Carta reivindica compromisso de candidaturas com água e saneamento para 250 mil moradores sem acesso no DF

By Ana Gonçalves24/09/2026 às 19:5022 views
Cidade Estrutural, no Distrito Federal, abriga a ARIS Estrutural, uma das 56 Áreas de Regularização de Interesse Social incluídas na Carta-Compromisso do Movimento Vida & Água para as eleições de 2026.
Cidade Estrutural, no Distrito Federal, abriga a ARIS Estrutural, uma das 56 Áreas de Regularização de Interesse Social incluídas na Carta-Compromisso do Movimento Vida & Água para as eleições de 2026.
Brasil de Fato

Diagnóstico apresentado pelo Movimento Vida & Água (MVA) aponta que aproximadamente 250 mil moradores das Áreas de Regularização de Interesse Social (Aris) do Distrito Federal não são atendidos com água encanada. A organização afirma ainda que 177,5 mil pessoas têm rede de abastecimento em frente às residências, mas permanecem fora do sistema oficial.

Diante desse grave cenário, o grupo atualizou a carta-compromisso apresentada pela primeira vez há quatro anos e voltou a cobrar dos candidatos nas eleições deste ano ações para enfrentar a falta de água potável, ausência de saneamento, dificuldade de acesso aos serviços públicos e permanência das comunidades no planejamento urbano do DF.

A nova versão reúne 13 reivindicações destinadas a candidatos a governador e vice-governador, senador, deputado federal e deputado distrital. A atualização parte de um balanço negativo de 2022 para cá. Segundo o professor Perci Coelho de Souza, do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB), a maior parte dos compromissos apresentados naquele ano não foi concretizada.

“Tivemos a Frente Parlamentar em Defesa das Aris e também duas estruturas de reservação de água em duas localidades como conquistas concretas”, resume.

A revisão do documento foi feita pelos próprios integrantes do MVA. De acordo com Perci, os participantes receberam a versão de 2022 por meio de um formulário e avaliaram quais propostas deveriam ser atualizadas, mantidas ou retiradas. Depois, as sugestões foram discutidas coletivamente e transformadas nos compromissos para 2026.

Acesso à água potável

A articulação que deu origem à carta começou em 2020, com o projeto de extensão Vida & Água para Aris, da UnB. A iniciativa surgiu durante a pandemia e reuniu professores, estudantes, sindicatos, movimentos comunitários e organizações da sociedade civil em torno do acesso à água e das condições de vida nas áreas de regularização.

Segundo Perci, uma das primeiras informações apresentadas ao projeto veio do engenheiro da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) e assessor do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do Distrito Federal (Sindágua) Adauto Santos.

A atuação passou a combinar pesquisa e mobilização nos territórios. Professores e estudantes de 11 áreas do conhecimento participaram do trabalho, junto a entidades como o Sindicato dos Servidores Públicos Federais no DF (Sindsep) e Sindicato dos Professores (Sinpro), associações comunitárias, movimentos de bairro e o Fórum em Defesa das Águas do DF.

Entre as iniciativas desenvolvidas estão as Casas de Emergência Sanitária, ou Casas Vida & Água, voltadas ao acolhimento de famílias sem acesso à água potável da Caesb. O projeto também promoveu os encontros EnPODERARIS, realizados nos territórios com participação comunitária e uso de geoprocessamento para o mapeamento das áreas.

A sexta edição do encontro, segundo Perci, serviu para consolidar e ampliar o trabalho realizado nas edições anteriores. O levantamento utilizado pelo movimento chegou às 56 Aris consideradas na nova carta.

Emergência sanitária

Para o movimento, a existência da infraestrutura não resolve sozinha o problema. Segundo a carta, dificuldades para pagar a tarifa fazem com que parte da população recorra a poços rasos, compra informal de água ou ligações clandestinas. O documento também aponta que 158.113 moradores, equivalentes a 33,7% da população das Aris, não têm cobertura de rede de esgoto.

É a partir desse cenário que o MVA defende que as 56 áreas sejam reconhecidas como territórios em situação de emergência sanitária. “A nossa proposta é reconhecer todas as 56 Aris como áreas de emergência sanitária. E essa emergência não é definida apenas pela ausência de água ou esgoto. Ela também envolve a vulnerabilidade social dessas comunidades, aquilo que estamos chamando de sindemia”, explica Perci Coelho.

Entre as medidas apresentadas está a criação de um serviço de emergência para garantir água tratada por meios alternativos ou provisórios enquanto a infraestrutura definitiva não estiver disponível. O documento também cobra a universalização do abastecimento de água e do esgotamento sanitário.

Planejamento urbano

A reivindicação não se limita à infraestrutura. O MVA também quer que as 56 Aris sejam mantidas no próximo Plano Diretor de Ordenamento Territorial (Pdot) e que os processos de regularização sejam acompanhados por políticas de inclusão social, saneamento, infraestrutura e proteção ambiental.

A entidade defende participação social no planejamento urbano e afirma que comunidades consolidadas não devem ser excluídas do novo Pdot nem submetidas a remoções sem alternativa habitacional digna.

Para Perci, essa ampliação das reivindicações é resultado do processo de mobilização construído nos últimos anos. “Hoje temos 13 pontos de reivindicação. A carta de 2026 atualiza os compromissos de 2022 a partir dessa experiência acumulada”, diz.

O documento também relaciona a regularização à capacidade de os moradores efetivamente acessarem os serviços públicos. A proposta, portanto, não trata apenas da instalação de redes, mas da inclusão das comunidades no funcionamento regular da cidade.

Frente Parlamentar

Entre os poucos avanços apontados pelo movimento desde a primeira carta está a criação, em 2024, da Frente Parlamentar em Defesa das Aris na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Segundo Perci, essa foi a principal conquista relacionada às candidaturas para deputado distrital.

“A Frente Parlamentar termina com o mandato de 2026 e precisa ser renovada. O Fábio Félix, que foi quem a liderou, vai disputar uma vaga de deputado federal. Então precisamos que outro deputado distrital assuma esse compromisso” afirma.

Na nova versão da carta, o movimento propõe que a frente tenha recursos, equipe técnica, espaço permanente de debate e uma base de dados sobre as 56 áreas. Também defende a criação de um Atlas das Aris para reunir informações sobre os territórios.

Tarifa, orçamento e recursos federais

As reivindicações também chegam ao Congresso Nacional. Para candidatos a deputado federal e senador, o MVA propõe a criação de uma frente parlamentar nacional voltada à moradia digna e ao saneamento em comunidades populares. O grupo também pede articulação para direcionar emendas e recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para obras de água e esgoto nas Aris do DF.

No Distrito Federal, a entidade cobra recursos específicos no orçamento para infraestrutura das áreas, mecanismos de participação social e ações de proteção ambiental. A carta ainda inclui propostas de Casas de Cultura, centros comunitários e acesso à internet pública.

Outra frente é o custo do acesso à água. O MVA defende a implementação da tarifa social prevista na Lei Federal 14.898/2024 e um caminho para a tarifa zero para populações vulneráveis das Aris. Também propõe que a Caesb permaneça 100% pública e que a regularização ou anistia de ligações ocorra sem medidas punitivas contra os moradores.


Apoie a comunicação popular no DF:

Faça uma contribuição via Pix e ajude a manter o jornalismo regional independente. Doe para [email protected]

Faça uma sugestão de reportagem sobre o Distrito Federal, por meio do número de WhatsApp do BdF DF: 61 98304–0102

Siga nosso perfil no Instagram e fique por dentro das notícias da região.

Entre em nosso canal no WhatsApp e acompanhe as atualizações

Source
Brasil de Fato
Open original ↗
Was this news useful?

Debates 0

Be the first to contribute to the debate.

Share your information and promote your argument

Do not hesitate to publish information or data that may be positive or useful.

To join the debate, log in or create a free account.