O lado de quem diz não ter lado: neutralidade, poder e falsa equivalência na política brasileira

به قلم Marília Nascimento24/09/2026 às 19:496 بازدید
Sao Paulo, SP. 23.08.2026 - Presidential Debate - Candidate Augusto Cury (Avante) during the first debate of the presidential election race, promoted by TV Bandeirantes, at the station's headquarters in the southern zone of Sao Paulo, this Sunday, August 23, 2026.(Foto: Marina Uezima/Brazil Photo Press/Brazil Photo Press) INTERNATIONAL (Photo by Marina Uezima / Brazil Photo Press via AFP)
Sao Paulo, SP. 23.08.2026 - Presidential Debate - Candidate Augusto Cury (Avante) during the first debate of the presidential election race, promoted by TV Bandeirantes, at the station's headquarters in the southern zone of Sao Paulo, this Sunday, August 23, 2026.(Foto: Marina Uezima/Brazil Photo Press/Brazil Photo Press) INTERNATIONAL (Photo by Marina Uezima / Brazil Photo Press via AFP)
Brasil de Fato

Nos últimos anos, tornou-se comum ouvir de lideranças políticas que não são “nem de esquerda, nem de direita”. A frase geralmente vem acompanhada de palavras como “gestão”, “eficiência”, “diálogo”, “equilíbrio” e “pragmatismo”. Em um país polarizado, e com a política institucional em crise, o discurso encontra terreno fértil porque oferece uma promessa aparentemente simples: é possível governar deixando de lado as disputas ideológicas. O problema é que a política não acontece fora dessas disputas.

Toda escolha feita pelo Estado produz consequências. Decidir onde investir recursos, quais políticas priorizar, quem participa dos espaços de decisão, quais direitos serão ampliados e quais grupos serão protegidos, tudo isso depende de concepções sobre o papel de quem governa, sobre as desigualdades e sobre quais problemas devem ser enfrentados primeiro.

Por isso, mais importante do que saber se uma liderança se apresenta como de esquerda, de direita ou de centro, é observar quais interesses suas escolhas fortalecem, quais alianças sustentam seu governo e que projeto de sociedade vai sendo construído a partir delas.

Em Pernambuco, esse debate aparece de maneira bastante evidente na construção política de Raquel Lyra (PSD). A governadora tem buscado associar sua imagem à isenção associada ao que batizou de “pernambuquismo”, cujo significado procura deslocar o debate das grandes identidades políticas nacionais.

Mas nenhuma trajetória política começa do zero e a própria Raquel pertence a uma família com longa inserção na política brasileira. A questão, portanto, não é simplesmente classificá-la como de direita ou de esquerda, mas perceber como a ênfase na eficiência administrativa pode produzir a imagem de um governo situado acima dos conflitos políticos, quando governar significa necessariamente fazer escolhas dentro deles.

Nestas eleições, outras lideranças têm recorrido a discursos semelhantes, embora ocupem posições e estabeleçam alianças bastante distintas. Eduardo Braide (PSD), no Maranhão, tem procurado afastar sua imagem da polarização nacional e colocar no centro do debate a gestão e os problemas concretos do estado.

Em Minas Gerais, Jarbas Soares Júnior (PSB) chegou a afirmar que não é de esquerda, de direita ou de centro, contrapondo os chamados “núcleos ideológicos” a uma atuação orientada pela administração pública. Em outro campo político, Tarcísio de Freitas (Republicanos) também recorre à separação entre técnica e ideologia para defender determinadas escolhas de governo.

Essas experiências não são iguais, tampouco expressam necessariamente um mesmo projeto político. O que interessa observar é a recorrência de uma linguagem que desloca determinadas decisões do terreno da disputa política para o campo aparentemente neutro da gestão. Afinal, a quem serve a neutralidade?

A questão não está em negar a importância da técnica, pois políticas públicas exigem planejamento, evidências, orçamento, capacidade administrativa e avaliação. Mas nenhuma dessas ferramentas responde, por si só, quais problemas devem ser considerados prioritários ou para quem os recursos públicos devem ser destinados.

Raquel Lyra (PSD), Lula (PT), Janja da Silva, João Campos (PSB) e Tábata Amaral (PSB-SP) da esquerda para direita
Raquel Lyra (PSD), Lula (PT), Janja da Silva, João Campos (PSB) e Tábata Amaral (PSB-SP) da esquerda para direita
Raquel Lyra (PSD), Lula (PT), Janja da Silva, João Campos (PSB) e Tábata Amaral (PSB-SP) da esquerda para direita

Desigualdade, racismo, violência contra as mulheres, concentração de renda, acesso à terra, segurança pública, privatização ou distribuição do orçamento não são apenas problemas de gestão. São também conflitos em torno de direitos, recursos e poder. A técnica pode informar uma decisão política, mas não elimina a disputa sobre qual sociedade se pretende construir.

É a partir dessa distinção que a conhecida formulação de Sueli Carneiro — “Entre a esquerda e a direita, continuo negra” — nos serve de bússola. À primeira vista, a frase poderia ser aproximada do discurso do “nem esquerda, nem direita”, mas as duas posições partem de lugares políticos profundamente diferentes. Sueli não afirma que as disputas políticas são irrelevantes nem reivindica um lugar de neutralidade, mas chama atenção justamente para relações de poder que não desaparecem quando mudam os governos, os partidos ou as denominações dos campos políticos.

Em vários capítulos da história, o movimento negro brasileiro tem feito o mesmo, inclusive no interior dos campos progressistas, que durante muito tempo trataram o racismo como uma contradição secundária, supondo que as desigualdades raciais seriam superadas a partir do enfrentamento das desigualdades econômicas. Ao colocar a experiência negra no centro da reflexão política, Sueli aponta para os limites de projetos de transformação que não incorporam o enfrentamento ao racismo como dimensão estruturante da democracia, demonstrando autonomia política.

Aqui, isso significa poder construir alianças sem abrir mão de princípios, dialogar com diferentes campos sem apagar os conflitos existentes e, inclusive, tensionar aqueles com quem se compartilham determinados projetos quando esses projetos não enfrentam as desigualdades produzidas pelo racismo, pelo patriarcado e pelas relações de classe.

Já a neutralidade, quando reivindicada como posição política, pode operar de outra maneira: ao apresentar decisões como se estivessem acima das disputas sociais, transforma escolhas profundamente políticas em questões aparentemente administrativas e, com isso, torna menos visíveis as relações de poder que as atravessam.

A falsa equivalência aparece quando essas duas posições são colocadas no mesmo plano. Recusar um alinhamento automático porque se reivindica autonomia para construir um projeto político antirracista não é o mesmo que se apresentar como “nem de esquerda, nem de direita” enquanto se participa das estruturas tradicionais de poder. No primeiro caso, há uma tentativa de ampliar os termos da disputa política, incorporando dimensões historicamente secundarizadas. No segundo, o afastamento das categorias ideológicas pode contribuir para ocultar as próprias disputas e relações que organizam o exercício do poder.

O debate ganha ainda mais importância quando olhamos para a formação da democracia brasileira, construída em uma sociedade marcada por desigualdades de raça, gênero, classe e território. Determinados grupos tiveram muito mais condições de definir o que seria reconhecido como interesse público, quais demandas seriam consideradas legítimas e quem poderia ocupar os espaços de decisão. Pensar a democracia exige olhar não apenas para as instituições e para quem formalmente as ocupa, mas para as relações de poder que as atravessam.

Mais do que saber qual identidade política uma liderança reivindica, importa perguntar quem participa das decisões, quem acessa os recursos públicos, quais territórios recebem investimentos, quais vidas são protegidas e quais desigualdades determinado projeto político está disposto a enfrentar. A ausência de uma identificação ideológica não elimina esses conflitos. Em alguns casos, pode apenas fazer com que permaneçam menos visíveis.

Democracia, afinal, não significa ausência de conflito. Pelo contrário, ela depende da possibilidade de tornar visíveis os conflitos que estruturam a sociedade e de disputar publicamente os caminhos para enfrentá-los. A reivindicação de estar além dessas posições exige uma pergunta mais fundamental: quando alguém afirma não estar de nenhum lado, quais relações de poder deixam de ser nomeadas?

منبع
Brasil de Fato
گشودن نسخه اصلی ↗
این خبر مفید بود؟

بحث‌ها 0

نخستین مشارکت‌کننده در بحث باشید.

اطلاعات خود را به اشتراک بگذارید و استدلال خود را مطرح کنید

در انتشار اطلاعات یا داده‌های مفید تردید نکنید.

برای شرکت در بحث، وارد شوید یا حساب رایگان بسازید.