Ataques a Nossa Senhora Aparecida, relações entre lideranças religiosas e o mercado financeiro, restrições ao acesso às praias brasileiras e a atuação jurídica de Flávio Bolsonaro (PL) na defesa de um policial acusado de matar uma criança. Esses são alguns dos temas investigados pela série jornalística “Revelando”, que, desde setembro, vem apresentando denúncias e questionamentos sobre a trajetória política do candidato à Presidência da República e de sua família.
No episódio mais recente, lançado em 12 de outubro, Dia de Nossa Senhora Aparecida, a produção denuncia manifestações de intolerância religiosa contra a padroeira do Brasil e expõe conexões políticas envolvendo o bispo JB Carvalho, que já se referiu à santa como o “braço direito de Satanás”. Foi na igreja liderada pelo religioso que Flávio Bolsonaro escolheu ser batizado, segundo a reportagem.

Apresentado pela cantora Juliette Freire, o documentário “A Guerra à Santa” questiona o uso da fé para alimentar conflitos e disputas de poder. Ao recuperar os ataques à imagem católica, o episódio também resgata a origem popular da devoção a Aparecida, uma figura negra associada à história e à religiosidade de parcelas historicamente marginalizadas da população brasileira. Assista ao episódio aqui.
A reportagem integra uma série de cinco episódios que aborda temas como intolerância religiosa, interesses financeiros ligados a instituições religiosas, violência policial, privatização das praias e controle sobre a reprodução das mulheres. Segundo os organizadores, o “Revelando” é um projeto de reportagens especiais sobre “temas urgentes e decisivos para entender o Brasil”, produzido pela equipe do podcast Calma Urgente, com apoio de distribuição do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), da Mídia Ninja, da 342 Artes e do Intercept Brasil.
De acordo com dados divulgados pela produção, a série já ultrapassou 25 milhões de visualizações nas plataformas digitais, sendo mais de 18 milhões no YouTube.
Religião, dinheiro e influência política
Antes de abordar os ataques a Nossa Senhora Aparecida, a série investigou as relações entre a Igreja Batista da Lagoinha, a família do banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master. Lançado em 21 de setembro, o segundo episódio, “Grandes Igrejas, Master Negócios”, é apresentado pelo humorista Fábio Porchat.
A reportagem reconstrói relações entre a família Vorcaro e a igreja ao longo de quase três décadas, além de examinar a atuação do pastor Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de um grupo investigado.

O documentário aborda operações financeiras, carteiras de crédito sem lastro e investimentos que prometiam remunerações elevadas. Também menciona doações de R$ 5 milhões para Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas e áudios nos quais Flávio Bolsonaro teria solicitado a Vorcaro US$ 24 milhões para financiar um filme sobre o pai. Assista ao episódio aqui.
O episódio procura explicar como o Banco Master cresceu rapidamente antes de entrar em colapso e investiga as conexões entre negócios, relações familiares, estruturas religiosas e articulações políticas. A abordagem, segundo a proposta da produção, não questiona a fé dos frequentadores, mas o uso de instituições religiosas para estabelecer relações econômicas e ampliar influência política.
PEC das Praias e risco de restrição ao litoral
No quarto episódio, lançado em 9 de outubro, a atriz Luana Piovani apresenta uma investigação sobre a chamada PEC das Praias, proposta defendida por Flávio Bolsonaro no Senado. A reportagem alerta para os riscos de mudanças nas regras dos terrenos de marinha e para a possibilidade de ampliar o controle privado sobre áreas costeiras.
O documentário aponta que hotéis, resorts e condomínios de luxo podem restringir, na prática, o acesso da população a trechos do litoral. Para ilustrar os riscos, Piovani compara o cenário brasileiro a destinos turísticos como Cancún, no México, e a Jamaica, onde, segundo a atriz, empreendimentos voltados ao turismo podem reforçar desigualdades entre visitantes e moradores locais.

“Esse modelo já existe em Cancún e na Jamaica: lá, quem fica de biquíni é gringo, quem é do país, está de uniforme trabalhando. E é isso que pode acontecer se Flávio Bolsonaro se tornar presidente do Brasil”, afirma Piovani, no vídeo.
A reportagem examina os interesses políticos e econômicos por trás da proposta e discute os possíveis impactos de mudanças na destinação dos terrenos de marinha sobre o caráter público das praias brasileiras. Assista ao episódio aqui.
Cinco anos sem julgamento pela morte de uma criança
A série também recupera o caso de Ana Clara Gomes Machado, de cinco anos, morta por disparos de fuzil em 2 de fevereiro de 2021, quando brincava na porta de casa, no Rio de Janeiro. O terceiro episódio, lançado em 30 de setembro, é apresentado pela atriz Camila Pitanga.
Segundo a reportagem, a menina foi atingida por quatro tiros disparados por um policial militar. O documentário detalha as investigações, apresenta denúncias de adulteração da cena do crime e questiona os desdobramentos judiciais do caso.
A produção destaca que Flávio Bolsonaro, então senador, atuou como advogado de defesa do cabo Bruno Delaroli, apontado pela investigação como autor dos disparos. Mesmo após cinco anos, o caso permanecia sem julgamento, segundo o episódio.

“Qual era a intenção de um senador em defender o homem preso em flagrante pelo assassinato de uma criança?”, questiona Camila Pitanga, durante o vídeo. Assista ao episódio aqui.
A reportagem acompanha ainda a dor da mãe da menina, Cristiane Gomes da Silva, e a espera da família por justiça. Ao recuperar o caso, o documentário coloca em discussão a responsabilização de agentes de segurança e os obstáculos enfrentados por familiares de vítimas de violência.
Eugenia e controle sobre a reprodução das mulheres
O primeiro episódio, lançado em 14 de setembro, aborda as raízes históricas da eugenia no Brasil e sua relação com discursos contemporâneos sobre o controle da reprodução feminina. Apresentado pela atriz Samara Felippo, o documentário questiona ideias que buscam determinar quem deve ou não ter filhos.
A reportagem percorre o passado escravocrata brasileiro, investiga iniciativas de esterilização em massa de mulheres que receberam investimentos internacionais e relaciona essas práticas a propostas e discursos políticos mais recentes. Assista ao episódio aqui.

Segundo a produção, ideias associadas à família Bolsonaro reforçam a discussão sobre o controle reprodutivo, sobretudo quando atingem mulheres pobres e negras. O episódio procura demonstrar como concepções de seleção social e controle populacional podem persistir sob novas formas, com consequências para os direitos reprodutivos e o enfrentamento das desigualdades.
