Covarde é um filme e tanto. Mergulha fundo na questão do que significa covardia em nossa sociedade. E a guerra é o cenário ideal para essa reflexão. A guerra imprime um tipo de raciocínio onde a valentia é ter coragem de ver o seu semelhante como alvo de destruição.
Ambientando na Primeira Guerra Mundial, o filme belga retrata o horror das trincheiras, um ambiente traumático pra qualquer um. Em especial para quem observa as coisas por um lado mais introspectivo, um olhar mais atento à dor do próximo. O inimigo alemão nunca aparece, mas está lá de maneira violenta, trazendo momentos de sangue e morte.
Após integrar a competição principal do Festival de Cannes, Covarde marcou presença no Festival do Rio 2026 e agora se prepara para disputar uma vaga no Oscar 2027.
O Festival do Rio tem essa marca de nos apresentar uma leva de filmes importantes que ainda serão vistos, debatidos e premiados nos próximos doze meses. Para nós, do Brasil de Fato, ter a oportunidade de cobrir histórias de diferentes partes do mundo, através do cinema, torna ainda mais rica e atual nossa perspectiva comprometida com a luta contra nas injustiças.
Um filme como esse do diretor e roteirista Lukas Dhont, que revisita o passado para mostrar o poder da arte em meio à barbárie da guerra ou mesmo dos equívocos humanos, nos faz analisar de perto um presente que ainda flerta com a destruição. Afinal, duas guerras seguem escancaradas ainda nos dias de hoje. O Estado de Israel, por exemplo, ainda destrói diariamente centenas de famílias palestinas, numa vingança sem precedentes a um povo que resiste com coragem e uma perseverança tenaz.
Aqui no Brasil, corrermos o risco real de entrarmos numa realidade de destruição social, um período de desmonte de direitos e conquistas sociais. Nossa destruição, porém, é cínica e alienada. E, se não estivermos atentos, nem a arte poderemos ter para a nossa salvação. Como ocorre no filme belga, em que o ousado Francis e o protagonista Pierre se unem em um amor proibido e em apresentações teatrais no front de batalha, que salvam os dias difíceis dos soldados e oficiais do exército belga.
O envolvimento dos dois é sensível e emocionante. A maneira como Francis e Pierre encaram a coragem e a covardia passa, inevitavelmente, pelo sentido que cada um atribui à própria vida. Francis consegue se realizar artisticamente diante dos momentos violentos da guerra e se defende numa sensibilidade de ajuda ao outro e de ajuda a si mesmo, visto que o que lhe resta, após a guerra, seria um emprego de alfaiate ao lado do pai. Para Pierre nada disso o preenche, a não ser o amor e o desejo por Francis, que o conquistou e desvendou sua orientação sexual. Pierre não tem dúvidas a respeito da insanidade da guerra e foge daquela loucura, deixando para trás o seu amor, mas o preço disso é a vergonha diante dos familiares e da sociedade. Assim provando que a coragem é uma questão de ponto de vista.
Coragem é uma palavra abstrata e de inúmeros significados, que muitas vezes é usada e construída para a manipulação ao bel prazer. Um governo pode usar muito isso. No Brasil mesmo, existem grupos que falam de coragem como a necessidade de se armar de verdade e partir para luta com um revólver na mão, criando um cenário de guerra civil. Enquanto outros acreditam na coragem de cortar a violência pela raiz, desarmando-se de armas bélicas e munindo-se de instrução e educação. Talvez pareçam decisões difíceis de tomar, pela força do imediatismo, mas o próprio filme belga-franco-holandês se inclina, no fim das contas, para o lado da vida e do amor. Nada é mais revelador e engrandecedor para a busca humana do que qualquer coisa que exalte a vida. No filme, até mesmo em meio ao horror das trincheiras, a beleza da arte encontra o verdadeiro sentido da vida.
Tudo isso nos torna mais motivados pelas verdades do cinema, sem nos deixar menos sensíveis às realidades de nação brasileira. A melhor escolha, afinal, não pode deixar de ser o amor.
*Rogerio Cavalcante e Castro é cineasta e da produtora Poética Marginal.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
