Flávio Bolsonaro mudou o discurso, não a prática: a extrema direita e o fim da escala 6×1

Von Márcio Ayer14/10/2026 às 14:330 Aufrufe
Ato pelo fim da escala 6x1 reuniu milhares de pessoas na Av. Paulista neste domingo (30)
Ato pelo fim da escala 6x1 reuniu milhares de pessoas na Av. Paulista neste domingo (30)
Brasil de Fato

Depois de três anos chamando a medida de “inoportuna” e “eleitoreira”, Flávio Bolsonaro anunciou que vai votar a favor da PEC que acaba com a escala 6×1 no Brasil, reduzindo a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem corte de salários e sem perda de direitos. A mudança veio a 12 dias do segundo turno. Não por convicção, mas em resposta à pressão da classe trabalhadora, que colocou o tema no centro do debate político e encurralou a extrema direita.

Queria ver agora a cara dos bolsonaristas que eram contra o fim da escala 6×1.

Mas não se engane com a conversa de véspera. As palavras dele mudam conforme o vento da eleição. O que ele escreve não vale o papel em que está escrito, o que ele promete hoje pode ser rasgado amanhã. A verdade é que, embora agora diga da boca pra fora que é favorável ao fim da 6×1, Flávio sempre defendeu o modelo sintetizado na PEC 12/2026, de autoria do senador Rogério Marinho (PL-RN). A ideia é pagar ao trabalhador apenas pelas horas efetivamente trabalhadas, com férias, 13º salário, FGTS e outros direitos econômicos proporcionais, sem a necessidade de intermediação dos sindicatos para negociar novos arranjos.

Aqui mora um perigo que ninguém está vendo. A PEC 12/2026 é uma armadilha para demitir sem pagar rescisão. Atualmente, é proibido reduzir salários no país. A proposta de Flávio e Marinho, porém, permite ao patrão cortar gradualmente a jornada e o salário, sem a intervenção do sindicato, até o trabalhador não conseguir mais sobreviver e ser forçado a pedir demissão. Com isso, a empresa consegue demitir sem pagar a rescisão, a multa do FGTS, o seguro-desemprego e o aviso prévio, deixando o trabalhador sem direitos e com o fundo de garantia preso.

Se ele for eleito, não se iluda: vai usar a caneta para tentar anular essa conquista da classe trabalhadora. A promessa de campanha serve apenas para ganhar o voto. No Palácio do Planalto, ele vai acenar com uma mão enquanto esconde na outra seu “tesouraço” de cortar direitos.

Segundo o Dieese, os trabalhadores intermitentes no Brasil receberam em média 762 reais por mês. Se considerarmos apenas as mulheres, a média é ainda menor: 483 reais. É esse o futuro que Flávio e seus seguidores querem para todos os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros.

O caminho é outro. O fim da 6×1 garante cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução de salário, porque as pessoas querem melhorar de vida, mas também querem tempo para viver, descansar, cuidar da saúde estar com a família.

A votação no Senado do fim da escala 6×1 está em curso. Nossa luta arrancou essa mudança de discurso de quem se dizia contra. Agora é pressão total para arrancar o voto pelo fim da 6×1 — sem perda de salário, sem precarização, sem entregar o nosso descanso na mão do patrão.

Que ninguém se esqueça de quem chamou a PEC de oportunista e tentou empurrar uma falsa negociação entre patrão e empregado. Fica a lição: direitos não se ganham de favor, se conquistam com organização e luta.

*Márcio Ayer é presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro e Secretário Nacional de Comércio e Serviços da CTB.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Quelle
Brasil de Fato
Original öffnen ↗
War diese Nachricht nützlich?

Debatten 0

Seien Sie der Erste, der zur Debatte beiträgt.

Teilen Sie Ihre Informationen und fördern Sie Ihr Argument

Zögern Sie nicht, nützliche Informationen zu veröffentlichen.

Um an der Diskussion teilzunehmen, melden Sie sich an oder erstellen Sie ein kostenloses Konto.