A falsa simetria que equipara Lula e Flávio

Por Cristóvão Feil16/10/2026 às 13:383 visualizações
(COMBO) This combination of file pictures created on Setember 29, 2026, shows Brazil's President Luiz Inacio Lula da Silva at the Planalto Palace in Brasilia on September 16, 2026; and Brazil's right-wing Presidential candidate Flavio Bolsonaro at the Maracanazinho gymnasium in Rio de Janeiro, Brazil, on August 22, 2026. Brazilians will go to the polls next October 4 once again deeply polarized and under the...
(COMBO) This combination of file pictures created on Setember 29, 2026, shows Brazil's President Luiz Inacio Lula da Silva at the Planalto Palace in Brasilia on September 16, 2026; and Brazil's right-wing Presidential candidate Flavio Bolsonaro at the Maracanazinho gymnasium in Rio de Janeiro, Brazil, on August 22, 2026. Brazilians will go to the polls next October 4 once again deeply polarized and under the...
Brasil de Fato

A imprensa corporativa brasileira tem tratado a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro como uma polarização entre “dois polos opostos e equivalentes”, quando, a rigor, “só um deles é radical”. 

A simetria midiática que equipara Lula e Flávio Bolsonaro não é um mero erro jornalístico: ela cria as condições para que um projeto de subordinação nacional seja apresentado como uma alternativa política legítima. 

Como aponta a análise da Agência Pública, a centro-esquerda de Lula é apresentada como “pólo inverso e, portanto, equivalente à extrema direita de Flávio Bolsonaro – um erro, também jornalístico, que enviesa toda a cobertura da campanha”. 

O texto é direto: “Lula não é comunista, mas Flávio é fascista, e a imprensa poderia ter deixado essa diferença clara para a população”.

Esse escudo da imparcialidade ignora que as eleições de 2026 são as primeiras após uma tentativa de golpe de Estado condenado pela Justiça. 

Ao tratar como equivalentes o campo que defende a democracia e o campo cujo líder máximo foi condenado por liderar uma organização criminosa golpista, a mídia não apenas distorce os fatos: ela legitima a reedição de um projeto que já se provou criminoso.

Lembrar que houve a fuga do irmão do candidato fascista para os Estados Unidos e às alianças com Trump não é retórica vazia. É um padrão familiar documentado. 

Como resume a CartaCapital, “a subserviência aos EUA é um traço de família, do pai para os filhos”: Jair Bolsonaro fez continência à bandeira americana, Eduardo mudou-se para os EUA para conspirar contra instituições brasileiras, e agora Flávio “escancarou os compromissos da família ao conspirar com a soberania brasileira”.

O senador Flávio viajou aos EUA em jatinhos emprestados por empresários, incluindo um voo em janeiro de 2025 no fim de semana que antecedeu a posse de Donald Trump. 

Nessa viagem, Flávio pediu publicamente que os EUA monitorassem e pressionassem diplomaticamente por “eleições justas” no Brasil. Trata-se de um senador da República pedindo ingerência estrangeira no processo eleitoral de seu próprio país.

O compromisso concreto com a entrega de recursos naturais está documentado. 

Um memorando estratégico intitulado “Prosperity Partnership”, com a inscrição “Flávio Bolsonaro – 2026 Campaign” na capa, detalha um plano para transformar o Brasil em “o principal fornecedor e polo de processamento de minerais críticos alinhado ao Ocidente no Hemisfério Ocidental”. 

O documento prevê investimentos de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões em mineração e refino, com a criação de um “clube de minerais críticos” alinhado aos EUA.

Não se trata apenas de minerais. O programa de Flávio inclui prometer “entregar todas as terras raras, minerais críticos e o petróleo do país para o governo americano”, além de acabar com o sistema de partilha do petróleo para que “todo o petróleo brasileiro seja das multinacionais”. 

Flávio prometeu publicamente, em solo americano, “fatiar e vender a Petrobras aos pedaços”.

A dimensão histórica da subserviência

O diplomata Celso Amorim, assessor especial da Presidência, foi categórico: uma vitória de Flávio Bolsonaro levaria o Brasil a “um nível de subserviência aos Estados Unidos sem precedentes na história do país”. E acrescentou: “Nem a ditadura foi tão subserviente aos EUA quanto Flávio Bolsonaro pode ser”.

Amorim lembra que, mesmo durante a ditadura militar – que teve apoio americano ao golpe de 1964 -, “havia mais disfarce, porque havia o combate ao comunismo”. 

Hoje, “o objetivo exclusivo é a dominação de todo o hemisfério, que eles consideram, e já usaram essa palavra de várias formas, o quintal deles”. A diferença é crucial: a ditadura mantinha oscilações e resistências pontuais em temas como o mar de 200 milhas e o programa nuclear. Flávio, ao contrário, oferece subserviência absoluta sem contrapartidas.

Quando a mídia equipara Lula e Flávio, ela não está sendo imparcial. Está sendo cúmplice de um projeto que visa transformar o Brasil em fornecedor subalterno de recursos estratégicos para os EUA. 

A simetria funciona como uma operação de apagamento: elimina a diferença entre quem defende a soberania e quem a entrega. Entre quem respeita a democracia e quem foi condenado por tentar destruí-la. Entre quem governa para a população e quem governa para interesses estrangeiros.

A “vassalagem” que estamos testemunhando não é uma hipérbole. É a descrição precisa de um senador que viaja aos EUA para pedir ingerência externa, que oferece petróleo, minerais e terras raras em troca de apoio político, e cujo irmão fugiu para o país que deseja colonizar o Brasil. A mídia que trata isso como uma “alternativa de poder” não está apenas errando: está participando ativamente da legitimação de um projeto neocolonial em pleno século 21. 

*Cristóvão Feil é sociólogo.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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