O gaúcho vem dos guaranis

Por Vicente Rauber10/09/2026 às 14:2134 visualizações
Acampamento Farroupilha em Porto Alegre
Acampamento Farroupilha em Porto Alegre
Brasil de Fato

Vicente Rauber*

Claudio Knierim**

20 de setembro é feriado no Rio Grande do Sul (RS) desde 1953, assim definido pela Lei Estadual nº 9.072, posteriormente respaldado como feriado pela Lei Federal 9.093/95 e confirmado na Constituição Estadual do RS como Data Magna.

É o Dia do Gaúcho. Este personagem tido como habitante do Pampa, mas que ultrapassa as fronteiras do RS, presente no Uruguai, Argentina e Paraguai e outros estados, especialmente no oeste de Santa Catarina e Paraná e Mato Grosso do Sul.

Muitas qualidades são reverenciadas ao gaúcho, entre as quais destacamos: a coragem e a bravura, moldadas em séculos de lutas e guerras, em especial a Guerra Guaranítica e a Revolução Farroupilha, até a atual definição geográfica no sul da América do Sul. A liberdade, a justiça e um senso de autonomia, motivo da revolta contra o império; hoje mantido sem dúvida de integrarmos a nação brasileira (somos gaúchos e brasileiros). A hospitalidade e a solidariedade, ou seja, acolher bem, cultivar a amizade e a união em terras sulriograndenses e pampeanas; digamos que estes aspectos estejam um tanto abalroados nestes tempos de forte individualismo.

O que continua forte é o sentimento de pertencimento, a valorização da história e o cultivo das tradições, em especial nas artes, vestimentas e gastronomia.

As características e costumes do gaúcho tem origem fundamentalmente nos povos originários guaranis e contribuições importantes dos Charruas e outros povos, além dos negros.

Piquete do Acampamento Farroupilha
Piquete do Acampamento Farroupilha — Vicente Rauber

O Dia do Gaúcho é comemorado em muitas cidades do RS, nos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) e principalmente nos Acampamentos Farroupilhas, conjunto de edificações de madeira, denominados de piquetes, montadas desde o final de agosto por entidades tradicionalistas. Nestes locais são cultuados os costumes gaúchos como a gastronomia a música regional, as danças tradicionalistas, oficinas, palestras e debates. Não pode faltar o chimarrão, o churrasco e o carreteiro.

Via do Acampamento Farroupilha
Via do Acampamento Farroupilha — Vicente Rauber

A abertura oficial dos Acampamentos e festejos farroupilhas ocorre com o acendimento da Chama Crioula, que surgiu em 7 de setembro de 1947, um grupo de estudantes, liderados por Paixão Côrtes, retiraram e levaram-na até Colégio Júlio de Castilhos, tradicional Julinho, uma centelha do Fogo Simbólico da Pátria, que também foi criada em Porto Alegre, inspirada nos Jogos Olímpicos de Berlim, de 1936.  

O principal Acampamento Farroupilha é o de Porto Alegre, neste ano em funcionamento desde 29 de agosto até 20 de setembro, com 236 piquetes e expectativa de 2 milhões de pessoas participantes.

Tema do Acampamento Farroupilha
Tema do Acampamento Farroupilha — Vicente Rauber

Oportunamente a temática é a herança jesuítica e Guarani

A temática dos festejos Farroupilha deste ano, oportunamente é: “Herança Jesuítica e Guarani no RS: 400 anos de cultura e tradição”. Os 400 anos referem-se ao início dos aldeamentos e reduções dos Guaranis realizados por padres jesuítas (da Companhia de Jesus) na América do Sul. No caso trata-se do Aldeamento ou Redução de São Nicolau, fundado pelo Padre Roque Gonzales.

Ainda que este processo não tenha sido completamente pacífico e consensual, tratou-se de uma rica experiência integrando os amplos conhecimentos indígenas com produtos e funções europeias. Ao contrário do ataque e expulsão dos indígenas, regra de nossa ocupação territorial, nesta oportunidade tratou-se de um desenvolvimento integrado que tristemente acabou com o a expulsão dos padres jesuítas das Américas realizados e ataque aos indígenas pelos impérios espanhol e português. 

Ali moldaram-se as principais características e costumes do gaúcho. E não foi apenas bom churrasco e chimarrão! Um significativo conjunto de experiências e práticas do gauchismo que trataremos em nosso próximo artigo, já se manifestavam nesses espaços das reduções jesuíticas.

O 20 de setembro refere-se ao início da Revolução Farroupilha, em 1835, quando os rebeldes tomaram Porto Alegre. A capital foi retomada a seguir pelo Império, inclusive tendo recebido o título de “Mui leal e valorosa”, que conserva até hoje.

O principal líder farroupilha foi um graduado militar do exército imperial, em 1834 nomeado como Comandante Superior da Guarda Nacional na Província de São Pedro do RS, obviamente destituído da função a seguir. Era ainda um exímio articulador político e fazendeiro. 

A Revolução Farroupilha foram 10 anos de luta contra o império e a favor da república

Foram 10 anos de guerra contra o império, a maior guerra civil-militar interna do Brasil. Ocorreram mais de 50 combates e a morte e mais de 3000 pessoas, a maioria de farrapos (como eram pejorativamente designados pelo império brasileiro todos os liberais republicanos que se revoltavam contra a monarquia).

A motivação mais direta eram os altos impostos sobre o charque (carne desossada, secada ao sol, tendo como conservante grande quantidade de sal) contra baixos impostos de importação do produto vindo do Uruguai e da Argentina. Ainda havia muito descontentamento com a nomeação pelo Império dos Presidentes da Província de São Pedro (atual RS).

Em 1832, em Porto Alegre, um núcleo de republicanos, secretamente, fundou o Partido Farroupilha, que articularia a Revolução, que depois de uma grande vitória contra o exército do império, em 11 de setembro de 1836 tomou um rumo mais radical, quando o então Coronel Antônio de Souza Netto proclamou a República Rio-grandense como um país livre e independente.

Não foi uma mera guerra de “gaúchos contra o Brasil”. Ao lado dos Farroupilhas lutaram baianos, cariocas, paraenses, italianos, uruguaios e estadunidenses, todos motivados pelos ideais do movimento republicano.

A guerra não era novidade em nossa Província: há mais de três séculos o cone sul da América do Sul foi disputado pelas coroas portuguesa e espanhola.

Algumas lideranças farroupilhas eram separatistas e inicialmente todas eram republicanas.

A Revolução Farroupilha teve inspiração nos movimentos liberais antimonarquistas estadunidense, europeus e em outras províncias do Brasil, o que explica a presença de agentes de outros estados e países nesse conflito.

A Revolução Farroupilha foi a maior guerra civil a favor da República ocorrida no Brasil.

As lideranças da Revolução Farroupilha eram uma parte da elite econômica e intelectuais da Província. Os soldados eram constituídos pelo povo. O gaúcho, até então entendido como nômade, “ladrão de gado”, agora era um peão das estâncias e foi para a guerra tornando-se um soldado digno e honrado.

Via do Acampamento Farroupilha
Via do Acampamento Farroupilha — Vicente Rauber

As mulheres e os negros cumpriram papéis estratégicos

As mulheres, pouco citadas, cumpriram funções essenciais, cuidando das propriedades enquanto os homens guerreavam, sustentavam as famílias e nos combates atuavam como vivandeiras, cozinheiras e serviços de enfermagem. No combate direto destacou-se Anita Garibaldi, o símbolo de bravura da Revolução, depois também reconhecida nas lutas de unificação da Itália.

Os negros foram organizados em vários batalhões de infantaria e de cavalaria denominados Lanceiros Negros, sendo decisivos em vários combates. A eles foi prometida a liberdade se entrassem na Guerra. Havia entre os farroupilhas oficiais e suboficiais negros.

Os Lanceiros Negros foram chacinados para não serem libertos na Província de São Pedro

A partir de 1844, não tendo mais como resistir à superioridade militar imperial, os farroupilhas começaram a negociar com o então Barão de Caxias, um acordo. Como resolver a situação dos negros, como o Império poderia admitir a liberdade deles numa província isolada?

Desfile de grupo em homenagem aos Lanceiros Negros em Caxias do Sul, em 2009
Desfile de grupo em homenagem aos Lanceiros Negros em Caxias do Sul, em 2009 — Luiz Chaves/Divulgação

Então ocorreu a última batalha da Revolução. Os Lanceiros Negros estavam acampados em Porongos, foram desarmados e, a seguir, atacados e literalmente trucidados pelos imperiais, com a morte de aproximadamente 110 e a prisão de outros trezentos, incluindo alguns oficiais. 

Em 1º de março de 1845 foi assinado o Acordo de Ponche Verde no Distrito do atual município de Dom Pedrito, fronteira com o Uruguai). Bento Gonçalves, doente, já havia se retirado do comando da Revolução. 

O Acordo foi honroso, justo e favorável aos farroupilhas, sem ser prejudicial ao Império que manteve aqueles militares farroupilhas experientes nos combates, incorporados ao Exército do Império para a proteção das nossas fronteiras. Os soldados negros sobreviventes que combateram ao lado dos farroupilhas foram compulsoriamente transferidos para uma unidade militar do Rio de Janeiro, enquanto outros fugiram para o Uruguai. Esta é a página execrável da Revolução Farroupilha.

República, Justiça, dignidade, bravura, resistência e altivez

A República desejada pelos farroupilhas foi proclamada 49 anos depois, em 1889. O importante legado do evento histórico e das narrativas construídas posteriormente foram os valores da justiça, dignidade, bravura, resistência e altivez, tão necessários ao Brasil justo e sustentável que precisamos continuar construindo. 

*Engenheiro Especialista em Planejamento Energético e Ambiental.                                                                            

**Claudio Knierim é historiador.

**Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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