
Os avanços tecnológicos, as oportunidades de mercado e os desafios operacionais e de custo da rastreabilidade no setor agropecuário brasileiro foram debatidos na última terça-feira, dia 27, durante o Agro em Código, realizado em São Paulo. O encontro reuniu representantes de grandes marcas de alimentos, logística, de empresas de tecnologias e pesquisadores em uma programação com painéis, palestras e cases que provocaram reflexões e análise sobre o futuro da rastreabilidade.
Esta foi a quarta edição do Agro em Código, que é promovido pela Associação Brasileira de Automação (GS1 Brasil) em parceria com a Embrapa e com apoio do Cubo Itaú.
Logo na abertura do evento, o presidente da GS1 Brasil João Carlos Oliveira destacou a relevância que o tema vem tomando a partir de exigências de mercados consumidores, como a União Europeia. Ele apontou o aumento do número de empresas do setor agropecuário na Associação e o crescimento do evento.
O chefe-geral da Embrapa Agricultura Digital, Stanley Oliveira, ressaltou o papel da rastreabilidade como garantia de confiança sobre a origem e condições de produção dos produtos agropecuários.
“Assim como a ciência ajuda o Brasil a produzir mais, com maior eficiência, a rastreabilidade demonstra o valor do que produzimos”, disse Oliveira, ressaltando o papel da Embrapa de fortalecer o ecossistema da rastreabilidade, contribuindo com a padronização e interoperabilidade de dados, sem intenção de competir com a iniciativa privada.
Um exemplo é o Embrapa Trace, grupo de APIs de rastreabilidade que a empresa está lançando com versões já validadas para as cadeias da soja, café e bovinocultura de corte. Cadeias como cacau, mel, borracha e atum também serão validadas em breve.
Rastreabilidade para conformidade
O papel da rastreabilidade para atendimento da legislação foi ilustrado por meio do case da Cannabis medicinal, com informações sobre a cadeia tanto no Brasil quanto na Argentina. Em uma cadeia com rigoroso controle, a rastreabilidade faz parte de todo o processo produtivo até chegar ao consumidor.
Amplamente discutidas nas edições anteriores do Agro em Código, as exigências de mercados consumidores, como a lei Antidesmatamento da União Europeia também margearam as discussões sobre o comportamento brasileiro de reagir às regras globais ao invés de antecipá-las.
“Temos que protagonizar para fortalecer os canais de exportação. Temos capacidade de resposta de qualidade, como foram os casos do Boi China e o do Renovabio”, lembrou Giovana Araújo, da KPMG.
O advogado Pedro Carneiro, da SPLaw destacou a importância da rastreabilidade para dar confiança aos importadores de produtos brasileiros.
“Precisamos da evidência trazida pela rastreabilidade. É mais fácil mostrar as evidências do que ter de criar narrativas”, disse.
Rastreabilidade na decisão do consumidor
A despeito das exigências regulatórias e comerciais, o evento também discutiu o papel da rastreabilidade na tomada de decisão do consumidor. Exemplos da Nestlé, Mercado Livre e Dengo mostraram que apesar de valorizar a informação sobre a origem dos produtos que consomem, o acesso a essa informação não é decisivo na hora da compra. Sendo assim, o investimento com a rastreabilidade não se paga pelo aumento de vendas e precisa se justificar de outras formas.
“O consumidor ainda não valoriza a origem do produto. Não é um diferencial de escolha na compra. Mas a rastreabilidade é pré-requisito para a sustentabilidade e para conferir credibilidade à marca”, afirmou Estevan Sartoreli, co-fundador da Dengo Chocolates.
Um exemplo da importância da rastreabilidade independentemente de ganhos econômicos foi abordado por Gabriel Pinheiro, diretor executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Em 2025 a intoxicação e morte de pessoas após consumirem bebidas alcóolicas adulteradas com metanol trouxe uma crise de credibilidade ao setor. A rastreabilidade é uma forma de garantir a procedência e conformidade dos produtos, trazendo segurança aos clientes.
“Rastrear tem custo, mas não rastrear tem um custo muito maior”, destacou a gerente de sustentabilidade da Nestlé, Cecília Seravalli.
Tecnologias para rastreabilidade
A programação do Agro em Código trouxe ainda apresentações e um painel com os avanços tecnológicos para a rastreabilidade. Não só novos equipamentos e softwares foram mostrados, como diferentes abordagens de monitoramento e segregação de produtos ainda na indústria.
Além de garantirem a rastreabilidade, as ferramentas permitem obter ganhos de eficiência e de melhoria da qualidade. Um exemplo de barcos pesqueiros de atum com câmeras de monitoramento acopladas mostrou como a rastreabilidade garante a conformidade ambiental da atividade pesqueira e traz informações relevantes não só para o mercado consumidor como também para a preservação de espécies marítimas.
“A gente não pode olhar a rastreabilidade como um custo adicional pensando somente no consumidor. Ela agrega sim valor e ela abre mercados. O uso de IA e de equipamentos para a automação reduz o custo operacional e garante eficiência da produção. Quando a rastreabilidade está dentro do processo de gestão da empresa, ela não é um custo, ela faz parte do processo como um todo”, analisa o pesquisador da Embrapa Agricultura Digital Anderson Alves.
Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
www.embrapa.br/fale-conosco/sac/




