
Aos sete anos, tive hepatite. Passei novembro e dezembro entre o quarto dos meus pais e o hospital, enquanto a vida da escola continuava sem mim. Minha mãe procurou a professora, angustiada com a possibilidade de eu perder o ano letivo. Foi então que Dora passou a ir à minha casa, depois das aulas. Levava lições, deixava tarefas e acompanhava o que eu conseguia fazer. Na véspera do Natal, aplicou as provas de Matemática e de Língua Portuguesa.
Volto frequentemente a essa cena: uma professora, depois de um dia de trabalho, entrando na casa de uma criança doente. Havia cansaço, compromissos e os preparativos do Natal. Havia também um menino cuja formação ela decidiu acompanhar, mesmo quando a doença o impedia de frequentar a escola.
Reconheço naquele gesto uma expressão profunda do compromisso docente: enxergar a pessoa que existe em cada estudante e assumir responsabilidade por sua formação. Essa responsabilidade precisa encontrar respaldo nas condições de trabalho e nas instituições. A lembrança de Dora ajuda a compreender o cuidado que deve orientar nossas escolhas pedagógicas, sem transformar a dedicação individual em obrigação de sacrifício.
Seu nome é pronunciado até hoje com reverência e afeto na minha família. Talvez ela nunca tenha percebido inteiramente o alcance de sua presença naquela casa. Passadas tantas décadas, continuamos a lembrá-la com gratidão.
Essa permanência voltou a me tocar recentemente, durante a comemoração dos 75 anos do colégio em que vivi parte da juventude. Reencontrei colegas da turma de 1984, quarenta e dois anos depois da conclusão dos estudos. Chegamos com nossas trajetórias, escolhas, alegrias e perdas. Bastaram alguns minutos para que voltassem os risos e uma intimidade que parecia ter permanecido à nossa espera.
Os professores logo ocuparam o centro das conversas. Recordamos trejeitos, apelidos, piadas e exigências que, à época, nos pareciam excessivas. Entre essas lembranças, reconhecíamos ensinamentos que haviam acompanhado nossas trajetórias: uma observação que abriu possibilidades, uma cobrança compreendida anos depois, uma maneira de tratar as pessoas que ainda orientava nossas ações.
De algum modo, aqueles professores também estavam presentes na confraternização, por meio daquilo que havíamos levado da escola para a vida. A passagem do tempo tornava perceptíveis efeitos da formação que dificilmente conseguiríamos reconhecer enquanto éramos estudantes.
Como docente da Faculdade de Educação da USP, encontro outras expressões dessa presença. O trabalho com a formação continuada e a pesquisa me aproximam das redes de educação básica, onde frequentemente converso com egressas e egressos das nossas licenciaturas. Depois das apresentações, surgem perguntas sobre antigos professores: se continuam lecionando, se ainda utilizam determinado texto, se mantêm alguma prática especialmente lembrada. Um sorriso acompanha a recordação de uma exigência; uma imitação recupera o jeito de explicar. Quase sempre, há saudade.
Nessas ocasiões, lembro uma frase de Lisete Arelaro. No final da década de 1980, nas aulas de Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1º e 2º graus, do curso de Pedagogia, nossa saudosa professora costumava dizer: “Para a maioria daqueles que frequentaram a escola, entre as cinco pessoas mais importantes de toda a sua vida, há um professor ou uma professora”.
Acredito profundamente no sentido dessa afirmação. Reconheço sua verdade na professora Dora, nas lembranças do colégio e nas palavras de antigos estudantes da USP. Há algo na experiência de aprender com alguém que permanece conosco, mesmo quando os conteúdos estudados já se perderam na memória.
A responsabilidade pela formação atravessa a sala de aula e alcança as decisões institucionais. Está na preparação de uma disciplina, na atenção às dificuldades dos estudantes, no acompanhamento de suas trajetórias e nas condições que criamos para que possam permanecer na universidade e concluir seus cursos. Muito desse trabalho permanece pouco visível, e seus efeitos podem ser reconhecidos apenas anos depois.
Durante a pandemia de covid-19, cumprir essa responsabilidade nos exigiu algo que jamais havíamos imaginado. Aquela experiência marcou profundamente a trajetória de quem lecionou naquele período.
Recuso romantizá-la com palavras como “superação”, “reinvenção” ou “inovação”. Quando utilizadas para resumir o que vivemos, essas expressões apagam o sofrimento e convertem uma experiência devastadora em narrativa de êxito. A memória daquele tempo exige reconhecer a dor, o esgotamento e os limites que enfrentamos.
Perdemos colegas, familiares, amigos e estudantes. Muitas famílias viveram o luto sem velório, sem a possibilidade de segurar uma mão ou de se despedir. Houve quem recebesse uma notícia devastadora e, pouco depois, precisasse conectar-se para dar aula. Tínhamos medo pelos estudantes, por suas famílias e pelas nossas. Nós também tínhamos medo de morrer.
Continuar ensinando, nessas circunstâncias, envolveu a responsabilidade ética de preservar o vínculo pedagógico. Do outro lado da tela havia pessoas cujas vidas também tinham sido interrompidas, que precisavam ser escutadas e reconhecidas em suas dificuldades. Assegurar alguma continuidade à formação, respeitando as condições de cada estudante, tornou-se uma maneira de cuidar e de preservar o direito à educação.
Esse compromisso assumiu formas cotidianas: responder a uma mensagem, perceber uma ausência, reconsiderar um prazo, perguntar como alguém estava e dispor-se a ouvir. Sem a convivência da sala de aula e as conversas nos corredores, tentávamos construir presença com os meios disponíveis.
Nem sempre conseguimos. Houve barreiras materiais e tecnológicas, desencontros e perdas. Também precisávamos de acolhimento e de condições para trabalhar. Reconhecer essas dificuldades é indispensável para compreender que a dedicação docente precisa ser acompanhada de responsabilidade institucional.
Seguimos um dia de cada vez, preparando atividades e escutando as turmas, enquanto procurávamos algum horizonte para nós mesmos. Por vezes, contínhamos o próprio medo para acolher o medo de alguém. Preservar o vínculo ajudava nossos estudantes a imaginar um depois e a se reconhecer como parte dele. Nessa possibilidade residia a esperança.
Ao recordar aquele período, compreendo melhor por que a professora Dora continua tão presente em minha memória. Ela foi até onde eu estava. Sua atitude ajudou minha família a reconhecer que, mesmo diante da doença e da incerteza, minha vida escolar poderia continuar.
Outros professores vieram depois. Alguns seguem perto; outros permanecem na lembrança. Com eles, aprendi a reconhecer o valor de uma presença que acompanha nossas trajetórias e, muitas vezes, contribui para definir os caminhos que escolhemos. Essa dimensão humana integra o papel indispensável que a universidade pública desempenha na formação cidadã e profissional de seus estudantes e confere sentido ao esforço cotidiano de produzir e compartilhar conhecimentos.
Neste Dia das Professoras e dos Professores, somos convidados a uma reflexão sobre o significado da docência e sua contribuição para a sociedade. A data também nos oferece a oportunidade de reconhecer, com afeto e gratidão, o trabalho daqueles que dedicam suas vidas à formação de outras pessoas e que, muitas vezes sem saber, permanecem na memória de várias gerações.
Celebrar a docência exige valorizar esse trabalho cotidiano e assegurar as condições institucionais necessárias à sua realização. Na USP, o cuidado com a formação expressa nosso compromisso permanente com a sociedade, tanto no encontro entre docentes e estudantes quanto no trabalho acadêmico, administrativo e pedagógico que singulariza a graduação. Por isso, manifesto meu sincero e caloroso agradecimento às Comissões de Graduação, às Coordenações de Cursos e aos Serviços de Graduação, pelo trabalho dedicado, frequentemente silencioso e indispensável, e a todas as professoras e todos os professores, pelo compromisso com uma educação pública, gratuita e de excelência.
Talvez nunca saibamos o lugar que ocupamos na memória de nossos estudantes. Tampouco saberemos quais palavras, atitudes ou ensinamentos continuarão a acompanhá-los depois que deixarem nossas salas de aula. Em algum reencontro daqui a quarenta e dois anos, porém, alguém poderá recordar uma experiência, recuperar um ensinamento e sorrir ao pronunciar um nome.
Um nome como Dora, como Lisete ou um dos nossos.
Feliz Dia das Professoras e dos Professores.
Texto lido na reunião do Conselho de Graduação da Universidade de São Paulo, em 15 de outubro de 2026.
