Não é preciso ser especialista para notar o avanço de agrupamentos e políticos digitais pelo mundo. Geralmente esses “partidos digitais” — se pudermos emprestar a definição de cientistas políticos — são de extrema-direita e se movimentam com uma propulsão infinitamente maior que a dos partidos tradicionais, sejam de centro, direita ou esquerda. O caso das recentes vitórias regionais da AfD (Alternative für Deutschland), na Alemanha, ilustra bem essa situação. Mas hoje gostaríamos de comentar — e recomendar — a live desta semana da economista Monica de Bolle, professora da Johns Hopkins University e colaboradora, entre outras instituições, do Cebri, além de publicações como a Foreign Affairs.
Traçando paralelos entre o Brasil que emerge destas eleições e a Hungria governada até recentemente por Viktor Orbán, De Bolle levanta uma questão intrigante, pouco explorada pela mídia brasileira, em seu compreensível afã de arriscar prognósticos e diagnósticos sobre uma possível vitória do candidato de oposição no segundo turno.
Assim como houve uma distorção no suposto debate eleitoral, que abandonou questões pertinentes — como o pacto social e as terras raras — sobre o governo que se queria, concentrando-se quase obsessivamente nos deslizes dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), pode haver uma variável esquecida agora.
Nas últimas horas antes da votação em segundo turno, que ou consagrará a Presidência nas mãos do bolsonarismo ou resultará em uma apertada vitória do candidato governista, a disputa tem sido polarizada — para usar um termo já cansativo — pela corrida digital para amealhar apoio ao candidato Lula nas redes, não nas ruas.
Há dois dilemas nessa escolha de prioridade de campanha: a superioridade financeira e técnica da oposição no manejo das ferramentas digitais e a ausência de questionamentos sobre as inúmeras vulnerabilidades que podem aflorar em um “governo de base digital”.
A esfera digital proporciona um arranque inicial, principalmente porque promete, de modo confuso e difuso, combater o status quo, o sistema. É uma pedrada na frágil vitrine do governo que termina. Mas o que acontece quando essa força se torna, ela própria, o sistema? Bater é fácil e sedutor, mas como evitar apanhar? Como sustentar promessas vagas e incongruentes, com pouco respaldo em demandas e projetos calcados na realidade?
De Bolle sugere que os partidos digitais não passariam de “aglomerados de startups”, nos quais os interesses individuais tendem a corroer as iniciativas coletivas, em meio a um intenso vácuo propositivo e a um desabrido canibalismo entre pares. Na Europa, talvez exista um cimento propositivo capaz de alinhar direita e extrema-direita: o combate à imigração. Aqui, falta esse inimigo comum que poderia unificar agendas individualistas.
Guardadas as diferenças, o tremendo êxito eleitoral dos candidatos digitais lembra algo da Primavera Árabe, iniciada na Tunísia, no final de 2010, e que se espalhou velozmente pelo Egito, pela Síria e pela Líbia, resultando, em pouco tempo, em retrocessos ainda mais graves — num inverno mais rigoroso que o siberiano.

