Quando a fé se torna território de disputa sobre a crise climática

Por Júlia Rossi22/09/2026 às 11:5954 visualizações
Estragos causados pelas chuvas em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, que sofre com enchentes e transbordamento do rio Botas.
Estragos causados pelas chuvas em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, que sofre com enchentes e transbordamento do rio Botas.
Brasil de Fato

A crise climática deixou de ser uma previsão distante para fazer parte da experiência cotidiana da população brasileira. Seja nas ondas de calor, nas enchentes, na falta d’água, na perda de plantações, no aumento do preço dos alimentos ou na nossa saúde, essas mudanças atravessam diariamente a vida nas cidades e no campo.

Uma pesquisa recente do Aurora Lab e da More in Common aponta que 85% dos brasileiros afirmam que as mudanças climáticas afetam seu cotidiano. A pesquisa também traz um dado interessante: universidades e cientistas continuam entre as fontes consideradas confiáveis pelos brasileiros, enquanto 65% da população afirma também se informar sobre mudanças climáticas pelas redes sociais. É por essas redes que circulam, ao mesmo tempo, informação científica, opinião, publicidade, discurso religioso e conteúdos falsos ou enganosos.

Apesar da maioria das pessoas perceberem os efeitos causados pelas mudanças climáticas no seu dia a dia, há diversas disputas de narrativas que dificultam o entendimento de suas causas. Quem é responsável pelo que estamos vivendo? O que ainda pode ser feito? Por que, mesmo diante de tantos eventos extremos, continuamos ampliando projetos de exploração de petróleo e desmatando florestas?

A desinformação atravessa essas perguntas de muitas formas. Às vezes é uma mentira evidente, como dizer que o aquecimento global não existe, mas também pode ser uma enchente sendo noticiada como uma fatalidade, sem qualquer relação com as mudanças climáticas ou com a ausência de políticas públicas.

Quando essas narrativas chegam às comunidades de fé

Nos encontros que realizamos pelo GreenFaith Brasil ao longo deste ano, conversamos muito sobre como essas mensagens aparecem dentro das comunidades religiosas. Algumas são bastante conhecidas: eventos extremos entendidos somente como vontade divina, a ideia de que ciência e fé necessariamente se opõem ou leituras religiosas que justificam uma relação de exploração sem limites da natureza.

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Isso nos preocupa porque religião não é uma dimensão separada da vida cotidiana de milhões de brasileiros. Igrejas, terreiros, templos e comunidades de fé são lugares onde as pessoas conversam sobre seus problemas, constroem relações de confiança, organizam redes de solidariedade e também formam suas opiniões sobre o que acontece no mundo.

Foi ouvindo essas comunidades que construímos a cartilha Nossa Fé contra a Desinformação Climática. O material passou por encontros e formações em diferentes territórios e nasceu muito dessas conversas: das dúvidas que apareciam, das narrativas que as pessoas reconheciam nas redes e nos seus espaços religiosos e das maneiras como cada tradição relacionava fé, natureza, justiça e cuidado.

Um dos nossos objetivos com a cartilha é fortalecer as comunidades de fé a partir do acesso à informação de qualidade e promover o diálogo entre ciência, meio ambiente e fé. Queremos que uma liderança religiosa receba um vídeo no WhatsApp e desconfie do que está vendo; que saiba onde procurar uma informação; que consiga conversar sobre uma enchente ou uma onda de calor sem separar aquilo das desigualdades do território onde vive.

Um compromisso público com a verdade

No final de agosto, parte desse processo chegou a São Paulo. Junto com o Movimento Negro Evangélico, reunimos mais de 30 lideranças cristãs para conversar sobre fé, justiça climática e desinformação. Daquele encontro saiu o manifesto Fé, Justiça Climática e Desinformação: compromisso cristão com a democracia e cidades mais justas. O texto propõe que o enfrentamento à desinformação climática seja assumido como um compromisso público por lideranças e comunidades cristãs. E a conversa não termina na checagem de informações. O documento fala de transição energética justa, da necessidade de reduzir nossa dependência dos combustíveis fósseis e de proteger trabalhadores, comunidades e territórios nesse processo.

O manifesto é um convite para lideranças religiosas e comunidades de fé transformarem o enfrentamento à desinformação climática em compromisso público.

Em ano eleitoral, essa discussão se torna ainda mais urgente. A forma como explicamos a crise climática interfere diretamente em quem responsabilizamos por ela e nas soluções que estamos dispostos a defender.Quando uma comunidade pergunta por que determinadas áreas alagam sempre, quem consegue se proteger de uma onda de calor, quem perde sua casa, quem lucra com a exploração de petróleo ou quem vai pagar a conta de uma transição energética, a conversa sobre clima deixa de ser distante. Ela passa pela desigualdade, pelo território e pelas escolhas políticas que fazemos.

As comunidades de fé já estão nesses territórios e já participam dessas conversas. O desafio é fazer com que tenham cada vez mais ferramentas para reconhecer a desinformação e, a partir de suas próprias linguagens e tradições, defender a verdade e o cuidado com a vida. Como diz Gabriel Miranda, pastor e mobilizador climático do Movimento Negro Evangélico, enfrentar a crise climática também é uma questão de fé, de justiça e de responsabilidade com o próximo e com toda a criação divina.

*Julia Rossi é coordenadora do GreenFaith Brasil.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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