Análise: Lula volta-se para questões domésticas e rebate ameaças à soberania em discurso na ONU

22/09/2026 às 19:3025 visualizzazioni
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
Lula abriu seu discurso na cimeira apontando ao que, no seu entendimento, é o momento mais crítico das Nações Unidas desde 2003, quando participou do encontro de lideranças globais pela primeira vez como presidente do Brasil.
Para descrever sua argumentação, o chefe do Planalto afirmou que a ONU está falhando em livrar a humanidade do flagelo da guerra e destacou que credibilidade da entidade "nunca esteve tão baixa". Ele também criticou a atuação do Conselho de Segurança da ONU e voltou a defender a reforma do grupo, para se aproximar à realidade das lideranças mundiais hodiernas. Criticas também foram dirigidas a Israel e ao Hamas.
Para Williams Gonçalves, professor de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Lula apresentou as grandes questões internacionais sem ser sectário e foi enfático na defesa ao multilateralismo e à soberania brasileira. "O Brasil não cabe no quintal de ninguém", destacou. Na avaliação do professor da UERJ, ambos flancos denotam um discurso "contra os Estados Unidos".

Gonçalves destaca que defender a soberania não é uma escolha, mas um dever do chefe de Estado. "Lula está fazendo o que todo presidente deveria fazer. [...] Está claro que quem ameaça a soberania brasileira é o Estado norte-americano, que tem interferido de maneira aberta".

Ao expor tais tópicos, segundo Eduardo Manuel Val, professor associado de direito internacional na Universidade Federal Fluminense (UFF), a fala do presidente brasileiro emerge como uma denúncia e ao mesmo tempo como advertência. "Isso é um fórum onde colocar isso de forma pública se torna relevante para que todo mundo saiba as ameaças a quais está submetido o sistema eleitoral brasileiro".
Entretanto, boa parte dos pouco mais de 20 minutos de Lula no microfone na abertura da Assembleia Geral foram dedicados à questões domésticas. Lula destacou o combate a todos os escalões da criminalidade, inclusive ao que chamou de "magnatas do crime", disse que as bets estão "endividando e destruindo lares" e que as terras raras pertencem ao povo brasileiro.
"O acesso a nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais".
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Notícias do Brasil
All in: como as bets fraturam a saúde mental, as relações e a paz das famílias brasileiras?
Para Gonçalves, a abordagem de assuntos domésticos como a segurança pública em um fórum internacional se deve à instrumentalização da pauta como possível ponto de ingerência estrangeira. Em outras palavras, Washington vem cooptando o tema para interferir em países na América Latina, como aconteceu recentemente na Venezuela, com acusações de envolvimento de Caracas com o narcotráfico, até o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Após Delcy Rodríguez assumir e, segundo o analista, se mostrar uma "pessoa inteiramente submissa aos Estados Unidos, todo aquele discurso sobre o crime organizado evaporou. O que ficou de objetivo foi a tomada dos recursos naturais venezuelanos, especialmente o petróleo pelos Estados Unidos".
No caso do Brasil, a internacionalização da agenda interna, sobretudo a da segurança pública, se deve "à uma oposição que não se dá ao respeito e oferece de bandeja aos interesses estrangeiros a soberania brasileira". Mais especificamente, o professor se refere ao desmonte das relações codificadas entre os Estados, quando um senador da República —neste caso Flávio Bolsonaro — "vai a outro país, no caso os Estados Unidos, e oferece a confecção de um programa de governo para os estrangeiros, são eles que estão internacionalizando as questões domésticas, são eles que estão comprometendo a soberania".
Ele acrescenta que a tribuna da ONU deveria ser um lugar para discutir questões internacionais, que afetam as relações entre os Estados. Porém, no caso brasileiro, a ameaça à soberania que conta com apoio dentro do país alçou assuntos domésticos ao centro do discurso do presidente.
Val, por sua vez, ao analisar o discurso do presidente, complementa com a menção à necessidade de regulamentação das big techs e o trabalho interno de combate à fome.

"Essas questões tornam o discurso e a imagem do Lula como um grande líder internacional com coragem política e com uma posição de extrema firmeza e segurança".

De acordo com o professor da UFF, após o pronunciamento, a impressão que fica do presidente é de uma liderança extremamente bem sucedido.

"Sai com a imagem de alguém que entende a política no seu sentido maior, a política internacional e o papel de um país que exige respeito à sua soberania. Um estadista que tem essa dimensão global do que significa a necessidade de 'repotencializar' as Nações Unidas."

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