Nacadência: o time de Osasco que busca título inédito na final da Taça das Favelas

Por Ariane Costa Gomes30/10/2026 às 19:396 visualizações

Centroavante do Nacadência, time finalista da Taça da Favelas 2026, Miguel, o “Guel”, 16, já sabe o ritual que fará antes da partida no Pacaembu neste sábado (31). “Dar três pulinhos com a perna direita, rezar sempre. Meus pais vão assistir e queremos sair campeões”, afirma.

Guel é um dos jovens que vão representar a cidade de Osasco, na Grande São Paulo, na final da 6ª edição da competição, em São Paulo. Em busca do título inédito, a agremiação entra em campo contra a Favela da 13, de Guarulhos, atual campeão. O jogo será às 15h30.

Nascido e criado no Jardim D’Abril, Guel seguiu os passos dos irmãos e primos ao entrar para o Complexo Jd. D’Abril Nacadência.

Os atletas são adolescentes na faixa de 10 a 13 anos, eles treinam às terças e quintas no campo do Aena @Ariane Costa Gomes/Agência Mural
Os atletas são adolescentes na faixa de 10 a 13 anos, eles treinam às terças e quintas no campo do Aena @Ariane Costa Gomes/Agência Mural

O time chegou à final após derrotar o Parque Santo Antônio por 1 a 0 na semifinal. Antes, a equipe havia conquistado a Taça das Favelas CIOESTE (torneio com equipes da região oeste da Grande SP), ao vencer o Flamengo do Piratininga por 1 a 0, em partida disputada no campo do Vila Izabel, em Osasco.

Busca do título inédito

Artilheiro do time, o centroavante Enzo Guerra, 17, o “Guerra” já fez 5 gols na etapa municipal e outros 5 na fase estadual. “Estamos na expectativa de sermos campeões. Nosso maior desafio é sempre conseguir superar a nós mesmos a cada jogo”, diz.

Há três anos como técnico do sub 17 e sub 20, Vinycius Brufato, 26, manteve os treinos às terças e quintas, no campo do Aena, na Rua Sete, 509, Adalgisa. O elenco que chegou à final é formado por jovens de 16 a 17 anos que disputaram a etapa municipal da Taça das Favelas em 2025, mas foram eliminados na semifinal.

‘Sentimos a dor da eliminação e desde ali nos fechamos e acreditamos que podíamos chegar’

Vinycius, técnico

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Camisa dos jogadores são estampadas com fotos dos torcedores e contém os logos de comércios locais @Ariane Costa Gomes/Agência Mural

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Integrantes do Nacadência fazem os últimos ajustes antes da final da Taça das Favelas @Ariane Costa Gomes/Agência Mural

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Equipe venceu a 4ª edição da Taça das Favelas CIOESTE realizada em Osasco @Ariane Costa Gomes/Agência Mural

“Há muita cobrança por parte deles individualmente, sabemos que essa idade é difícil devido ao mundo estar cada vez mais conectado, mas a nossa verdadeira vitória é fazer com que essa base de atletas pense em melhorar todos os dias para estarem prontos para oportunidades como essa”, avalia o técnico.

O auxiliar técnico e diretor, Lucas Pereira, 18, foi o responsável pela criação do projeto do sub 17 em maio de 2023. Filho de Nazareno, um dos fundadores e atual presidente, já foi jogador e hoje dá aulas de futebol e atua na beira de campo.

O jovem destaca o esporte como ferramenta de transformação na vida das crianças e jovens da comunidade. “É algo que escutei bastante. Além do futebol, a parte social é muito importante porque sabemos que o futebol resgata as crianças e até ajuda as pessoas mais velhas a acharem outro rumo”, diz.

O volante Rodrigo Camargos, o “Digão”, 17, destaca o jogo das quartas de final contra o Complexo Jd. São Pedro como um dos desafios da campanha. “Tinha 3 ou 4 jogadores suspensos e ficamos sabendo só no dia. Tivemos que montar todo o time de novo e os esquemas, as estratégias e esse jogo foi bem difícil”, recorda.

Após empate em 0 a 0, a classificação foi definida nos pênaltis com placar de 3 a 2 para o Nacadência.

Movimentação no bairro

A chegada inédita à final tem movimentado o Jd. D’Abril e região. Um carro de som tem passado nas ruas próximas à sede, localizada na rua Dona Maria Angelina, 365, para avisar aos moradores sobre o jogo e os ingressos gratuitos.

Na semana da decisão, a sede virou ponto de retirada dos ingressos. Responsável pela administração, Ana Paula Mendes, 39, acompanha a equipe há 16 anos. Conheceu o Nacadência por meio do marido Robert, mais conhecido como “Lão”, e desde então acompanha os jogos. A filha Ana Júlia, 15, também é torcedora.

Daniel Ramos garantiu ingressos para ele e sua família acompanharem o Nacadência na final @Ariane Costa Gomes/Agência Mural
Daniel Ramos garantiu ingressos para ele e sua família acompanharem o Nacadência na final @Ariane Costa Gomes/Agência Mural

O local fica aberto de terça a domingo, do meio-dia às 22h. “Atendo os moradores, o pessoal que sai do trabalho e vem para comer um salgado e tomar cerveja. Em dias de jogo, a concentração é aqui, se reúnem para ir e depois voltam no pós-jogo”, explica.

O porteiro Daniel Ramos, 45, está entre os torcedores que irão ao estádio em um dos 18 ônibus que vão sair da sede do time. Além desses, a estimativa é que mais 52 ônibus saiam de Osasco.

“Sou criado no Jardim D’Abril e já tem um bom tempo que acompanho. Peguei ingressos para mim, minha esposa [Priscila] e meus dois filhos [Diogo e Maria Luisa]. Somos fãs, temos camisas, meu filho jogou há uns anos atrás. Estamos ansiosos com essa final, doidos para levantar essa taça”, conta.

Sangue Azul

A torcida Sangue Azul, criada em 2005, se prepara para fazer uma grande festa no Pacaembu. Foram feitas reuniões para definir os preparativos que incluem a distribuição dos ingressos, confecção de bandeirinhas, balões, papel picado, bateria de samba e mais.

Assim como parte dos jogadores e torcedores, o presidente da torcida, Vih, 34, acompanha o Nacadência desde criança. No comando do grupo há oito anos, ele reforça o comprometimento da Sangue Azul.

Matheus Rodrigues é vice-presidente da torcida Sangue Azul @Ariane Costa Gomes/Agência Mural
Matheus Rodrigues é vice-presidente da torcida Sangue Azul @Ariane Costa Gomes/Agência Mural

“Temos uma bateria que empolga. A torcida sabe que é o 12º jogador. Muitas crianças vão aos jogos e acabam querendo jogar, fazer parte da torcida ou tocar na bateria”, afirma.

Vice-presidente da torcida, Matheus Rodrigues, 31, é um dos responsáveis pela dinâmica de organização. Conta que, até o momento, já foram entregues quase 5 mil ingressos. Interessados em acompanhar a final podem entrar em contato, até sexta-feira, 30, pelo Instagram do time ou da Taça das Favelas.

‘O futebol faz um papel que a política tinha que fazer e muitas vezes não faz. Dizem que futebol não enche barriga, mas não estamos falando de dinheiro. É sobre ser uma boa pessoa, não ficar jogado na rua e nem fazer coisa errada’

Matheus, vice-presidente da torcida Sangue Azul

Como começou

Com sede no Jd. D’Abril, zona sul de Osasco, o time nasceu a partir de um grupo de amigos que se reunia para jogar bola nos fins de semana. Em determinado momento decidimos dar um nome para aquele grupo, mas não tínhamos ideia da proporção que atingiria”, recorda Pedro Barros, 45, profissional de TI e um dos fundadores. Ele também é pai de Vinycius, treinador das equipes sub 17 e sub 20.

Jogavam em um bairro vizinho e decidiram resgatar o Nacadência, agremiação do próprio bairro que tinha atuado, segundo recordam, de 1988 a 1996. Trocaram o vermelho e amarelo do antigo uniforme pelas cores azul e branco e, em 22 de outubro de 2000, fundaram a equipe.

Ao longo dos 26 anos, a equipe acumulou títulos, como a Copa Santa Cruz, 1.

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Sede do Nacadência fica no bairro Jardim D’Abril @Ariane Costa Gomes/Agência Mural

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O muro do campo Arena tem o período que o time foi fundado @Ariane Costa Gomes/Agência Mural

Seletiva Copa Bifarma (Atualmente Copa Martins Neto B), 1 Copa Quitaúna, Copa Rio Pequeno, Copa Jaguaré, Liga Osasquense de Futebol de Salão.

Com as categorias de base já levantaram as taças da Liga de Osasco em 2015, Copa Blia 2019, Campeonato Metropolitano 2024 e Taça das Favelas Cioeste 2026.

Após a final da Taça, a equipe se prepara para outra decisão. No dia 15 de novembro, às 11h, enfrenta o Turino Futebol Clube, do bairro Conceição, na final da 2ª divisão da Liga de Futebol de Osasco. Com o acesso já garantido à primeira divisão, o Nacadência planeja o futuro.

Um dos objetivos é conseguir a independência financeira do clube que é mantido com recursos da diretoria, patrocínios de empreendedores locais e da torcida. “Com a visibilidade da Taça das Favelas, conseguimos novos patrocinadores e vamos distribuir 1.000 camisas aos torcedores que ainda não têm e que vão na final”, conta Matheus.

Estão com um novo espaço próximo à sede para o “Instituto Nacadência”. O local está sendo reformado para promover atividades como cursos, escola de bateria, armazenar os materiais da torcida e a loja física. Atualmente, a venda das camisetas é feita via Instagram.

A subsede fica na Favela da Invasão, no KM 17 da Rodovia Raposo Tavares. Por lá, realizam festas em datas comemorativas como ‘Dia das Crianças’ e no ‘Natal’, oferecem cursos de informática, enviam doações, cestas básicas e mais.

O time possui ainda um programa de Sócio Torcedor a fim de integrar a torcida e com os comerciantes. A adesão oferece benefícios aos torcedores e gera renda. Os valores vão de R$29 a R$79.

O Nacadência conta com as categorias de iniciação de futebol na escolinha a partir de 7 anos, Base sub 17, sub 20, Esporte, categoria principal que disputa os campeonatos, Veterano com jogadores de 40 anos ou mais e a Coletão 60+. Segundo Pedro, as categorias somadas contam com cerca de 250 integrantes, desses 130 são crianças. Segunda, terça e quinta-feira, às 19h, acontecem as aulas na quadra da escola Anézio Cabral e terça e quinta-feira, às 14h30, no campo do Aena. As aulas são gratuitas e os interessados em participar devem contatar o time no Instagram.

Agência Mural

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