Estudo mostra avanço de garimpo ilegal de ouro na Terra Indígena Munduruku

از Poliana Dallabrida Wisentainer21/09/2026 às 18:370 مشاہدات
Evolução da área de garimpo ilegal de ouro ao Sul da TI Munduruku entre outubro de 2025 e julho de 2026 (Imagem: ©2026 Planet Labs PBC)
Evolução da área de garimpo ilegal de ouro ao Sul da TI Munduruku entre outubro de 2025 e julho de 2026 (Imagem: ©2026 Planet Labs PBC)
Foto: © 2026 Planet Labs PBC) / Reporter Brasil

ÁREAS DE garimpo ilegal de ouro voltaram a avançar sobre Terras Indígenas (TIs) do povo Munduruku no Pará no último ano, mostra um estudo publicado nesta segunda-feira (21). Entre setembro de 2025 a agosto de 2026, foram identificados dez locais com novas atividades ilegais – 9 na TI Munduruku e 1 na TI Sai Cinza. 

A análise de imagens de satélite e o monitoramento nos territórios detectou a abertura de estradas, a expansão de frentes de garimpo que já existiam e o surgimento de novos locais de exploração. 

As evidências foram reunidas pela EIA (Environmental Investigation Agency), organização especializada na investigação de crimes ambientais, em parceria com três organizações Munduruku: Associação de Mulheres Munduruku Wakoborũn, Associação Da’uk e Movimento Munduruku Ipereğ Ayũ.

A Terra Indígena Munduruku, localizada entre os municípios paraenses de Itaituba e Jacareacanga, no Sudoeste do estado, é uma das áreas protegidas da Amazônia mais afetadas pelo garimpo ilegal de ouro. Entre novembro de 2024 e fevereiro de 2025, o Governo Federal realizou uma série de operações de desintrusão (expulsão de invasores) no território, mas a expansão de atividades ilegais continua, aponta o estudo.

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“A escala e a ousadia do garimpo ilegal de ouro no território dos Munduruku são surpreendentes, e os impactos para o povo Munduruku são verdadeiramente devastadores”, declarou Rick Jacobsen, gerente sênior da EIA

A Repórter Brasil conversou com lideranças Munduruku, mas, por questões de segurança, elas preferiram não se manifestar publicamente sobre o estudo. Em declaração divulgada no lançamento do relatório, a Associação de Mulheres Munduruku Wakoborũn afirmou que o garimpo ilegal de ouro “continua envenenando o território e a vida do nosso povo Munduruku, contaminando nossos alimentos e água com mercúrio tóxico”.

Abertura de estradas e desmatamento ilegal

Uma das áreas de garimpo identificadas está localizada próximo à nascente do rio Crepori, no sul da TI Munduruku. Segundo o estudo, até outubro de 2025 a área era de mata fechada. Dois meses depois, uma estrada de 14km foi aberta, conectando a atividade minerária ao Parque Nacional do Rio Novo. Entre março e julho de 2026, novas expansões do garimpo na área foram detectadas pela EIA e pelos Munduruku, que notificaram as autoridades brasileiras.

Evolução da área de garimpo ilegal de ouro ao Sul da TI Munduruku entre outubro de 2025 e julho de 2026 (Imagem: ©2026 Planet Labs PBC)
Evolução da área de garimpo ilegal de ouro ao Sul da TI Munduruku entre outubro de 2025 e julho de 2026 (Imagem: ©2026 Planet Labs PBC)
Evolução da área de garimpo ilegal de ouro ao Sul da TI Munduruku entre outubro de 2025 e julho de 2026 (Imagem: ©2026 Planet Labs PBC)

Em outro local, as operações de garimpo foram interrompidas durante uma fiscalização do Governo Federal em novembro de 2024, mas retomadas logo após o término da operação. Entre março de 2025 e julho de 2026, cerca de 30 hectares de floresta foram desmatados no local para expansão do garimpo, segundo estimativa da EIA.

Registros de julho de 2024 a julho de 2026 analisados pela EIA indicam outra área de expansão de garimpo no território (Imagem: ©2026 Planet Labs PBC)
Registros de julho de 2024 a julho de 2026 analisados pela EIA indicam outra área de expansão de garimpo no território (Imagem: ©2026 Planet Labs PBC)
Registros de julho de 2024 a julho de 2026 analisados pela EIA indicam outra área de expansão de garimpo no território (Imagem: ©2026 Planet Labs PBC)

Em julho deste ano, uma inspeção por terra realizada por indígenas Munduruku na Aldeia Jardim Kaboro’a identificou 99 equipamentos utilizados em três frentes de garimpo ilegal dentro do território. Segundo o estudo, “lideranças tradicionais foram desobedecidas e ameaçadas” nas áreas onde o maquinário foi encontrado.  

Em relatórios de monitoramento produzidos em março e em agosto deste ano – e também publicados pela EIA –, os indígenas ressaltam a urgência da adoção de medidas concretas para coibir o garimpo ilegal em seus territórios e apontam a ausência de respostas efetivas a denúncias anteriores. 

Visita de comissão da Corte Interamericana de Direitos Humanos

No começo de setembro, uma delegação da Corte Interamericana de Direitos Humanos visitou uma das aldeias da TI Munduruku. O objetivo era verificar se o Brasil está implementando as medidas de proteção estabelecidas em 2022 pelo órgão, que determinou que o Estado brasileiro garantisse o direito à vida, à integridade pessoal e à saúde dos povos indígenas Yanomami, Ye`kwana e Munduruku.

Segundo nota divulgada pela Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), lideranças e comunidades Munduruku denunciaram à delegação a continuidade de atividades ilegais no território, dificuldades no acesso à saúde e à água potável e a contaminação por mercúrio. A organização aponta que nenhuma das obrigações determinadas pela corte em 2022 foi integralmente cumprida.

As evidências da expansão de garimpos ilegais de ouro na TI Munduruku, identificadas no relatório publicado nesta segunda (21), também foram apresentadas à delegação do tribunal interamericano e a autoridades brasileiras. “Ao permitir que esse garimpo continue, o governo brasileiro está deixando de cumprir seus compromissos constitucionais e internacionais de proteger nossos direitos e modo de vida”, declarou a Associação de Mulheres Munduruku Wakoborũn. 

Imagens de satélite recentemente disponibilizadas e analisadas pela EIA mostram que áreas de garimpo ilegal na TI Munduruku continuaram a se expandir inclusive durante a visita da delegação, disse a organização à Repórter Brasil.

Deslocamento das atividades ilegais

À reportagem, a Casa Civil da Presidência da República afirmou que a operação de desintrusão concluída em fevereiro de 2025 no território inutilizou 90 acampamentos, 15 embarcações, 27 máquinas pesadas e 224 motores, além de 96,1 mil litros de óleo diesel. Segundo a pasta, responsável pela coordenação da operação, o prejuízo total estimado às atividades ilícitas foi de R$ 112,3 milhões.

Após a desintrusão, no entanto, as atividades ilegais se deslocaram para outras áreas, de acordo com um estudo publicado em maio deste ano pelo Instituto Mãe Crioula, em parceria com a Uepa (Universidade do Estado do Pará).

Para os autores, a expulsão de garimpeiros produziu efeitos temporários e mostrou a capacidade de adaptação da economia ilegal do ouro. As operações de desintrusão, avaliam, não foram capazes de desmontar as engrenagens do garimpo ilegal em Jacareacanga, um dos principais polos de garimpo ilegal na Amazônia brasileira.

O garimpo ilegal de ouro é responsável por boa parte do desmatamento na região e pela contaminação de rios, sobretudo pelo despejamento de mercúrio no meio ambiente, que contamina peixes, ecossistema e comunidades indígenas. Após o processo de desintrusão, indígenas Munduruku relatam que a falta de assistência à saúde permanece.

A Casa Civil afirmou que a operação de desintrusão “teve sucesso em sufocar as estruturas de suporte ao garimpo e outras atividades ilegais” e que o Ministério dos Povos Indígenas é o órgão responsável pelas ações após a expulsão dos invasores. 

Também procurado, o Ministério dos Povos Indígenas disse que a operação de desintrusão “é apenas uma etapa de um ciclo de medidas, sendo necessária a manutenção e a consolidação das ações para prevenir o retorno ou a reorganização de atividades ilícitas”. O ministério afirmou que acompanha a situação territorial das Terras Indígenas Munduruku e Sai Cinza, em articulação com órgãos de segurança pública, fiscalização e monitoramento. A pasta pontuou, ainda, que as denúncias recebidas são “analisadas e encaminhadas aos órgãos competentes, conforme suas respectivas atribuições”.

A Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), por sua vez, destacou que “as denúncias apresentadas pelos povos indígenas são fundamentais para o aprimoramento das ações de proteção do território” e que segue atuando para “assegurar a integridade das Terras Indígenas Munduruku e Sai Cinza”.

Já o Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou que a Força Nacional, em apoio à Funai, permaneceu na TI Munduruku e áreas limítrofes até abril deste ano, em meio às ações de “pós-desintrusão”. A pasta disse também que, após novo pedido do Ministério dos Povos Indígenas, as ações foram retomadas na região (Leia os posicionamentos na íntegra aqui).

Madeira ilegal

O garimpo de ouro não é a única atividade ilegal que assola o território Munduruku. 

Em janeiro deste ano, outro relatório publicado pela EIA destacou que madeira extraída ilegalmente na terra indígena era vendida a madeireiras que faziam parte da cadeia de fornecimento de importadores do produto na Europa e Estados Unidos. 

À época, a EIA e a Associação de Mulheres Wakoborũn identificaram que uma operação ilegal de extração de madeira funcionou dentro do território entre 2023 e 2024.

Com base em imagens de satélite, a EIA mapeou cerca de 60 km de estradas abertas no período. As imagens indicam centenas de toras estocadas ao longo das vias e em pontos de carga. O volume da carga foi estimado pela organização em 1,2 mil metros cúbicos de madeira, o suficiente para carregar de 20 a 35 carretas.

 

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