A escala 6×1 nas urnas: quem está ao lado de quem

Von Márcio Ayer21/09/2026 às 13:0890 Aufrufe
A redução da jornada de trabalho se constitui como uma das conquistas mais importantes para a classe trabalhadora do Brasil nas últimas décadas.
A redução da jornada de trabalho se constitui como uma das conquistas mais importantes para a classe trabalhadora do Brasil nas últimas décadas.
Brasil de Fato

A luta histórica da classe trabalhadora pela redução da jornada de trabalho sem corte de salários ou perda de direitos, materializada na PEC pelo fim da escala 6×1, deixou de ser uma pauta restrita aos sindicatos, lojas e fábricas. Ela tomou as ruas, as redes e, agora, o centro do debate eleitoral.

Não poderia ser diferente. Com 78% da população favorável ao fim da jornada de seis dias de trabalho por apenas um de descanso, nenhum candidato pode fingir que o tema não existe – sendo 96% entre eleitores de esquerda e 61% entre eleitores de direita, conforme pesquisa nacional do Instituto Locomotiva, em parceria com a QuestionPro.

A pergunta que se coloca para a classe trabalhadora nestas eleições é simples e direta: quem está ao lado de quem?

Não estamos diante de uma “escolha” ou de uma “flexibilidade”. A escala 6×1 é um mecanismo que empurra a juventude para a precarização desde o primeiro emprego e que rouba não apenas o sábado ou o domingo, mas a possibilidade de estudar, cuidar da saúde, dos filhos e de si mesmo.

A PEC nº 221/2019 extingue a escala 6×1, reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais e garante dois dias de descanso remunerado sem redução salarial. Foi aprovada na Câmara em maio – com 461 votos a favor e apenas 19 contra – e depois na CCJ do Senado, em 2 de setembro, com 27 votos favoráveis e apenas quatro contrários. Agora, depende de votação no plenário do Senado, comandado por Davi Alcolumbre (União-AP).

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Contra essa proposta, a oposição bolsonarista apresentou a PEC nº 12/2026, de autoria do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Essa proposta não acaba com a escala 6×1, não reduz o limite de 44 horas e não garante dois dias de descanso remunerado. Ela apenas permite que o trabalhador negocie individualmente com o patrão a forma de cumprimento da jornada, abrindo caminho para a remuneração por hora trabalhada – o que, na prática, significa precarizar ainda mais as condições de trabalho e fragilizar o salário mínimo, as férias e o 13º salário.

O presidente Lula assumiu publicamente a defesa do fim da escala 6×1. Em declaração recente, afirmou: “Espero que o Alcolumbre coloque em votação logo, para que possamos ter certeza de que a gente vai ter mais tempo para descansar, cuidar da criança, passear ou ler alguma coisa”. O governo trata a aprovação da PEC como uma de suas prioridades antes das eleições.

O outro lado articula exatamente o oposto. Flávio Bolsonaro é explicitamente contra o fim da escala 6×1. Ele interrompeu sua campanha eleitoral para articular a rejeição à PEC no Senado e construir uma “alternativa” que, na prática, mantém a exploração. Sua posição é clara: “Eu defendo a liberdade do trabalhador. O trabalhador vai trabalhar quantas horas ele quiser. Ele vai ter a flexibilidade, a liberdade de decidir e vai ser remunerado pela quantidade de horas que ele quer trabalhar”.

Essa “liberdade” é a mesma que entidades patronais defendem. Esses setores preveem um caos econômico com o fim da escala, mas ignoram que quem trabalha exausto, doente e sem tempo para a família não tem energia para ser produtivo. A ciência e a própria lógica capitalista já provaram que um trabalhador mais satisfeito e descansado produz mais e melhor.

O setor mais retrógrado do empresariado argumenta que a redução da jornada aumentaria custos. A Fecomércio estima um custo de R$ 158 bilhões para as empresas, mas esse número é artificialmente inflado e ignora que a escala 6×1 já impõe custos altíssimos, socializados pelo Sistema Único de Saúde, pela Previdência Social e pela sociedade como um todo. O que eles chamam de “aumento de custo” é, na verdade, recusa em repartir os ganhos de produtividade que os trabalhadores já entregaram nas últimas décadas.

A escala 6×1 não é eficiente, é predatória, se sustenta sobre a alta rotatividade, o adoecimento e os salários baixos. O que reduz custo para o patrão é explorar ao máximo um trabalhador até que ele adoeça e seja substituído. Isso não é gestão, é extração de mais-valia absoluta.

Nestas eleições, portanto, a classe trabalhadora tem diante de si uma escolha que não é apenas sobre projetos de governo, mas sobre quem decide o que fazer com o nosso tempo de vida.

De um lado, um candidato que apoia o fim da escala 6×1 e a redução da jornada sem corte de salários, uma medida de civilização do trabalho, de saúde pública e de direito à vida. Do outro, um candidato que se articula para enterrar a PEC, que defende a “liberdade” de negociar individualmente com o empregador e que, na prática, quer que a conta continue sendo paga apenas pelos trabalhadores e pelo Estado.

Que nestas eleições cada trabalhador e cada trabalhadora saiba identificar quem está do seu lado na luta por mais tempo para viver. Porque essa decisão não pode ficar nas mãos de quem lucra com a exaustão alheia.

*Márcio Ayer é presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro e diretor nacional de Comércio e Serviços da CTB.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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