Candidaturas de pessoas bissexuais, gays, lésbica, trans e pansexual ganham visibilidade nas eleições de 2026 no Rio Grande do Sul

Di Fabiana Reinholz24/09/2026 às 15:1440 visualizzazioni
Número corresponde a 1,71% das 1.051 candidaturas registradas no estado
Número corresponde a 1,71% das 1.051 candidaturas registradas no estado
Brasil de Fato

Pela primeira vez em uma eleição geral, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) disponibiliza no sistema DivulgaCandContas dados sobre a orientação sexual declarada pelas candidaturas.

No Rio Grande do Sul, 18 candidaturas registraram orientação sexual LGBTQIAPN+ nas eleições de 2026: oito pessoas bissexuais, oito gays, uma lésbica e uma pansexual. Outras quatro candidaturas utilizaram nome social. O número corresponde a 1,71% das 1.051 candidaturas registradas no estado. A maior concentração das candidaturas autodeclaradas está nos partidos do campo progressista e de esquerda (Psol, PT, UP, PCdoB e PDT), há registros também no MDB e PSDB.

Segundo levantamento da Aliança Nacional LGBTI+, o Rio Grande do Sul teve 31 candidaturas nas eleições de 2022, terceiro maior número entre os estados brasileiros.

Entre as 10 candidaturas trans registradas no Rio Grande do Sul pelo TSE no atual pleito, cinco são para deputado federal e cinco para deputado estadual. Por partido, o Psol registrou três candidaturas e o PT, duas, enquanto as demais estão distribuídas individualmente entre outras legendas (UP, MDB, PCdoB, PDT e PSDB).

Já o levantamento independente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), que acompanha candidaturas e campanhas de pessoas trans em todo o país, identificou 12 candidaturas trans no Rio Grande do Sul.

Entre os nomes que disputam as eleições de 2026 estão: Natasha Ferreira (PT), candidata a deputada estadual; Atena Beauvoir Roveda (Psol), candidata a deputada federal; Fabiane Gomes, a Faby Gomes (Psol), candidata a deputada estadual; Giovani Culau (PCdoB), candidato a deputado estadual; Rafael Dias Perlasca (Psol), candidato a deputado federal; Fabielly de Oliveira Teixeira, conhecida como Fabielly Klimberg (PSDB), candidata a deputada federal; e Daiana Santos (PCdoB), que concorre à reeleição para a Câmara dos Deputados.

No Legislativo municipal, as eleições de 2024 também marcaram uma mudança em Porto Alegre. A capital gaúcha elegeu a primeira bancada LGBTQIA+ da Câmara Municipal, formada por Atena Beauvoir Roveda (Psol), Natasha Ferreira (PT) e pelo mandato coletivo liderado por Giovani Culau (PCdoB). Ao todo, cinco vereadores que se identificam como LGBTI+ foram eleitos, distribuídos nessas três representações.

Para Ella Brites, cientista social e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCP/UFRGS), o aumento das candidaturas pode sinalizar dois movimentos complementares: a abertura da arena pública para novas sujeitas políticas e o acirramento das disputas ideológicas, sobretudo por meio das ofensivas antigênero e antitrans.

Abertura da arena pública e ofensiva antigênero

Segundo Brites, pessoas e movimentos da dissidência sexual e de gênero passaram a agenciar o debate público a ponto de, em diferentes espectros ideológicos, surgirem alas da diversidade e temas ligados à comunidade em diferentes instâncias da arena pública, tanto no sentido da afirmação de direitos quanto dos ataques neoconservadores.

A cientista social considera razoável pensar que os movimentos sociais, a ocupação do espaço público, as estratégias de incidência política, a produção de conhecimento e a presença visível de pessoas LGBTQIAPN+, especialmente nas mídias e nos produtos comunicacionais, criaram um ambiente no qual essas existências ganharam outras possibilidades de significado. “Essa conjuntura cria as condições para a elaboração de uma imaginação política onde travestis negras são deputadas ou futuras presidentas do Brasil, por exemplo”, frisa.

Ao mesmo tempo, a pesquisadora aponta o fortalecimento da ofensiva neoconservadora. Para ela, o que foi ensaiado nas iniciativas “contra a ideologia de gênero” se aperfeiçoou na contemporânea ofensiva antitrans, com inúmeras legislações e propostas de lei circulando pelo país, fenômeno que também pode ser observado em países onde a extrema direita teve sucesso eleitoral, como os Estados Unidos.

Esse acirramento, pontua Brites, convoca sujeitas dos movimentos sociais a traçar estratégias de enfrentamento e resistência ao desmonte de direitos conquistados e de políticas públicas acumuladas. Ela observa que, ao serem colocadas como “inimigas da nação”, por “perturbar a ordem familiar da sociedade”, essas pessoas acabam sendo colocadas em evidência.

A cientista social pondera que a população brasileira e gaúcha não é LGBTfóbica “de modo geral e indiscriminado”. No limite, afirma, as pessoas reproduzem LGBTfobia de modo mais ou menos consciente, embora a população possua “traços conservadores marcantes”.

Os casos de candidaturas LGBTQIAPN+ aos Executivos, avalia, ainda são restritos e, em linhas gerais, distantes de ter essa pauta como centralidade. Nas eleições majoritárias, para prefeito, governador, presidente e Senado, segundo ela, pessoas da comunidade são consideradas “eleitoralmente fracas”, tendo como principal justificativa o suposto conservadorismo da população.

Brites chama atenção para os interesses dos partidos. O eleitorado, afirma, é visto como um “mercado a ser disputado”, o que favorece a presença, mesmo que diminuta e ausente de propostas políticas oriundas dos movimentos sociais LGBTQIAPN+, de pessoas da comunidade em diferentes siglas partidárias, com o objetivo de disputar os votos desse eleitorado. “Cabe salientar, para concluir, que pessoas LGBTQIAPN+ são livres para aderir à perspectiva político-partidária que lhes convier.”

Representatividade ainda distante da proporcionalidade

Conforme observa a cientista política, ainda existe muita incerteza sobre o quantitativo de pessoas LGBTQIAPN+ na sociedade. Ela relaciona isso à peculiaridade da identificação e à possibilidade de não publicização dela, quando existe essa possibilidade. Esse cenário, avalia, lança dúvidas sobre a proporcionalidade da representação da comunidade na política institucional. “De modo geral, até onde se sabe, somos um quantitativo baixo, proporcionalmente falando.”

A questão da baixa presença LGBTQIAPN+ na política institucional, porém, ressalva Brites, vem de outro lugar. Apesar do cenário de avanço e abertura às pessoas e pautas da dissidência sexual e de gênero nas arenas públicas e institucionais, a resistência à presença dessas pessoas ainda organiza muitas dessas ambiências.

De acordo com a pesquisadora, em todos os espectros ideológicos há registros, públicos ou não, de dificuldades com as pautas da dissidência sexual e de gênero. Essas dificuldades, afirma, podem não inviabilizar essas pautas, mas condicioná-las de modo a atender aos grupos dirigentes e seus interesses eleitorais.

Outro aspecto fundamental, aponta, é a própria condição para a ocupação política. “Disputar uma eleição exige muita estrutura, muito apoio, muito amparo.”

Pessoas LGBTQIAPN+, sobretudo trans e não-bináries, já enfrentam, prossegue Brites, em linhas gerais, muitos desafios para estruturarem suas vidas pessoais. Estruturar uma vida política institucional, portanto, seria ainda mais desafiador. “Como podemos falar em maior presença política institucional se mal conseguimos postos de trabalho dignos?”, questiona.

Para a cientista social, uma reflexão interseccional envolve justamente a disposição de compreender quais camadas situam uma pessoa na malha social e quais dificuldades são potencializadas em função de seu corpo, de sua cor e de sua origem.

Coalizões e disputa de narrativas

Questionada sobre como ampliar a transformação da presença LGBTQIAPN+ nas instituições em propostas e políticas concretas, Brites afirma que “não há uma fórmula mágica”. As instituições, segundo ela, ainda estão se aprimorando constantemente em seu quotidiano, assim como os agentes políticos.

A presença de pessoas LGBTQIAPN+ nas instituições políticas, não apenas em cargos eletivos, mas também por meio de nomeação e concurso, pontua a pesquisadora, não se traduz automaticamente em mais propostas ou pautas aprovadas ou encampadas.

Nesse processo, ela considera fundamental a formação de coalizões. “Nenhuma pauta, em qualquer ambiente institucional, fica em pé sozinha. Há que se ter muitos braços, e, eventualmente, muito fôlego, para construir o engajamento necessário à realização de determinado assunto.”

Particularmente, Brites acredita que um dos caminhos seja exercitar a imaginação política. A pesquisadora defende apostar na resposta rápida e eficaz das instituições quando tensionadas pelos movimentos sociais e pela opinião pública, ao mesmo tempo em que são implementadas estratégias de incidência política qualificada. Essa, segundo ela, é a experiência acumulada até agora, “com alguns frutos”.

A cientista social considera urgente retirar a comunidade LGBTQIAPN+ do lugar de “inimiga pública da nação”, de “perversidão da ordem natural e divina da família e dos bons costumes”. Para isso, acredita, é necessário disputar a narrativa.

Essa disputa, ressalta, não se resume a postagens em redes sociais. Envolve apostar em pessoas LGBTQIAPN+ como lideranças, encontrar formas de não precarizar suas existências e não tratar a pauta LGBTQIAPN+ como “perfumaria para agradar um setor eleitoral”.

Também envolve, segundo ela, celebrar “com calor, iconografia e paixão” as vidas LGBTQIAPN+, transformando antes a paisagem simbólica e o avesso das instituições.

Brites critica uma lógica institucional em que as pessoas calculam as melhores estratégias de sucesso sem contar no horizonte com algo diferente de “um homem cis branco heteronormativo (mesmo que não seja heterossexual)”.

“Habitar as brechas”

Sobre como ampliar a participação LGBTQIAPN+ na política, Brites responde que seria necessária, no limite, uma transformação muito profunda da sociedade. Em termos atuais, porém, considera que existem formas de estar e disputar os espaços de acordo com as possibilidades de cada realidade.

Mais uma vez, ela aponta a importância das coalizões. Seja uma candidatura, um mandato ou uma organização social LGBTQIAPN+, a proposta, afirma, fica mais interessante quando fala “diferentes línguas” e dialoga com diferentes pautas e setores da sociedade.

A pesquisadora cita como exemplo a deputada Erika Hilton, que, segundo ela, tem emplacado conquistas legislativas e políticas que, num plano geral, contemplam a comunidade LGBTQIAPN+, mas não se limitam a ela.

Brites avalia que o Brasil e o Rio Grande do Sul são “muito hostis” à comunidade LGBTQIAPN+. Para ela, essa hostilidade não é por acaso: o arranjo social teria sido desenhado para comportar e beneficiar, de modo geral, homens cis brancos heteronormativos. “Alguém ganha com isso.”

Ao mesmo tempo, ela não acredita que seja necessário “convencer” a sociedade como um todo de que pessoas LGBTQIAPN+ são “pessoas legais e dignas de representar a todes na política”. “O caminho é seguir habitando as brechas, é seguir dinamizando a disputa, é fazer o possível com o que dá e seguir cobrando por mais.”

Para Brites, imaginar a imposição de um grande consenso social flerta com um repertório quase fascista de uma sociedade “coesa e coerente”. Por isso, considera importante estimular a discordância e a existência de pontos de vista distintos.

O que deve ser evitado, segundo ela, são os repertórios violentos que habitam o “lençol freático” da política. Isso, afirma, pode ser feito com vulnerabilidade, exposição, ativismo institucional, estratégias localizadas caso a caso e políticas de cuidado, eventualmente, com mudanças de rota da vida política. “A luta por tornar o espaço da política mais habitável para a dissidência sexual e de gênero é uma luta por ampliar o espaço da humanidade, da vida digna.”

Na avaliação da pesquisadora, essa luta extrapola as questões conjunturais, pois diz respeito, “feliz ou infelizmente”, aos últimos mil anos da história do Ocidente.

Fonte
Brasil de Fato
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