Direita não sai derrotada das urnas e continua avançando, diz analista da ultradireita

Por Diego Junqueira27/10/2026 às 03:248 visualizações
Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) quebrou a tradição democrática e não reconheceu a derrota, em seu primeiro dicurso após o TSE proclamar a vitória de Lula (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) quebrou a tradição democrática e não reconheceu a derrota, em seu primeiro dicurso após o TSE proclamar a vitória de Lula (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
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A ULTRADIREITA não saiu derrotada das urnas neste domingo (25), apesar da reeleição do presidente Lula (PT), avalia David Magalhães, professor de relações internacionais da Universidade Federal de Uberlândia e coordenador do Observatório da Extrema Direita. Para ele, a derrota foi da família Bolsonaro, e não das ideias conservadoras que ganham cada vez mais espaço na política brasileira.

“Não vejo como uma derrota do campo da direita. Pelo contrário. O Lula, para se eleger, teve que aceitar algumas propostas da direita”, afirma o professor, destacando o apoio de Lula para a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, em casos de crimes hediondos, um assunto que dividiu aliados na reta final de campanha.

A força da direita no Brasil aparece no resultado das eleições legislativas e estaduais. O PL dos Bolsonaro elegeu seis governadores, 121 deputados federais e 19 das 54 cadeiras em disputa no Senado. A legenda será a maior da Câmara nos próximos quatro anos e contará com 29 dos 81 senadores. 

Um Congresso majoritariamente de direita e com presença expressiva da direita radical irá impor dificuldades ao novo mandato de Lula e deve levar o presidente a ceder para manter a governabilidade, como num eventual impeachment do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes.

“Essa é uma das possibilidades, inclusive para conseguir acalmar a parte da extrema-direita que prevê usar essa maioria no Senado para fazer impeachment de ministros”, analisa Magalhães.

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Mas assim como na campanha que levou à virada histórica no segundo turno, o presidente continuará dependendo das ruas e das redes para segurar propostas contrárias aos trabalhadores e que ameacem direitos básicos. 

“O Lula tem só uma possibilidade, que é continuar mantendo energizada essa base popular que emergiu no segundo turno”, afirma.

Leia os principais trechos da entrevista:

Você afirma que a direita venceu a maioria das eleições no Brasil na última década, e que a eleição de Lula em 2022 foi uma exceção. A nova vitória de Lula muda esse cenário ou o avanço da direita e da extrema direita continua?

Sem considerar o Executivo, o avanço da direita segue em todas as áreas. Até numericamente. Comparado ao Jair em 2022, o Flávio teve quase 2 milhões de votos a mais. 

Teve uma série de problemas de campanha que levaram a essa derrota. Ela foi menos apertada do que se esperava. Mas eu sigo na minha leitura de que, no âmbito cultural e social, e isso se manifestou nas eleições legislativas, tanto para a Câmara quanto para o Senado, esse avanço da direita continua bastante consistente.

Por que 2022 e 2026 foram exceções?

Essa exceção tem nome e sobrenome, Luiz Inácio Lula da Silva. Fora isso, os indicadores apontam para a direita. Pesquisa do Instituto Ipsos, que mede o índice de conservadorismo na sociedade brasileira, aponta [maior adesão] a todos os temas vinculados à segurança pública, como a maioridade penal, a pena de morte e a posse de armas, e também [contra] aos temas chamados morais, como aborto e casamento homoafetivo. Em todos esses indicadores temos observado um crescimento [da posição conservadora].

Um dado bastante sintomático é o fato de que, segundo o Datafolha, 70% dos votantes em Lula concordam com a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. 

O Lula não é um candidato que mobilizou uma agenda progressista. Para se tornar viável eleitoralmente, ele flertou com parte desse consenso de direita que tem crescido no país.

Então não é uma derrota da extrema direita, nem apenas uma vitória do Lula? Temos um Lula caminhando para o centro?

Sem dúvida. O atual governo dele é de centro, com traços liberais na economia. Por mais que setores financeiros façam uma grita, o [ex-ministro da Fazenda Fernando] Haddad governou, do ponto de vista da política econômica, com um viés ortodoxo. 

O Lula não tocou em temas da agenda moral. Ele sabe que, se entrar nesse campo, ele perde, sobretudo em razão do avanço das igrejas evangélicas, pentecostais e neopentecostais em todo o Brasil e em classes mais populares. 

Ele não comprou algumas brigas que são caras para a agenda progressista no campo da segurança pública e da moralidade. A campanha dele foi tentar resgatar o eleitor a partir de uma discussão mais econômica e social, e não no campo cultural. O Lula entendeu que parte majoritária da população é conservadora.

Podemos dizer que, no segundo turno, uma parcela da população despertou para o risco da extrema direita? 

O PT, de maneira muito cômoda e equivocada, acreditou em vitória no primeiro turno. Parte da militância estava anestesiada com uma vitória que os institutos de pesquisa davam como certa. Isso desmobilizou o campo progressista. Foi uma campanha muito morna, não se ocupou em expor o Flávio.

Por outro lado, a campanha do Flávio apostou em esconder o Flávio, que é, dos filhos e herdeiros do Jair, o que tem a maior ficha corrida em todos os aspectos.

Já no segundo turno, a campanha do Lula se deteve em explorar essa figura do Flávio, e isso gerou um temor muito grande. Não é nem pela agenda em termos ideológicos, mas o seu envolvimento com a corrupção, com o crime organizado, com as facetas mais violentas da segurança pública do Rio de Janeiro. Então, à medida que ele era exposto, o medo do Flávio passou a superar o medo do Lula.

Repito, eu acho que é menos sobre a derrota da ultradireita, e mais sobre a derrota de uma família. No caso do Jair, não fosse a tragédia da sua condução na pandemia, provavelmente ele teria sido eleito em 2022. 

Dessa vez, construiu-se [sobre o Flávio] a figura de alguém que foi um playboy, um filho de papai, que passou a vida em trambiques, digamos, com envolvimentos de todo tipo, de corrupção, violência. Então a propaganda e o engajamento online levaram a um medo maior do Flávio.

Não vejo como uma derrota do campo da direita. Pelo contrário. O Lula, para se eleger, teve que aceitar algumas propostas da direita. Eu vejo muito mais como uma derrota da família Bolsonaro. 

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) quebrou a tradição democrática e não reconheceu a derrota, em seu primeiro dicurso após o TSE proclamar a vitória de Lula (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) quebrou a tradição democrática e não reconheceu a derrota, em seu primeiro dicurso após o TSE proclamar a vitória de Lula (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

Como você avalia o impacto da vitória do Lula no contexto internacional, em especial na América Latina?

Eu acho que tem um impacto gigantesco. O Nixon, quando se encontrou com o Médici em 1970, disse que, aonde vai o Brasil, vai o resto da América Latina. O exemplo dessa virada já está sendo comentada em setores progressistas da Argentina, que tem eleições no ano que vem, e o Milei já vem num declínio de popularidade.

E sem dúvida nenhuma essa mobilização, tanto nas redes quanto nas ruas, vai influenciar outros segmentos. O próprio Janones já disse que foi chamado para conversar com outros países, líderes, inclusive aqui na América do Sul. Então é um case de como se segura [a extrema direita]. 

Mas para segurar é necessário também que haja um monumento popular, que é o Lula. A Argentina vai conseguir segurar? Dificilmente. A Argentina não conta com uma figura como o Lula. Então não é apenas o Janones, é ele em cima de uma figura que tem uma capacidade de mobilização que não tem paralelo na história republicana do Brasil. 

Até em relação ao nosso futuro, para 2030, essa é uma questão que a esquerda vai ter que começar a discutir a partir de já, como combater [a extrema direita] em 2030.

Como você avalia o fato de o Flávio ainda não ter reconhecido a derrota, nem o Milei ter se manifestado até agora? 

Eles esperavam um resultado muito mais apertado, mas como isso não veio, diminui bastante essa questão de [alegarem] fraude. Tem pouca possibilidade de isso vingar. Eu já vi inclusive segmentos da própria direita dizendo para esquecer isso de querer anular as eleições e sim tentar o impeachment do Lula.

O Nicolas e o Flávio estão com esse discurso [de anular], mas não há muito respaldo. São 60 milhões de votos a favor do Flávio, mas apenas um terço, 20 milhões de pessoas, de fato devem acreditar que houve fraude e que deve ser anulado. Mas eu acredito que, diante de um resultado tão expressivo, com mais de 4 milhões de diferença de votos, esse pleito vai se esvaziando aos poucos.

Nas redes sociais, parece que houve um banho do campo progressista em relação à direita, embora esta seja uma arena da extrema direita. Como você avalia?

Essa foi a maior novidade da eleição, junto com a retomada da esquerda nas ruas. Foi até pedagógico para boa parte da esquerda, que não sabia coisas simples, como “não comente postagens do Nicolas, porque isso engaja, esquece o que eles estão fazendo”. De certa maneira, o Janones promoveu um letramento mesmo, para boa parte do segmento progressista, sobre como funciona toda a engenharia e os algoritmos e como é que isso chega nas pessoas, quais são os mecanismos de furar a bolha. 

Por exemplo, no episódio do Revelando do MC Cabelinho, quando o Neymar comenta a postagem dizendo que “Dito isso, é 22”, ele fura a bolha porque aquilo estava circulando muito dentro dos perfis de esquerda. Mas o comentário possibilitou chegar a muito mais pessoas fora da bolha. 

Atribuo a Janones um papel crucial nessa vitória, entre os mais importantes nessa eleição. Mesmo para você colocar tanta gente na rua, foi necessária essa mobilização online. As ruas também foram fortes, mas muitas pessoas estavam ali conectadas e mobilizadas online.

Há uma percepção de que o mundo analógico não é o responsável pelas mais recentes vitórias eleitorais. Vendo como se deu a vitória do Bolsonaro em 2018, o campo progressista começou a se organizar. Tem uma pesquisa muito interessante do Marcos Nobre, professor da Unicamp, sobre o “Partido Digital Bolsonarista”, que mostra como é que funciona internamente essa estrutura. E ele falava que o partido digital de esquerda não poderia nascer do PT e dos caciques do PT. Tanto é que isso gerou até um certo ciúmes entre os segmentos do PT [em relação ao Janones]. 

Tem uma entrevista de um dos fundadores do PT à Folha, em que ele chama o termo “soldados de Lula” de patético, e que toda essa verborragia militaresca seria uma desonra com as vítimas da ditadura. Mas eles estão totalmente num mundo que não existe mais. E uma parte da militância do PT voltou hoje a criticar o Janones, Mas ele foi um espanto, produziu uma perplexidade não só no campo da direita, mas no campo tradicional analógico da esquerda, que convidou a gente a pensar sobre como é que funcionam as eleições ultimamente.

Estudantes se mobilizaram em várias partes do país após Lula sair derrotado no primeiro tuno (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Estudantes se mobilizaram em várias partes do país após Lula sair derrotado no primeiro tuno (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Vivemos num momento em que familiares e amigos têm dificuldade de conversar sobre política, quando duas pessoas pensam de maneira diferente. Isso é um resultado do avanço da ultradireita, ou não tem necessariamente a ver com isso?

Eu acho que não. Não atribuo essa culpa especificamente à ultradireita. Eu acho que está mais relacionado com o ambiente online, porque a gente vai se inserindo cada qual nas suas câmaras de eco, que são as bolhas digitais, e elas oferecem pouca porosidade ao que está acontecendo do outro lado. Isso dificulta um campo a conhecer o outro, a entender o que o outro está pensando, em que acredita. Isso faz as posições ficarem cada vez mais tribalizadas, mais sectárias, impedindo o diálogo.

Essa é uma característica da polarização não só na sociedade brasileira, mas em outros países. A polarização política num contexto de redes sociais e algoritmos tem produzido essas bolhas com pouca porosidade uma em relação à outra.

Mas tem algumas figuras da direita, e talvez o Renan Santos seja o que mais tem se destacado, dizendo que é possível construir uma direita mais racional, que dialogue com a esquerda e diminua essa polaridade. Pode ser que essa derrota da família Bolsonaro possa dar oportunidade para uma direita que defenda os valores conservadores, sem necessariamente ter esse ódio e querer usurpar todos os princípios do Estado Democrático de Direito.

O convite do Janones para conversar com alguém que pensa diferente dentro da sua família é um convite muito difícil para boa parte dos segmentos progressistas, porque eles estavam ali ensimesmados nas suas respectivas bolhas. Não foi algo fácil.

Como você vê a atuação da ultradireita no Congresso e na relação com o governo nos próximos quatro anos?

Tem tudo para ser um governo muito difícil para o Lula, e isso em razão do que tem acontecido no sistema político brasileiro. Alguns analistas, como Cláudio Couto, da FGV, falam sobre como o Brasil, aos poucos, sai de um sistema de presidencialismo de coalizão para um sistema de um Congresso cada vez mais empoderado. 

Nessa última década, sobretudo após o impeachment, o Congresso tem sido um ator da maior importância e que constrange muito o Executivo. E a gente tem agora um Congresso majoritariamente dominado pela direita e especialmente pela direita radical. E isso vai oferecer ao Lula uma série de problemas. 

O Lula tem só uma possibilidade, que é continuar mantendo energizada essa base popular que emergiu no segundo turno. O Lula vai precisar das ruas para tentar mobilizar uma ação contra determinado projeto de lei que a ultradireita queira passar. Nesse sentido o Lula tem uma novidade, que é essa mobilização. Acontece que, no período pós-eleitoral, é muito natural que haja uma atrofia desse ativismo e que o campo progressista se desmobilize.

Vai ser um desafio. O Janones chegou até a comentar no grupo dele que será muito importante manter essa base incandescente, energizada, para confrontar medidas que venham a contrariar o interesse do trabalhador no Congresso.

E em relação ao Judiciário?

O cenário que se colocava com a vitória do Flávio tornava ainda mais autocrático o que seria um governo Flávio, pela possibilidade de três nomeações ao Supremo e mais a possibilidade de impeachments. Isso enfraqueceria a corte responsável pelo controle constitucional, seria uma corte muito débil, eu diria até dócil. 

O progressista talvez tenha muito a comemorar a vitória do Lula nesse sentido. Mas veja só, o Lula não vai conseguir restabelecer do dia para a noite a credibilidade do STF. Isso cabe aos próprios ministros. Mas o Lula é um político hábil e eu acredito que ele pode negociar algumas cabeças ali [no STF], inclusive a do próprio Alexandre de Moraes. Acho que essa é uma das possibilidades, inclusive para conseguir acalmar a parte da extrema-direita que prevê utilizar essa maioria no Senado para fazer impeachment de ministros.

O Lula vai ter que realmente tocar uma reforma do Judiciário, pois existe um anseio popular por isso, e não só da direita. Vai ser um desafio. Ele conseguiu no segundo turno se colocar como um presidente e um candidato antissistema, contra as Big Techs, contra as bets, contra o Trump. Dificilmente agora no governo ele vai manter essa identidade, mas ele vai ter de levar a cabo uma série de reformas, sobretudo a do Judiciário, para conseguir ter um mínimo de governabilidade.

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