Diário do Fogo

Por Rogerio Cavalcante e Castro16/10/2026 às 14:430 visualizações
A personagem de Isabel queima desde o olhar, mas preconiza sua falta de futuro
A personagem de Isabel queima desde o olhar, mas preconiza sua falta de futuro
Brasil de Fato

O filme de Maju Paiva, em codireção com Bernardo Florim, Diário do Fogo, é daqueles filmes que falam das injustiças sociais que são tão comuns no nosso país. E, mais ainda, como essas injustiças são defendidas ao custo das próprias mãos. É como se a civilização ausente deixasse os vilões criarem suas próprias defesas e os injustiçados se virarem pra se armar de força e luta.

Imagina um prédio abandonado, como tantos no Brasil, ser ocupado por pessoas que lutam por um teto. Só que um teto não vem sozinho. Junto procuramos dignidade, respeito, vida saudável. E é isso que a personagem da magnífica atriz Isabel Teixeira persegue. Com força e sem nenhuma sombra de autopiedade, a mulher faz do local de moradia quase um santuário de persistência e indignação.

O filme faz com que tudo fique concentrado em seu núcleo, da filha e de um segurança de uma fábrica que compra sua briga. Tem uma irmã enfermeira que dá suporte, mesmo contrária às crenças da irmã.

O filme vai por caminhos quase surreais, em momentos que não acreditamos se a realidade é o fato acontecido ou uma loucura da personagem afogada em sua raiva e descontrole, com a situação de buscar o que deveria ser seu direito. É como se ela representasse todo um grupo injustiçado e o segurança do prédio, em ruína de fogo, fosse o dono ocioso da propriedade privada. Donos que roem o osso mas não deixam ninguém transformá-lo em carne. E diante disso colocam mais um explorado pra defender sua propriedade abandonada. E esse cidadão explorado defende a estrutura como se fosse sua, com raiva e violência, porque é assim que as coisas, infelizmente, funcionam por aqui. Essa defesa a ferro e fogo por um indivíduo, que também é explorado, se dá muitas vezes através de crenças numa sociedade meritocrática. Ainda que esse segurança acredite nisso, ele nunca chega ao lugar do patrão, inclusive quando vai parar na prisão ou no cemitério.

O filme de Maju e Bernardo é violento ao extremo, mas resvala poesia do fogo, do que queima por fora e por dentro. A personagem de Isabel queima desde o olhar, mas preconiza sua falta de futuro. É diariamente que temos o fogo ardendo nas injustiças de um país que não nos dá o direito básico da moradia. Algo tão simples e fundamental, mas carregado de uma injusta balança que pende em excesso para o lado de uns e em ausência no lado de outros.

Diário de Fogo chega ao Festival do Rio coroando a sapiência e sensibilidade de Maju Paiva, que já tinha se mostrado eficiente em Avenida Beira-Mar. Maju, junto com Bernardo, traz suas histórias para cenários de Niterói e Maricá. Cenários pouco vistos e que se fazem necessários nas diversidades espaciais do cinema brasileiro, ou mesmo do cinema do Rio de Janeiro.

Evoé, jovens artistas!

Esperamos mais a identidade de vocês no cinema brasileiro.

*Rogerio Cavalcante e Castro é cineasta e da produtora Poética Marginal.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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