ONU pode ser reformada? Jornalistas reagem aos principais discursos e debatem crise do multilateralismo

Por O Estrangeiro24/09/2026 às 15:3567 visualizações
Lula discursa na abertura da Assembleia Geral da ONU 2026
Lula discursa na abertura da Assembleia Geral da ONU 2026
Brasil de Fato

O começo da Assembleia Geral das Nações Unidas, que acontece até a próxima segunda-feira (28) em Nova York (EUA), ficou marcado pelos discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de seu principal antagonista no cenário político internacional atual, o presidente Donald Trump.

Nas falas, os dois chefes de Estado não se referiram um ao outro textualmente, mas trataram de temas, no cenário atual, sensíveis às nações e às relações exteriores entre ambas. Lula falou em defesa da democracia, soberania e busca pela paz. Trump reforçou o discurso violento de guerra e defendeu a atuação das big techs e a operação da inteligência artificial sem qualquer regulamentação sob o pretexto de liberdade.

A ONU, embora tenha perdido importância no que diz respeito a um organismo em que decisões políticas estratégicas são tomadas, ainda é um espaço que consegue reunir o maior número de nações dos mais diversos espectros ideológicos.

Vazia e ultrapassada

Em seu discurso, Lula criticou o processo de esvaziamento da ONU e falou em reforma do organismo internacional, especificamente sugerindo a ampliação do Conselho de Segurança, hoje restrito a 15 países que têm poder de veto. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, em seu discurso, seguiu o mesmo entendimento do presidente brasileiro, chegando a definir a instituição como “ultrapassada” nos moldes atuais.

Em participação no podcast O Estrangeiro, os jornalistas do Brasil de Fato Lucas Estanislau, Monyse Ravena e André Lucena ponderam que, na realidade, é preciso pensar que o modelo de organização das nações que ensejou o surgimento da ONU talvez esteja se esgotando. Para Lucena, há um processo de deslocamento de centro de poder.

“Existe um movimento de fundo muito escancarado através do Trump, mas que não é de agora, de que aquele multilateralismo pós-Segunda Guerra, que depois teve seu grande capítulo com a queda da União Soviética, já não exprime mais as relações de força que levaram à construção dessa ONU tal qual conhecemos. Algo muito parecido e com um contexto muito diferente se passou com a Liga das Nações e quando fizeram o Congresso de Viena lá no começo do século 19. Não é a instituição em si; ela não existe por si, ela existe por exprimir uma correlação de forças que talvez já não exista mais. E, não por acaso, esse certo esvaziamento da ONU passa pelo crescimento e fortalecimento de instituições que estão ali na Ásia”, disse o jornalista.

Ele avaliou que os discursos de Lula e Trump apresentam “duas visões de mundo antagônicas” e que o presidente brasileiro fez “um contraponto antecipado ao que o Trump poderia falar”, como se fosse um debate, só que sem direito à réplica. “O governo tentou arranjar todos os pontos possíveis. Achei um discurso que pregou o multilateralismo, mas colocou o pé na porta ao dizer que o Brasil não é quintal de ninguém”, aponta Lucena.

Os analistas também destacaram o trecho em que Lula fala sobre a importância da regulação das big techs e critica as empresas ao usar a expressão “tecnoligarcas que querem um neoliberalismo sem regras”.

Um grande arranjo

Trump adotou uma postura unilateral, marcada por ameaças diretas ao Irã, ataque a movimentos progressistas e admitiu abertamente que todos os ataques à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro tinham como único objetivo o petróleo venezuelano. Nesse sentido, os comentaristas criticam o fato de as declarações terem ocorrido em um lugar como a ONU e simplesmente nada acontecer.

“Existe uma incapacidade institucional. Existe um arranjo, e esse arranjo é um consenso, de certa forma. A grande questão é que faltava talvez uma figura que esticasse a corda até o limite, como Trump está esticando, para que tenha essa sensação”, avalia o jornalista André Lucena.

O episódio também analisou o potencial impacto de discursos na ONU no processo eleitoral brasileiro e como a população que vai votar no dia 4 de outubro percebe os riscos reais de ingerência dos EUA. Para Lucena, essa não é uma preocupação que o brasileiro tem colocado na conta no momento de tomar sua decisão de voto.

“Existe uma diferença entre o tema da ingerência estadunidense ser importante e isso mobilizar votos do eleitorado brasileiro, porque esse eleitorado é múltiplo, ele se importa com questões da sua rua, do seu bairro, da sua cidade, da sua família. E, quando a gente está falando de uma eleição tão apertada como essa e a gente tem um grupo de pessoas que se inclinam a votar no Flávio Bolsonaro, talvez elas também estejam dizendo que essa questão da soberania não importa”, avalia. 

Confira o episódio completo abaixo:

Para ouvir e assistir

O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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