O que acontece no seu cérebro quando você não consegue parar de rir?

Por Sophie Scott, Professor of Cognitive Psychology, UCL16/10/2026 às 21:2311 visualizações
Pesquisas indicam a existência de dois tipos de riso, o voluntário e o incontrolável, envolvendo sistemas cerebrais totalmente distintos.
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Pesquisas indicam a existência de dois tipos de riso, o voluntário e o incontrolável, envolvendo sistemas cerebrais totalmente distintos. CREATISTA/Shutterstock
Foto: CC BY-ND / The Conversation Brasil
Pesquisas indicam a existência de dois tipos de riso, o voluntário e o incontrolável, envolvendo sistemas cerebrais totalmente distintos. CREATISTA/Shutterstock
Pesquisas indicam a existência de dois tipos de riso, o voluntário e o incontrolável, envolvendo sistemas cerebrais totalmente distintos. CREATISTA/Shutterstock

Você se lembra da última vez em que estava rindo e simplesmente não conseguia parar? Talvez tenha sido numa situação em que você nem deveria estar rindo.

Isso aconteceu com um de nós enquanto acompanhávamos um amigo a um tribunal de família, no meio de um processo de divórcio desagradável. Isso nos levou a uma corrida rápida até o banheiro, enquanto tentávamos desesperadamente (e sem sucesso) recuperar o controle — não era exatamente o tipo de apoio emocional que esse amigo estava procurando!

Outro exemplo clássico são os comentaristas de críquete Brian Johnston e Jonathan Agnew que riram tanto ao descreverem uma partida em 1991 que não conseguiam falar nada. Mas como e por que isso acontece?

Na verdade, embora normalmente associemos o riso à diversão, a maior parte dos risos ocorrem por outras razões sociais. Por exemplo, você tem 30 vezes mais chances de rir se estiver com outra pessoa do que se estiver sozinho. E você vai rir mais se conhecer a pessoa com quem está e gostar dela.

A maior parte do riso ocorre durante conversas, quando as pessoas podem rir por contágio — sendo contagiadas pelo riso de outra pessoa. Estudos mostram que, quando vemos ou ouvimos alguém rindo, isso pode desencadear o riso em nós quase automaticamente, promovendo o vínculo social.

Muitas vezes rimos para demonstrar concordância e compreensão, e para fortalecer a amizade — por exemplo, ao relembrarmos momentos compartilhados. Também rimos para reduzir o estresse.

Essas risadas comuns em conversas ocorrem aproximadamente seis vezes a cada dez minutos de conversa, em média. Elas são curtas, de tom mais grave e tendem a começar e parar rapidamente.

Esses tipos de riso, aos quais nos referimos como voluntários, diferem do riso incontrolável que nos incapacita e que não conseguimos impedir. Os risos incontroláveis ou involuntários são mais longos e de tom mais agudo, envolvendo guinchos e assobios estranhos.

Em nossa pesquisa mais recente, investigamos se esses dois tipos diferentes de riso poderiam ter suas origens em sistemas cerebrais totalmente distintos.

Por que rimos. Vídeo: TED.

As coisas ficam complicadas

Ao tentar compreender as redes cerebrais subjacentes à produção do riso, as coisas podem ficar complicadas rapidamente.

Para começar, as pessoas se movimentam bastante quando riem. Isso pode causar problemas para técnicas de imagem cerebral, como a fMRI (ressonância magnética funcional). Também pode ser extremamente difícil fazer com que as pessoas riam naturalmente em condições de laboratório.

Outra questão é que diferentes regiões do cérebro parecem estar todas conectadas ao riso. Um de nós (Fausto) colabora com a unidade de cirurgia de epilepsia do Hospital Niguarda, em Milão, onde pacientes com epilepsia resistente a medicamentos são submetidos a estimulação elétrica cerebral para fins clínicos. A estimulação elétrica é altamente precisa e não é afetada pelo movimento.

Normalmente, se você estimular o sistema motor, o paciente se moverá. Se estimular o sistema visual, ele poderá ter alucinações visuais. E se estimular o sistema auditivo, ele ouvirá sons. Mas há cinco ou seis áreas do cérebro em que a estimulação provoca risadas altas no paciente. Então, por que isso acontece?

Recentemente, revisamos todos os estudos de estimulação cerebral envolvendo pessoas rindo e como elas se sentiam ao rir. Esses estudos fornecem evidências de que as áreas do cérebro onde a estimulação evoca o riso formam duas redes de riso diferentes.

Em uma delas, que abrange o córtex cingulado anterior, o polo temporal e algumas regiões subcorticais, a estimulação levou ao riso acompanhado de sensações agradáveis e sentimentos de felicidade — esse é o riso mais incontrolável e agudo. Quando houve estimulação na outra rede, localizada nas regiões motora e pré-motora do cérebro, o riso resultou em distúrbios da fala e não foi associado a nenhum estado emocional.

Diferenças evolutivas

As áreas que constituem a primeira rede de riso, mais alegre, correspondem a uma rede de vocalização que os seres humanos compartilham com todos os outros mamíferos. Essa rede também é potencialmente responsável por outras vocalizações emocionais espontâneas, como gritos.

A ativação dessa rede durante o riso espontâneo desencadeia uma cascata neuroquímica que envolve, entre outras coisas, o sistema opioide. Isso ajuda a explicar a sensação de prazer e recompensa que advém desse riso alegre e incontrolável. O sistema da serotonina, que regula nossa sensibilidade à dor, também é afetado, o que pode explicar por que esse riso pode amenizar temporariamente a dor física.

De uma perspectiva evolutiva, essa rede é mais antiga. Ela tem origem nas respostas emocionais espontâneas e nos sistemas de brincadeiras agitadas dos animais e, portanto, permanece praticamente inalterada entre humanos e outros animais.

As outras risadas, voluntárias, se mapeiam em uma rede cerebral ligada aos movimentos voluntários em humanos, como falar em voz alta. Elas têm um papel fundamental na comunicação estratégica e na negociação social, o que pode explicar o uso específico do riso na conversa como uma espécie de pontuação falada.

Esse sistema neural é encontrado principalmente em humanos e está associado a atos vocais complexos, como falar, cantar e fazer beatbox.

Um estudo de 2022 que analisou as formas que nosso trato vocal assume quando rimos dessa maneira conversacional descobriu que elas se assemelham às formas que assumimos quando falamos. Em contrapartida, as formas do nosso trato vocal quando rimos incontrolavelmente parecem muito diferentes da fala, e seu controle motor é mais simples, o que é consistente com suas origens ancestrais.

Essa pesquisa mostra que o riso voluntário requer um controle motor mais complexo e refinado do que o riso espontâneo, ocupando um meio-termo entre o riso espontâneo e a linguagem falada – não apenas funcionalmente, mas também anatomicamente.

Se uma pessoa sofrer um derrame que danifique essa rede voluntária, ela pode desenvolver graves problemas de fala, embora ainda seja capaz de rir, chorar e xingar. Argumentaríamos que isso ocorre porque a rede mais antiga permanece intacta.

A ciência do riso pode parecer um assunto um tanto frívolo – e os neurocientistas certamente têm dedicado mais esforços ao estudo de emoções negativas, como medo, ansiedade, raiva e repulsa.

As pesquisas sobre o riso humano, no entanto, estão se revelando uma espécie de Pedra de Roseta para a compreensão de uma gama surpreendente de fenômenos – incluindo as origens do cérebro social nos mamíferos, os mecanismos de vínculo e empatia, a modulação da dor, a linguagem na conversa e o contágio emocional.

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Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

Fonte
The Conversation Brasil
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