
“É o enquadramento, estúpido!” Essa paródia do famoso enunciado sobre preferências eleitorais (“É a economia, estúpido!”) tem lastro nos estudos cognitivistas de George Lakoff, especialmente em sua produção voltada para o debate público.
Em sua obra Não pense num elefante (recentemente traduzida para o português e publicada pela editora Fósforo), o linguista estadunidense nos lembra que a política é um campo de disputa, antes de tudo, discursivo. Mais do que isso, Lakoff analisa a relação entre a cristalização de escolhas eleitorais e diferentes esquemas metafóricos. É um livro escrito para o público geral, com vistas a elucidar por que, ao contrário do que se costuma pensar, os fatos nem sempre têm o efeito esperado no debate político.
Em outras palavras, quando nos surpreendemos com o baixo impacto de certos acontecimentos sobre a preferência por uma ou outra candidatura, é bem provável que, em nossa análise, estejam faltando elementos linguístico-cognitivistas. É para essa dimensão da escolha política que Lakoff chama nossa atenção.
O papel das metáforas na compreensão da realidade
Talvez a contribuição mais reconhecida de George Lakoff para os estudos linguísticos seja sua obra em coautoria com Mark Johnson, Metaphors We Live By (traduzida para o português como Metáforas da vida cotidiana). Nesse estudo, as metáforas ultrapassam os limites da retórica e ganham uma dimensão central em nossa apreensão da realidade: os autores sustentam que compreendemos conceitos abstratos ao relacionar diferentes domínios, construindo metáforas cognitivas.
Um exemplo: a noção de tempo (domínio de extrema abstração) é apreendida por meio de uma metáfora cognitiva, com base na nossa compreensão de um domínio concreto: o espaço. Quando dizemos que “lá atrás, já falamos disso em outra coluna”, ou que “lá na frente, queremos voltar a esse tema”, a metáfora não é um recurso retórico, uma criação poética. Antes, ela participa da própria forma como concebemos o tempo. Em português, como em outras línguas, recorremos ao espaço para falar do tempo: situamos o passado “atrás” de nós e o futuro “à frente”. A metáfora é tão familiar que quase não a percebemos quando dizemos que algo ficou “lá atrás” ou que voltaremos a um assunto “lá na frente”.
Em Não pense em um elefante, Lakoff se vale das metáforas conceituais para explicar qual domínio concreto estaria na base do conceito abstrato de “nação”. Sua conclusão é que o “Estado nacional” é conceptualizado, na cultura ocidental, com base em um domínio concreto: a família. Segundo o autor, as diferentes visões de família estariam na base dos distintos polos ideológicos em que se divide o debate público estadunidense – o que, a nosso ver, parece se aplicar também à realidade brasileira.
Desdobramentos da metáfora “A nação é uma família”
Ainda segundo Lakoff, haveria dois modelos de família em disputa. De um lado, a concepção familiar baseada na figura do “pai rígido”; de outro, a dos “pais acolhedores”.
O primeiro modelo, em resumo, se baseia na ideia de que os filhos são naturalmente preguiçosos, só querem fazer o que lhes apraz, mas precisam ser preparados para um mundo hostil, em que os fracos são abatidos pelos fortes. Contra a indolência das crianças, impõem-se a disciplina e o rigor da figura paterna.
No outro paradigma familiar, parte-se da crença de que as crianças nascem boas e ainda podem melhorar. Segundo essa moralidade, nos termos de Lakoff, “O mundo pode se tornar um lugar melhor e nossa função é trabalhar para isso”. Os adultos — pai e mãe, e não apenas o pai —, são responsáveis por acolher seus filhos e formá-los para acolher os demais – não para vê-los como potenciais adversários.
Segundo o autor, essas diferentes concepções familiares explicam diferentes concepções morais sobre como deve ser governada uma nação. Na visão do primeiro grupo, vinculado ao paradigma do pai rígido, taxar os ricos para ajudar os pobres seria equivalente a punir a criança que se manteve diligente e disciplinada, a fim de favorecer aquela que “não fez por merecer”. Na outra concepção, a dos pais acolhedores, fortalecer programas sociais é criar condições para um mundo melhor, mais justo, acolhendo os que precisam de cuidados.
Cabe perguntar: entre tais visões, haveria um “caminho do meio”, um grupo de moderados que não se enquadraria em nenhum desses dois modelos? A resposta de Lakoff é contraintuitiva, mas convincente: não. Para ele, em vez de um caminho do meio, o que existe são indivíduos “biconceituais”: sujeitos que adotam parcialmente ambas as noções de família e de nação, assumindo a perspectiva do “pai rígido” em certas temáticas e a dos “pais acolhedores” em outras.
Enquadrar o debate fortalece o discurso
Uma crítica de Lakoff ao Partido Democrata (que possivelmente se aplica ao campo correlato na política brasileira) é a crença exagerada no poder dos fatos. Esse questionamento pode ser compreendido à luz de uma aproximação, proposta pelo autor, entre a Semântica de Quadros, formulada pelo linguista Charles Fillmore (1929–2014), e os estudos cognitivistas.
De forma sintética, a Semântica de Quadros (ou Semântica de Frames) defende que, para entendermos o significado de um enunciado, precisamos mobilizar outros conhecimentos relacionados ao que é dito, que formam uma moldura. Em José devolveu o livro à biblioteca, a construção do significado evoca a moldura do empréstimo. É essa moldura que nos leva a inferir que o livro pertencia à biblioteca, que José o tomou emprestado temporariamente e que havia a obrigação de levá-lo de volta após certo tempo.
Em um campo político disputado por diferentes metáforas conceituais (“pai rígido” vs. “pais acolhedores”), enquadrar o discurso significa associar os fatos à moldura que lhes confere legitimidade.
“O governo quer acabar com a escala 6×1”, por exemplo, assume diferentes sentidos conforme o enquadramento: para os “pais acolhedores”, é uma forma de proteger trabalhadores mais vulneráveis; para o “pai rígido”, pode significar impor custos a quem trabalhou para abrir o próprio negócio.
O fato em si, portanto, não determina sua própria interpretação: ele será sempre interpretado à luz deste ou daquele enquadramento. Com isso em mente, Lakoff sugere que, no debate público, não esperemos que os fatos falem por si sós, mas que os sustentemos por meio do enquadramento adequado. Segundo ele, tal estratégia seria especialmente útil no debate com pessoas “biconceituais” – que, no caso brasileiro, podem ter papel decisivo nas próximas eleições presidenciais.
Quem domina a moldura domina o debate
Na perspectiva cognitivista adotada por Lakoff, manter determinado quadro em evidência é uma forma de fortalecê-lo no debate público. Esse é um dos motivos que justificariam cuidados redobrados para, nos diversos temas, trazer o debate para o quadro adequado.
O tema dos impostos é especialmente exemplar a esse respeito. O atual governo, vinculado ao campo progressista, promoveu esforços para redimensionar a cobrança de impostos, chegando a conceder isenções à população com menores rendimentos. Ao mesmo tempo, é o campo conservador que, sem ter promovido ou mesmo apoiado medidas semelhantes, adota a máxima “Imposto é roubo” e, no debate público, se apresenta como “inimigo dos impostos”.
É visível que, embora fatos recentes estejam a seu favor, o campo progressista não tem sido beneficiado no debate público pela redução de impostos, ao que parece, por não ter sido capaz de reenquadrar esse debate – o que, evidentemente, depende não apenas de habilidades discursivas, mas também do domínio dos meios de comunicação. A provocação do título “Não pense num elefante” reside em casos como esse: enquanto os esforços se concentram em negar a visão contrária – dizendo, por exemplo, que “imposto não é roubo” –, ocorre paradoxalmente um fortalecimento do quadro adversário, já que é ele que está sendo ativado. É um fenômeno cognitivo: se nos dizem “Pense numa girafa”, é fácil visualizar o animal; se o pedido fosse, “Não pense num elefante, mas numa girafa”, o elefante já estaria ocupando espaço na sala.
Contra quadros não há argumentos
Para Lakoff, o campo progressista teria uma ideia equivocada de racionalidade, que levaria à crença de que os fatos seriam suficientes para ganhar o debate público. Em suas palavras, porém, “se os fatos não se encaixarem nos quadros do cérebro, os quadros permanecem e os fatos são ignorados, contestados ou diminuídos”.
Em Não pense num elefante, o subtítulo proposto pelo autor explicita suas intenções ao associar os estudos cognitivistas à Semântica de Quadros: “Entenda seus valores e aprenda a enquadrar o debate”. Com isso, não se defende que os fatos não sejam importantes, mas que, para discuti-los, precisamos entender como eles se vinculam a certa visão de nação (a do “pai rígido” ou a dos “pais acolhedores”) e, no debate, dar-lhes o enquadramento pertinente.
Para entender por que alguém ainda vota nele, portanto, é preciso compreender o papel do enquadramento no debate público. Em vez de negar as ideias adversárias, Lakoff defende que seria mais promissor enquadrar adequadamente as próprias propostas. O insucesso de slogans como “Não passarão” e “Ele não” parece dar razão ao estudioso, como se ele nos dissesse que contra quadros não há argumentos.
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