Em 2025, 258 indígenas foram assassinados no país, segundo o Cimi (Conselho Indigenista Missionário)

Povos indígenas protestam durante o Acampamento Terra Livre, realizado em Brasília, capital do Brasil, em abril de 2026. Foto de Guilherme Cavalli/Cim publicada no Flickr, usada sob permissão.
Esta publicação faz parte da série especial de agosto de 2026 da Global Voices, “Direitos dos Povos Indígenas”. A série oferece um olhar sobre as vidas e experiências dos povos indígenas, promovendo conexões entre diferentes regiões, destacando suas vivências e divulgando as histórias de líderes, ativistas, membros de comunidades e outras pessoas. Você pode apoiar este trabalho fazendo uma doação aqui.
Em 12 de julho de 2025, um jovem indígena Avá-Guarani, de 21 anos, foi encontrado decapitado na cidade de Guaíra, no estado do Paraná, região Sul do Brasil, próximo a um território indígena. Ao lado do corpo, havia uma carta com ameaças às comunidades indígenas locais, incluindo incendiar ônibus escolares com crianças caso não deixassem a terra. “Esta não é uma ameaça vazia, mas sim recheada de ódio”, dizia a mensagem. Poucos meses antes, quatro jovens indígenas, entre eles uma criança de sete anos, ficaram feridos em outro ataque na mesma cidade. A região é marcada por um conflito que se prolonga há décadas, desde a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, que deslocou várias comunidades de seus territórios.
O jovem de 21 anos, Everton Lopes Rodrigues, era filho de um cacique local (líder indígena), Bernardo Rodrigues Diegro, o qual disse ao portal G1 que as ameaças são recorrentes. “Dizem que a nossa cabeça vale dinheiro. Estamos com muito medo; ontem à noite, ninguém conseguiu dormir na nossa comunidade.”
Rodrigues foi uma das 258 pessoas indígenas assassinadas em 2025 no Brasil, de acordo com o mais recente “Relatório Violência contra os Povos Indígenas” do Cimi, Conselho Indigenista Missionário, organização que atua na defesa dos direitos dos povos indígenas e está ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Publicado em 13 de agosto, o relatório mostra um aumento no número de assassinatos de indígenas no último ano, acima da média registrada durante o governo de Jair Bolsonaro. Assim como no caso de Rodrigues, a maioria dos ataques e violações estava relacionada a conflitos envolvendo direitos territoriais.
Os dados reunidos pelo Cimi também apontam um aumento nos casos de suicídio: 34% das vítimas tinham menos de 19 anos e 41% tinham entre 20 e 29 anos, além de mortes de bebês e crianças, sendo que 57% dos casos decorreram de causas consideradas evitáveis.
O relatório aponta que o país registrou aumento nos três tipos de violência sistêmica contra os povos indígenas identificados pela organização — violência contra pessoas, contra o patrimônio e pela omissão do poder público — em meio à crescente pressão política e econômica para frear a demarcação de terras.
Menos de 1% da população brasileira se autodeclara indígena: cerca de 1,6 milhão de pessoas em uma população de 213 milhões, segundo o Censo de 2022. Embora esse número represente um aumento em relação ao levantamento anterior e alguns avanços políticos tenham sido alcançados, os governos ainda não conseguem garantir plenamente o cumprimento de seus direitos.
Pressão crescente

Povos indígenas protestam durante o Acampamento Terra Livre, realizado em abril de 2026 em Brasília, carregando crânios falsos.Foto de Guilherme Cavalli/Cimi publicada no Flickr, usada sob permissão.
A Constituição de 1988, promulgada no Brasil logo após duas décadas de ditadura militar, estabelece que os direitos dos povos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam são originários, ou seja, anteriores à própria criação do Estado, e os reconhece como os primeiros habitantes do país, conforme explica a página do ISA (Instituto Socioambiental).
Nesse sentido, a demarcação de uma Terra Indígena, fruto do reconhecimento feito pelo Estado, é ato meramente declaratório, cujo objetivo é simplesmente precisar a real extensão da posse para assegurar a plena eficácia do dispositivo constitucional. E a obrigação de proteger as Terras Indígenas cabe à União.
Ainda assim, tem havido uma tentativa de estabelecer um novo critério que imponha um limite temporal às reivindicações de terras. Se aprovado, o chamado “Marco Temporal” poderia determinar que os povos indígenas só teriam direito de reivindicar territórios que estivessem ocupando até 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição. Isso afetaria comunidades que foram deslocadas de seus territórios ao longo dos anos, em alguns casos pelo próprio Estado, e que só poderiam retornar e reivindicar suas terras após esse período.
Em 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou a tese inconstitucional, por nove votos a dois. Ainda assim, após a decisão, o Congresso Nacional se apressou em aprovar um projeto de lei que propunha alterar a Constituição para incorporar esse critério. Depois, em 2025, o Supremo voltou a rejeitar a tese, mas manteve partes significativas da lei que poderiam atrasar ou até impedir a demarcação de algumas terras, segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Em agosto, o Tribunal analisou os recursos contra a decisão e a regulamentação relativa à mineração em terras indígenas.
‘‘Lutar pelo território não é crime’’

Em Brasília, em abril de 2026, mulheres indígenas com um cartaz: “Lutar pelo território não é crime!” Foto de Guilherme Cavalli/Cimi publicada no Flickr, usada sob permissão.
Em sua nota, a APIB afirma que há uma escalada das ameaças contra os povos indígenas em razão do atual cenário:
Esse cenário representa um conflito jurídico em que há uma ofensiva coordenada que ameaça centenas de povos indígenas, amplia a insegurança e a violência contra comunidades e compromete a proteção da biodiversidade e o enfrentamento da crise climática.
A pressão política também se manifesta por meio de outras propostas em tramitação no Congresso, como o Projeto de Lei 6.093/2023, que poderia inviabilizar cerca de 98% dos processos de demarcação ainda pendentes. Segundo o relatório do Cimi, o Brasil tem 897 terras indígenas que ainda aguardam regularização; em 582 delas, o processo de demarcação sequer foi iniciado. Na avaliação da organização, os avanços promovidos pelo governo federal foram importantes, mas ainda são pontuais e insuficientes diante das necessidades e reivindicações dos povos indígenas. O Cimi afirma que “não é possível desvincular a violência e as violações registradas ao longo de 2025 dos ataques aos direitos territoriais dos povos indígenas ocorridos durante o ano”.
A terra da comunidade à qual pertencia o jovem indígena Avá-Guarani assassinado no Paraná está entre aquelas que ainda aguardam regularização, apesar de seus limites terem sido reconhecidos em 2018. A Polícia Federal conduz a investigação do assassinato.

“Parem de nos matar”, diz o cartaz ao fundo, atrás de uma jovem indígena que participa de uma manifestação, em abril de 2026, em Brasília. Foto de Guilherme Cavalli/Cimi publicado no Flickr, usado sob permissão.
O Cimi também destaca outro aspecto desse cenário:
Soma-se a este contexto a pressão econômica, que encontra ressonância nos três Poderes da República, pela regulamentação da mineração em terras indígenas, pela realização de grandes obras de infraestrutura para o escoamento de grãos e minério e pela exploração de gás e petróleo em áreas com impacto direto sobre povos indígenas.
Um estudo conduzido pela Apoinme, associação que reúne povos indígenas da região Nordeste e dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, com base em dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e informações fornecidas pelas comunidades locais, apontou que 84 terras indígenas podem ser afetadas por empreendimentos de exploração de petróleo e gás natural, segundo a Alma Preta.
Durante a coletiva de imprensa para o lançamento do relatório do Cimi, Tipuici Manoki, indígena que vive na região da bacia do Rio Juruena, falou sobre a luta de seu povo contra esses empreendimentos, realizados sem consulta às comunidades. Em 13 de agosto, ela afirmou:
Estamos falando de vida, de direitos, é isso que o relatório traz. Quiçá a gente seria feliz se diminuísse a violência contra nós, mas vemos que ela só aumenta. Quando a gente fala sobre o relatório é de embargar a voz, porque estamos falando de vidas, de direitos, de pessoas que morreram lutando por seus territórios. Isso reflete na minha região.
A Mongabay já havia noticiado que a região onde vive Tipuici Manoki havia sido afetada anteriormente pela contaminação por agrotóxicos e pela construção de barragens.
