iniciada para levar a linha da Penha até Guarulhos. Essa etapa compreende 6,2 km de extensão e cinco novas estações, além do trecho de Vila Prudente até a Penha, com 8,3 km e oito estações.

Agência Mural

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