Não é bloco monolítico: líder do Movimento Negro Evangélico analisa voto dos religiosos e o 2º turno

Por BdF Entrevista15/10/2026 às 23:584 visualizações
A woman attends the 27th edition of the "March for Jesus" to celebrate Corpus Christi, an event that gathers a wide range of evangelical congregations, in Sao Paulo, Brazil, on June 20, 2019. (Photo by Miguel SCHINCARIOL / AFP)
A woman attends the 27th edition of the "March for Jesus" to celebrate Corpus Christi, an event that gathers a wide range of evangelical congregations, in Sao Paulo, Brazil, on June 20, 2019. (Photo by Miguel SCHINCARIOL / AFP)
Brasil de Fato

O voto evangélico tende mais para a direita e a extrema direita do que para a esquerda. Contudo, pode ser um erro generalizar o vasto universo cristão protestante como um bloco homogêneo. Ao contrário, as denominações são, em alguma medida, bastante diferentes entre si.

Há figuras evangélicas importantes no campo progressista, como o deputado federal e pastor Henrique Vieira (Psol-RJ), e nomes de direita que romperam com o bolsonarismo, como o também deputado federal e pastor Otoni de Paula (PSD-RJ). No eleitorado, o discurso armamentista de Jair Bolsonaro, copiado por seu filho e candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL), não pegou bem entre mulheres evangélicas. Já outras tantas pautas de aspecto moral, como a questão do aborto, encontram eco dentro da comunidade cristã.

Por essa razão, o voto do evangélico, neste momento de disputa acirrada, pode ser um fiel da balança. Na quarta-feira (14), inclusive, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva divulgou uma carta especialmente aos evangélicos.

Ao BdF Entrevista, o pesquisador e psicanalista Joabe Santos, da coordenação do Movimento Negro Evangélico (MNE) de São Paulo, disse que a relação dessa parcela da população com a política é marcada por dinâmicas periféricas complexas, nas quais urgências cotidianas acabam se sobrepondo ao debate partidário tradicional. Ou seja, grande parte dos evangélicos se beneficia de programas sociais, contudo se sente representada por pautas morais que atendem aos dogmas da igreja. Nessa dinâmica, criou-se um estigma de que todo evangélico é conservador e que, portanto, vai votar na extrema direita.

“A política vai aparecer sempre perto do pleito eleitoral. Para uma parcela da população, você tem feijão e arroz, trabalho, abastecer o carro, levar o filho na creche e a política de vez em quando. Para essa população, não é só que a esquerda deixou de responder aos seus questionamentos. É que a direita chegou e disse: ‘A esquerda não responde e a gente está aqui'”, afirma.

Ele destaca que “para a população evangélica que não é progressista, a pauta moral não é uma questão de ambiguidade, de contradição filosófica ou de ambivalência emocional. A pauta moral não é algo que a gente resolve racionalmente”.

Santos explica, inclusive, que o MNE surge também de uma necessidade de dar visibilidade a questões raciais e de cidadania que atravessam esse grupo e que só há “cerca de 10 ou 15 anos”, segundo o entrevistado, passaram a ter uma maior organização. “É um erro enxergar esse contexto como um grande bloco monolítico”, critica.

Sobre o aceno da esquerda ao eleitor evangélico, Joabe Santos explica que, apesar do alinhamento da visão de mundo entre os negros evangélicos e o setor progressista, essa aproximação é vista com alguma desconfiança porque acontece sempre perto das eleições. “A gente, mesmo estando entre pessoas, assim, diríamos mais progressistas, a gente ainda percebe uma certa desconfiança de certas pessoas a respeito dessa aproximação. Coisa normal do debate político”, afirma.

Segundo Santos, a teologia da prosperidade, muito difundida em algumas denominações evangélicas, é bastante responsável pela construção da pauta conservadora e neoliberal entre os crentes. “Não tem nada mais ameaçador do que passar fome. E aí tem uma confluência muito, eu diria assim, sintomática e destruidora entre a teologia da prosperidade e essas lógicas neoliberais, sobretudo no que tange ao esforço individual, à meritocracia”, argumenta.

O psicanalista reforça a necessidade de o campo progressista construir canais permanentes de escuta com a periferia, superando a visão simplista de que os fiéis constituem uma massa manipulada. Para ele, o diálogo efetivo exige humildade, superação de visões elitistas e a incorporação contínua de debates sobre a estrutura racial brasileira. “O trabalho que a esquerda tem que fazer é um trabalho por dentro de letramento racial profundo para conseguir conversar com essa parcela da população, considerando essa parcela da população como um legítimo outro”, conclui.

Confira a entrevista completa:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Fonte
Brasil de Fato
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