‘Professor virou robô’: pesquisa revela medo, autocensura e adoecimento em meio à ofensiva da extrema direita nas escolas

מאת Rodrigo Chagas22/09/2026 às 10:0028 צפיות
Estudo da FGV EAESP com a CNTE ouviu 2.235 profissionais da educação em todas as regiões do país.
Estudo da FGV EAESP com a CNTE ouviu 2.235 profissionais da educação em todas as regiões do país.
Brasil de Fato

Durante anos, a professora de História Cibele Lima levou para a sala de aula debates sobre violência policial, racismo, homofobia e feminismo. Há 15 anos no ensino municipal paulistano, ela chegou a organizar grupos de discussão sobre feminismo no contraturno. Aos poucos, porém, começou a medir as palavras, reduzir as discussões e abandonar algumas atividades.

A mudança se aprofundou depois que um amigo, também professor de História, foi exposto nas redes sociais por causa de uma prova que havia aplicado. “Aquilo para mim foi muito impactante. Eu fiquei com muito medo de ser a próxima”, conta. “Eu parei de fazer o grupo feminista nos meus projetos de contraturno porque fiquei com receio.”

Hoje, a autocensura aparece até na maneira como Cibele responde a perguntas dos estudantes. Se uma criança pergunta, por exemplo, o que significa ser uma pessoa trans, ela diz que prefere chamar para uma conversa individual quem tiver interesse, em vez de transformar a dúvida em uma discussão com toda a turma. O receio é que o episódio chegue às famílias como uma acusação de que estaria “ensinando as crianças a serem trans”.

O relato de Cibele se enquadra em um cenário identificado pela nota técnica “Politização no cotidiano das escolas: um olhar para a prática docente”, elaborada por pesquisadores da FGV EAESP em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).

Entre os participantes, 75% disseram ter medo de sofrer consequências profissionais caso suas decisões contrariem interesses políticos. Outros 61% afirmaram que a pressão política limita a autonomia para trabalhar como consideram adequado, enquanto 71,7% sentem que seu trabalho está mais exposto a críticas políticas do que no passado. Para 66,8%, até decisões rotineiras podem ser interpretadas como posicionamentos políticos.

A pesquisa recebeu 2.235 respostas válidas de profissionais da educação de todas as unidades da Federação, coletadas entre 23 de junho e 20 de agosto deste ano. A amostra é voluntária e não probabilística e, por isso, os próprios pesquisadores alertam que os resultados não podem ser generalizados para o conjunto dos docentes da rede pública brasileira.

Nos depoimentos abertos desta pesquisa, professores também descrevem exaustão, medo e adoecimento. “Estamos adoecendo, cansados, desvalorizados, com medo de agir, falar, contrariar, com medo de represálias”, escreveu um dos participantes. “Não temos mais autonomia. Somos robôs em frente a uma tela. Professor virou robô”, definiu um educador.

Medo chega ao conteúdo da aula

Coordenadora da equipe responsável pelo estudo, a professora e pesquisadora Gabriela Lotta afirma que o mais impactante foi perceber que a disputa política deixou de atingir apenas temas tradicionalmente polarizados e passou a interferir em práticas básicas do trabalho docente. “Tem afetado práticas docentes muito básicas. Não é só uma crítica abstrata e generalizada do trabalho do professor”, afirma.

Nos relatos colhidos pela pesquisa, exemplifica Lotta, aparecem professores de Biologia receosos de tratar do aparelho reprodutivo por medo de serem acusados de sexualizar crianças, além de dificuldades para abordar vacinação, democracia e a própria história brasileira.

“Ou eles são censurados ou estão se autocensurando, evitando falar sobre temas que estão no currículo, temas que a ciência tem como básicos, mas que eles começam a ficar com medo de ensinar, porque tudo pode ser visto como politização, doutrinação e assim por diante”, diz.

A própria nota técnica situa o fenômeno em um contexto de fortalecimento, ao longo da última década, de disputas envolvendo gênero, sexualidade, religião, questões étnico-raciais e conteúdos políticos. O documento menciona a atuação do Escola Sem Partido e iniciativas de parlamentares que acusam docentes de “doutrinação política”.

Para Lotta, o Escola Sem Partido é uma parte, mas não a única, desse processo. “Ele é reflexo desse ambiente muito politizado e também de muita polarização de temas variados na sociedade”, afirma.

Gravações colocam professores sob vigilância

Richard Araújo conhece esse ambiente de duas perspectivas. Além de professor da rede estadual paulista, é diretor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) e dirigente da CNTE. Ele afirma que não deixou de ensinar conteúdos previstos no currículo, mas passou a tomar mais cuidado com a forma de abordá-los.

“Desde que o movimento Escola Sem Partido ganhou adesão e apoio de uma parte da sociedade, nós temos sido mais cautelosos em relação a como abordar certos temas”, diz. O temor, segundo ele, é que trechos de aulas sejam gravados, retirados de contexto e disseminados nas redes sociais.

“Não deixei de abordar nada que faz parte do currículo aqui das escolas estaduais e debates da atualidade, que são importantes, mas tenho sido mais cauteloso”, afirma. “Pode cair nas redes sociais e ser usado por influenciadores de extrema direita, que não têm nenhum pudor em expor os professores e distorcer as coisas.”

A experiência relatada por Ricardo Santos, que trabalhou durante seis anos na rede municipal de São Paulo, ajuda a mostrar como esse tipo de vigilância chegou à sala de aula. Antes das restrições ao uso de celulares, diz ele, alguns estudantes gravavam as aulas para apresentar o conteúdo posteriormente aos pais.

“Eu percebia em algumas turmas que alunos gravavam as aulas quase como algo corriqueiro, para depois poder ir em casa ou até mostrar para os pais, e os pais decidirem se era alguma coisa relevante ou não para ser questionada”, conta.

Ricardo diz nunca ter sido questionado por uma aula e destaca que teve equipes de direção e coordenação que funcionavam como proteção diante de possíveis pressões externas. Ainda assim, afirma que as gravações eram mais recorrentes em algumas turmas nas quais estudantes demonstravam maior identificação com pautas associadas ao Escola Sem Partido.

Maria Medeiros, nome fictício de uma professora da rede estadual paulista, conta que passou a se policiar mais em sala de aula depois de um episódio ocorrido em 2018, na Escola Estadual Levi Carneiro. Naquele ano, durante a eleição presidencial, ela criticou Jair Bolsonaro em aula e o comparou a Hitler. No dia seguinte, segundo relata, uma mãe reuniu integrantes da associação de bairro para reclamar à direção da escola. A diretora a defendeu, mas depois a chamou para uma conversa e recomendou cautela.

“Desde então, eu procuro tomar cuidado em minhas aulas. Continuo seguindo os conteúdos normalmente, explicando, por exemplo, direita e esquerda na Revolução Francesa, luta de classes, socialismo e os três Poderes, mas tomo certo cuidado para não falar nomes de políticos. Às vezes escapa, mas me policio bastante”, afirma.

Pressão também chega pela gestão

Para Julia Ramalho, nome fictício para professora de Geografia do ensino fundamental II em uma escola particular, a orientação para controlar o que dizia partiu da própria escola. Ela relata ter sido chamada por coordenadoras pedagógicas e advertida para não falar de política ou se posicionar politicamente, mesmo dizendo nunca ter manifestado preferência eleitoral em sala de aula.

“Eu tinha que ter muito cuidado com o que falaria na aula, porque as famílias ficam muito em cima, reclamam muito e cobram muito da escola”, relata. Para a professora, a orientação produziu uma sensação permanente de insegurança.

A consequência apareceu no planejamento. Julia diz que não abandonou os temas econômicos e políticos necessários às aulas de Geografia, mas passou a reduzir a profundidade das discussões.

“Eu mudei muito a forma de dar aula nos últimos anos, sobretudo a partir de 2018”, afirma. “Às vezes não deixo de fazer algumas problematizações, mas faço de maneira mais superficial e mais limitada, sem me debruçar tanto no desenvolvimento dessas reflexões.”

A pesquisa da FGV e da CNTE mostra que 64,5% dos participantes afirmam ter pouco espaço para interpretar regras e sentir que devem apenas segui-las. Ao mesmo tempo, 63,2% dizem desenvolver soluções próprias quando essas regras dificultam o trabalho, um contraste que os pesquisadores apontam como sinal da tensão entre rigidez institucional e necessidade de adaptação no cotidiano escolar.

‘Não tenho mais vontade de continuar dando aula’

A pressão também aparece nos relatos como fonte de angústia e desmotivação. Julia afirma que já não se imagina permanecendo na profissão por muitos anos. “Eu não tenho mais vontade de continuar dando aula. Não me vejo fazendo isso, sobretudo quando penso que daqui a dez anos eu não vou aguentar essa situação atual”, diz. “É uma pressão muito grande ficar sendo censurado e pressionado para policiar as palavras.”

Cibele também relaciona a autocensura ao desgaste emocional. Ela relata períodos de medo, tremedeira durante as aulas e piora de sua saúde mental. No retorno presencial após a pandemia, afirma ter vivido um dos episódios que mais a marcaram. Durante uma reunião com responsáveis, enquanto transmitia informações sobre vacinação, um pai começou a discutir com ela e, segundo seu relato, avançou em sua direção. Colegas precisaram intervir. Ao deixar a escola, ele ainda a acusou de ser “petista”.

Lotta ressalta que a pesquisa atual não mede o crescimento do adoecimento entre docentes, mas afirma que outros trabalhos já vêm identificando aumento de problemas de saúde mental e abandono da profissão.

Apesar do desgaste, a pesquisa reafirmou a identificação dos participantes com a função social da profissão: 96,3% consideram importante contribuir para o bem-estar da sociedade e 96% enxergam o trabalho como uma forma de servir à sociedade. A relação com os estudantes também aparece de forma positiva: 88,6% avaliam bem a relação que mantêm com os alunos e 85,1% afirmam que eles confiam nos professores.

Para Gabriela Lotta, quando o receio de conflitos, denúncias ou retaliações passa a definir o que será discutido ou a profundidade com que determinado conteúdo será trabalhado, afirma, o impacto chega também aos estudantes.

“Tudo isso tem como fim o fato de que as nossas crianças não estão sendo expostas a conteúdos que são supostamente conteúdos básicos e obrigatórios do nosso currículo”, diz. “Coisas que as crianças deveriam aprender deixam de ser ensinadas por causa desse ambiente extremamente politizado.”

Outros dados da pesquisa

  • 58% sentem, sempre ou frequentemente, pressão para mudar procedimentos ou rotinas de trabalho por determinação do governo.
  • 44% já tiveram conflitos com famílias de alunos por causa do trabalho.
  • 69,7% consideram positiva a relação que mantêm com as famílias dos estudantes.
  • 89,4% sentem-se responsáveis pelo impacto social do próprio trabalho.
  • 88,5% dizem ficar pessoalmente afetados quando não conseguem ajudar um aluno.
  • 75,2% sentem orgulho de trabalhar na escola.
  • 70,3% afirmam que o trabalho lhes dá realização pessoal; 22,5% discordam.
מקור
Brasil de Fato
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