A EACH em movimento: fortalecer a estrutura para ir além

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10/09/2026 às 21:3132 maoni
Marcelo Fantinato, Graziela Serroni Perosa, Monica Sanches Yassuda, Ricardo Uvinha, Fabiana de Sant'anna Evangelista – Fotos: Arquivo pessoal
Marcelo Fantinato, Graziela Serroni Perosa, Monica Sanches Yassuda, Ricardo Uvinha, Fabiana de Sant'anna Evangelista – Fotos: Arquivo pessoal
Jornal da USP

Por Marcelo Fantinato, diretor desde 2026; Graziela Serroni Perosa, vice-diretora desde 2026; Mônica Sanches Yassuda, diretora de 2018 a 2022; Ricardo Ricci Uvinha, vice-diretor de 2018 a 2022 e diretor de 2022 a 2026; e Fabiana de Sant’Anna Evangelista, vice-diretora de 2022 a 2026, todos da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

Marcelo Fantinato
Marcelo Fantinato — Arquivo pessoal
Graziela Serroni Perosa
Graziela Serroni Perosa — Arquivo pessoal
Monica Sanches Yassuda
Monica Sanches Yassuda — Arquivo pessoal
Ricardo Uvinha
Ricardo Uvinha — Arquivo pessoal
Fabiana de Sant’anna Evangelista
Fabiana de Sant’anna Evangelista — Arquivo pessoal
 
A Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) foi criada em 2005, na zona leste de São Paulo, com uma proposta inovadora: reunir, em uma mesma escola, cursos e áreas do conhecimento que tradicionalmente se distribuem entre diferentes unidades da USP. Nascia uma unidade comprometida com a democratização do acesso ao ensino superior público. Esse projeto permanece. Mas a escala mudou e passou a exigir uma estrutura acadêmico-administrativa compatível.

A EACH reúne quase cinco mil estudantes de graduação e pós-graduação, 271 docentes e 183 servidores técnicos e administrativos. Mantém 11 cursos de graduação e 11 programas de pós-graduação. É a terceira maior unidade da USP em número de estudantes, a quinta em número de docentes e a oitava em área construída. Já formou mais de 10 mil profissionais em seus cursos de graduação e titulou mais de dois mil mestres e doutores. Essa escala, somada à diversidade acadêmica, tornou a gestão da escola particularmente complexa.

Apesar dessa dimensão, a EACH não possui departamentos. Nas unidades organizadas em departamentos, os conselhos e as chefias departamentais tratam diretamente de parte significativa das questões didáticas, funcionais e administrativas relacionadas ao trabalho docente.

Como consequência, muitas tarefas acadêmico-administrativas que, nas demais unidades, cabem aos departamentos são realizadas na EACH pelas coordenações de cursos de graduação, o que desloca tempo e atenção das atribuições próprias dessas coordenações. Outras recaem sobre a direção ou sobre colegiados da unidade, como as comissões estatutárias, o Conselho Técnico-Administrativo (CTA) e a Congregação. Esse arranjo funcionou durante a implantação da escola, mas se tornou insuficiente diante da escala e da complexidade atuais.

As discussões sobre a reorganização da unidade remontam a 2014; o processo institucional conduzido pela Congregação começou no fim de 2015 e atravessou diferentes gestões.

Em 19 de agosto de 2026, após esse longo processo, a Congregação da EACH aprovou a proposta de criação de sete departamentos: Ciências Ambientais e Biológicas; Ciências Exatas e Engenharias; Ciências Sociais Aplicadas; Computação; Humanidades, Educação e Artes; Políticas Públicas; e Saúde e Desenvolvimento Humano. Foram aprovadas também as alterações necessárias no regimento da unidade para acomodar a criação dos departamentos. Com 27 membros presentes, foram 23 votos favoráveis, dois contrários e duas abstenções. A matéria segue agora para apreciação das instâncias competentes da Universidade, até a deliberação final do Conselho Universitário, órgão máximo da USP.

O que muda e o que não muda

Para os estudantes, a criação dos departamentos não altera, por si, a formação nem a trajetória acadêmica. Permanecem inalterados os cursos de graduação, os programas de pós-graduação, as estruturas curriculares, as ementas, os requisitos de formação, os diplomas e os vínculos. As coordenações de cursos e programas, a Comissão de Graduação (CG), a Comissão de Pós-Graduação (CPG) e a Comissão de Coordenação do Ciclo Básico mantêm suas competências, e o Ciclo Básico permanece como núcleo comum da formação inicial.

O que muda é a governança acadêmico-administrativa. A distribuição dos encargos de ensino entre os docentes passará a caber aos conselhos de departamento, como estabelece o Regimento Geral da USP, sem prejuízo das competências da CG, da CPG e dos demais colegiados. Hoje, na ausência de departamentos, essa atribuição recai sobre as comissões coordenadoras de curso, cuja competência regimental é a coordenação didático-pedagógica dos cursos.

Passarão a existir sete conselhos de departamento, com chefias e vice-chefias, competências regimentais, fluxos e registros formais, além de representação no CTA e na Congregação. Os departamentos assumirão tarefas que hoje recaem sobre comissões e coordenações, permitindo que cada instância se concentre em suas atribuições. Trata-se, portanto, de uma mudança na organização e na governança da unidade, e não de uma reformulação de seus projetos de ensino, pesquisa, inovação, cultura ou extensão.

A proposta considera a necessidade de 21 vagas adicionais para servidores técnicos e administrativos, três por departamento. A criação dos departamentos não implica, por si só, alteração da lotação, da subordinação ou das atribuições dos servidores atuais.

Uma estrutura transversal aos cursos e programas

Os sete departamentos propostos foram desenhados a partir de campos de atuação docente, e não de cursos ou de disciplinas isoladas. Consideradas as vinculações propostas, todos os cursos de graduação e dez dos 11 programas de pós-graduação contam com docentes de mais de um departamento.

Nenhum departamento corresponderá a um curso, e nenhum curso ficará restrito a um único departamento. Associar uma disciplina a um departamento organizará responsabilidades, sem estabelecer exclusividade de oferta ou de participação docente. As fronteiras departamentais, portanto, não coincidem com as dos cursos de graduação nem com as dos programas de pós-graduação.

Na EACH, os projetos interdisciplinares nascem da convivência constante de pessoas de áreas distantes que compartilham os mesmos corredores, os mesmos laboratórios e as mesmas salas há anos. Os departamentos terão por função organizar responsabilidades e fluxos acadêmico-administrativos, sem dividir laboratórios, espaços, patrimônio ou orçamento.

A cooperação como compromisso regimental

A cooperação entre áreas, já presente na cultura e nas práticas da EACH, passará a ser também uma responsabilidade formal dos departamentos. A alteração do regimento da unidade aprovada pela Congregação prevê, como uma das finalidades dos departamentos, garantir condições institucionais para a cooperação interdepartamental e a interdisciplinaridade.

A vinculação a um departamento não poderá condicionar, restringir ou impedir a participação de docentes em atividades interdepartamentais ou transversais de ensino, pesquisa, inovação, cultura e extensão. Caberá aos conselhos de departamento zelar por essa garantia, e os relatórios das chefias deverão registrar as iniciativas dessa natureza.

Em paralelo, a Portaria EACH 036/2026 instituiu um grupo de trabalho para elaborar estudos e subsídios, podendo propor um mecanismo institucional de apoio à integração interdisciplinar e à cooperação interdepartamental. O trabalho também deverá contribuir para formular uma agenda de fortalecimento da interdisciplinaridade e da cooperação entre áreas. A iniciativa complementa a proposta de criação dos Departamentos.

Uma decisão construída ao longo do tempo

Antes da atual proposta de criação de departamentos, a unidade havia desenvolvido outra proposta, que previa a criação de centros acadêmico-administrativos. Essa proposta, entretanto, recebeu pareceres desfavoráveis das instâncias competentes da Universidade. O diagnóstico e a experiência acumulada nesse percurso foram incorporados à solução atual, estruturada de acordo com o regime normativo da Universidade sem alterar o que define a EACH.

Em 2025 e 2026, a construção da nova proposta envolveu grupos de trabalho e reuniões abertas. Na consulta a docentes, estudantes e servidores técnicos e administrativos, realizada em maio de 2026, 61,9% dos votos válidos ponderados foram favoráveis à criação dos departamentos.

A proposta prevê um relatório sobre o funcionamento inicial dos departamentos em até 18 meses após sua instalação e uma avaliação dos efeitos da nova estrutura em cinco anos. Os dois documentos serão submetidos à Congregação e examinarão a oferta acadêmica, a cooperação interdepartamental e a interdisciplinaridade, permitindo acompanhar a implantação, identificar dificuldades e orientar eventuais ajustes.

Uma estrutura para a escola inteira

A presença das chefias de departamentos no CTA e na Congregação dará às áreas acadêmicas representação própria nesses colegiados. A distribuição de competências reduzirá a concentração de decisões na direção e nos colegiados superiores, permitindo que essas instâncias dediquem maior atenção ao planejamento estratégico da escola.

A EACH não está trocando seu projeto por uma estrutura. Está dando a ele a estrutura intermediária que 21 anos de crescimento tornaram necessária. O projeto não muda; muda o que o sustenta.

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