A costarriquenha Rebecca Grynspan e o argentino Rafael Grossi continuam entre os nomes cotados para assumir o principal cargo da Organização das Nações Unidas (ONU). No entanto, a etapa final da seleção pode dificultar suas candidaturas diante da possibilidade de veto por parte das potências que integram o Conselho de Segurança.
Antes da escolha, os candidatos passam por várias votações não vinculantes entre os membros do Conselho. Nessas consultas reservadas, os países podem indicar apoio, oposição ou abstenção. No início de outubro, o órgão realizou sua quinta sondagem desse tipo e, segundo informações da imprensa ocidental, Grynspan ficou em primeiro lugar, com três votos de vantagem sobre Grossi, que subiu da terceira para a segunda posição em relação à consulta anterior.
Na terceira posição aparecem a ex-ministra das Relações Exteriores da Guiana, Carolyn Rodrigues-Birkett; o ex-chanceler de Uganda, Olara Otunnu; o ex-presidente do Senegal, Macky Sall; e a ex-chanceler do Equador, María Fernanda Espinosa.
Nesta fase, ganha peso a possibilidade de veto por parte dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança: Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido e China. A candidatura de Grynspan, por exemplo, enfrenta dificuldades após receber seis votos contrários, enquanto que Grossi recebeu sete votos negativos.
A possibilidade de que parte desses votos tenha partido de países com poder de veto complica as candidaturas dos dois representantes latino-americanos e pode levar as potências a buscar alternativas de consenso. As posições de cada país, porém, ainda não foram divulgadas oficialmente, e os resultados das sondagens não têm caráter vinculante.
Nesse contexto, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) divulgou uma declaração em defesa de um representante da região no comando da ONU. Segundo o bloco, "chegou o momento de uma pessoa nacional da América Latina e do Caribe assumir a responsabilidade" pela secretaria-geral, tanto em razão do princípio de rotação geográfica quanto da possibilidade de "promover um sistema internacional mais inclusivo e representativo".
"Reiteramos nosso apelo respeitoso ao Conselho de Segurança e à Assembleia Geral das Nações Unidas para que essa posição regional seja devidamente considerada no âmbito deste processo", declarou a CELAC.
Posição de Grynspan
Em entrevista à Sputnik, o analista internacional colombiano Manuel Rayran afirmou que Grynspan aparece em posição favorável na disputa, embora a etapa decisiva ainda esteja por vir. Além de ter recebido o maior número de manifestações de apoio nas sondagens, ela já integra o sistema das Nações Unidas como secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).
Segundo Rayran, outros candidatos latino-americanos, como Grossi e Espinosa, podem acabar descartados quando forem reveladas as posições dos países com poder de veto no Conselho de Segurança.
O analista lamentou, porém, que a polarização política dos últimos anos tenha dificultado a formação de uma candidatura regional com maior apoio. Para ele, a fragmentação ficou evidente em situações como a falta de respaldo do Chile à candidatura da ex-presidente do país Michelle Bachelet e a existência de duas candidaturas equatorianas: a oficial, de Espinosa, e a da diplomata equatoriana Ivonne Baki, impulsionada pelo governo de Tonga.
Ainda assim, Rayran considera que a região continua tendo chances de emplacar o próximo secretário-geral da ONU. "A disputa não está perdida, mas será preciso esperar para ver quais países vão exercer o veto e como o cenário político vai se definir", afirmou.
Para o especialista, a escolha de um latino-americano para o cargo mais importante da ONU não deve se limitar ao princípio da rotação geográfica. O processo também precisa considerar as capacidades políticas dos candidatos.
"A América Latina e o Caribe têm uma experiência bastante interessante que pode ajudar a fortalecer as Nações Unidas neste momento. A organização enfrenta uma situação de fragmentação política, perdeu muita legitimidade e precisa se fortalecer", declarou Rayran.
O especialista destacou o histórico de compromisso dos países latino-americanos com o multilateralismo, os direitos humanos, o direito internacional e diferentes mecanismos de resolução de conflitos desenvolvidos na região.
Reforma da governança global
Já o analista político e internacional colombiano Daniel Prieto afirmou que um secretário-geral das Nações Unidas oriundo da América Latina poderia impulsionar, como já fez o Brasil por meio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), "uma agenda de reforma da estrutura de governança global concentrada" dentro das próprias Nações Unidas.
"A contribuição da América Latina e do Caribe é fundamental para democratizar o sistema de relações internacionais e superar as assimetrias históricas em relação ao Norte Global", ressaltou.
Para Prieto, a retirada da candidatura de Michelle Bachelet por falta de apoio não representa apenas "um revés diplomático para os governos progressistas do México e do Brasil", que haviam lançado seu nome. O episódio também "evidencia os limites da coordenação regional", marcada por disputas internas, pela ascensão de candidatos de direita e por "pressões internacionais em temas comerciais, de segurança nacional e de combate ao crime transnacional".
Ainda assim, o analista considerou que o avanço do processo de escolha do novo secretário-geral da ONU "não precisa significar uma derrota definitiva da integração latino-americana", uma vez que a candidatura de Grynspan ainda "poderia conquistar novos apoios".
Prieto também criticou o peso do poder de veto no Conselho de Segurança sobre as candidaturas da região. Para ele, esse mecanismo constitui "uma das contradições estruturais do sistema das Nações Unidas".
"Que um único voto contrário de qualquer um dos membros permanentes possa bloquear uma candidatura demonstra que a legitimidade internacional e o apoio da maioria não são suficientes quando entram em conflito com os interesses geopolíticos das grandes potências", afirmou.
O acadêmico acrescentou que a fragmentação política atual da América Latina reduziu significativamente a capacidade de negociação da região diante das potências externas. Nesse cenário, advertiu, mesmo a escolha de um representante latino-americano pode se transformar em "uma conquista simbólica" caso os países da região não consigam convertê-la em maior influência internacional por meio da construção de posições comuns.




