O que esperar de um novo governo Lula para as periferias

Por Jacqueline Maria da Silva26/10/2026 às 02:375 visualizações

O que as periferias podem esperar dos próximos quatro anos de gestão de Lula? Essa é a pergunta que marca o resultado das eleições de 2026. Neste domingo (25), o presidente Lula (PT) foi reeleito com 51,76% dos votos, em uma virada histórica, após um primeiro turno de incertezas, marcado pela perda de votos nas periferias e na Grande São Paulo.

Para o cientista político do Centro de Estudos Periféricos, Tiarajú Pablo, Lula deverá radicalizar na política pública, buscando conquistar setores populares. “Eu acho que ele vai vir com ‘acenos’ muito mais evidentes do que foi a política que ele fez no terceiro mandato dele”, explica.

Para a cientista política Beatriz Mendes, do Jardim Trianon, em Taboão da Serra, a reeleição de Lula abre a oportunidade de aprofundar políticas sociais, embora o governo tenha contradições que precisam ser discutidas.

Nos três governos do petista, há um histórico de criação e ampliação de políticas de acesso à renda, à educação, à saúde e à moradia, com impactos nas periferias.

Essas conquistas também são resultado da pressão dos movimentos sociais e ainda precisam avançar.

Beatriz cita como exemplo a Farmácia Popular, criada em 2004. Para quem tem renda apertada, conseguir manter um tratamento sem comprometer a alimentação ou o aluguel tem um impacto enorme.

“Esse é o sentido de defender o SUS (Sistema Único de Saúde) e seu financiamento: impedir que a possibilidade de cuidar da própria saúde dependa da capacidade de pagamento que cada indivíduo tem”, completa.

Ela aponta compromissos a serem cumpridos em diversos eixos, sobretudo naqueles que afetam minorias e grupos mais vulneráveis. Na saúde, por exemplo, estão a redução das filas, o enfrentamento das desigualdades territoriais de acesso e a melhoria dos atendimentos.

‘Para mulheres negras e periféricas, a qualidade dessa política envolve tanto conseguir uma consulta quanto ter sua dor escutada e receber atendimento digno’

A criação da Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ e do Acolher+, voltado ao fortalecimento de casas de acolhimento, demonstra um reconhecimento institucional dessas necessidades, segundo Beatriz.

Pautas precisam ser aprimoradas

Na educação, há o histórico do Prouni (Programa Universidade para Todos) e da expansão das universidades federais por meio do Reuni, ambos instituídos nos primeiros governos Lula. São exemplos de decisões que ampliaram as possibilidades de acesso ao ensino superior para as juventudes periféricas.

Mas Beatriz aponta que há espaço para aprimoramentos, incluindo atenção especial à educação básica, ao acesso, à permanência e às condições para concluir os estudos. “Ações afirmativas e proteção social precisam caminhar juntas para que o acesso se transforme em uma oportunidade efetiva”.

No que diz respeito à proteção social e à renda, a criação do Bolsa Família, em 2003, e sua retomada, em 2023, expressam uma orientação de governo que reconhece a responsabilidade pública diante da pobreza. Essa proteção, segundo Beatriz, precisa estar articulada à oferta de empregos com direitos, à valorização da remuneração e aos serviços públicos.

Outro desafio para Lula será enfrentar a distância entre os avanços econômicos e a experiência cotidiana da população.

Beatriz chama a atenção para a queda do desemprego e da subutilização da força de trabalho, que corresponde à parcela da população em idade de trabalhar que não é plenamente aproveitada pelo mercado de trabalho. Por outro lado, as taxas de informalidade permanecem elevadas.

“Há pessoas trabalhando e vivendo sem previsibilidade de renda, sem descanso e sem segurança para planejar o futuro. Lula precisará enfrentar essa realidade. Melhorar o mercado de trabalho e garantir proteção suficiente são tarefas relacionadas, mas distintas”, complementa.

A especialista lembra ainda que o governo Lula mantém o compromisso com o arcabouço fiscal, ou seja, com o controle dos gastos públicos, e propõe ampliar a justiça tributária. Em sua visão, o financiamento dos direitos sociais precisa ocupar um lugar central nessa discussão, com mais transparência para a sociedade. “É necessário explicitar os efeitos das regras fiscais, dos benefícios tributários e das prioridades orçamentárias sobre a desigualdade”.

Desafios no Congresso

Para Beatriz, Lula enfrentará desafios de governabilidade para aprofundar esses compromissos, em um cenário de forte oposição de deputados federais e senadores.

Somente o PL conquistou 121 cadeiras na Câmara dos Deputados e terá 28 representantes no Senado. Embora não constitua maioria sozinho, o partido terá peso e influência nos debates e nas agendas parlamentares.

“A questão central, para Lula, será a governabilidade. Negociar com o centro faz parte do funcionamento das instituições, mas cada acordo precisará ser avaliado pelas suas consequências práticas. A estabilidade do governo precisa servir à realização de políticas que melhorem a vida da população”, comenta.

Beatriz reforça que a mobilização popular de estudantes, sindicatos, coletivos, movimentos sociais e moradores, como ocorreu nas semanas que antecederam o segundo turno, precisa continuar após a eleição. A organização desses grupos será fundamental para acompanhar as decisões, apresentar propostas e pressionar a classe política.

“Essa presença pode ampliar o espaço para medidas que têm encontrado resistência dentro das instituições, como a aprovação da escala 6×1, aprovada no Senado, no início de outubro”.

Para Tiarajú Pablo, Lula deverá navegar por águas turvas nos próximos anos, em parte devido à configuração eleita para a Câmara e o Senado. “A base lulista está mobilizada e vai fazer muitos enfrentamentos nos próximos anos de gestão”, comenta.

Por outro lado, Lula pode enfrentar a reação de sua base popular aos cortes orçamentários que venha a propor. “Eu acho que tem uma base popular que pode ficar descontente muito cedo com esse governo e também ‘atrapalhar’ esse andamento”, completa.

Agência Mural

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