Deveria nos preocupar a forma natural com que articulistas da GloboNews tratam figuras em ascensão do fascismo no Brasil, como os deputados recém-eleitos Lucas Pavanato (PL-SP) e Eduarda Campopiano (PL-SP), em uma entrevista que parece um chá da tarde, mesmo diante de revelações que afrontam e assustam o bom senso, a democracia e os valores humanos.
No Metrópoles, que jorra sangue e espetacularização da política em seus títulos, não é raro encontrar informações sobre eventuais, possíveis, hipotéticos bastidores, que criam crises e constrangimento ao campo progressista no país.
Investigações em curso nos mostram que ambos, Globo e Metrópoles, mantinham uma relação obscena e íntima com o banqueiro Daniel Vorcaro, a mão visível do mercado financeiro, e personagem principal do maior escândalo político-econômico deste século no Brasil.
Para ser justo, os vazamentos mostram que o assédio de Vorcaro ia além das duas empresas e alcançou Diário do Centro do Mundo (DCM), Platô, Carta Capital e Brazil Journal. No caso de Carta Capital, não há registro de conversas que mostrem o banqueiro interferindo editorialmente no jornalismo da empresa.
A formalidade institucional desenhada pela Globo ao longo de décadas, pregando ao mercado o que seria o “jornalismo profissional”, que partiria de uma prepotente ideia de isenção em relação à política nacional, ruiu após o vazamento das conversas entre Vorcaro e Frederic Kachar, ex-diretor-geral do jornalismo da emissora fluminense.
Nas conversas, Vorcaro e Kachar negociavam reportagens em troca de patrocínios volumosos. Nos diálogos, o banqueiro reclamava da forma como temas de seu interesse eram tratados dentro dos produtos do jornalismo da Globo.
Fica evidente, na troca de mensagens, que Kachar implorava a atenção de Vorcaro, suplicava para que o banqueiro interagisse com ele. A constrangedora sequência de pedidos de encontros do global revela que, mesmo a soberba Globo, se curvou ao dono do Banco Master, o que é assustador.
No Metrópoles, cujo dono é o primeiro senador cassado por corrupção da história do país, Luiz Estevão, não havia qualquer pudor em negociar dinheiro de patrocínio e posição editorial na mesma conversa.
A CEO do Metrópoles, Lilian Tahan, era o contato de Vorcaro, e ela pedia sugestão de pauta ao banqueiro e enviava a ele os textos que falavam do Banco Master, para que ele aprovasse antes da publicação.
Essas relações revelam o que mídias como Globo e Metrópoles tentam esconder de sua audiência, quando pregam a pretensa isonomia sobre os fatos: é o dinheiro quem constrói o consenso deles. É a grana das elites econômicas desse país quem determina seus horizontes editoriais.
A moralidade de Kachar e Tahan não pode ser tratada como condutas individualizadas, desvios esporádicos, mas como modus operandi de uma elite econômica que se retroalimenta para se defender da organização dos trabalhadores.
São essas empresas enormes de comunicação que despolitizam a economia para proteger o capitalista. Para isso, recebem fascistas entre perguntas afáveis e amistosas, naturalizando a morte, o fim do voto feminino, a perseguição a grupos religiosos, o extermínio da juventude preta, entre outras bandeiras da extrema-direita.
A luta de classes e pela hegemonia nunca foram tão cristalinas. Os lados nunca tiveram suas fronteiras demarcadas com tinta tão firme. Somente o dinheiro e a influência do “irmão” Daniel Vorcaro, em sociedade com Globo, Metrópoles e outros, explicam uma eleição apertada entre o maior líder político da história do Brasil e um parlamentar do submundo da política brasileira.
*Igor Carvalho é jornalista e supervisor de reportagem do Brasil de Fato.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
