Quando a minha fé não era instrumento político

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著者 Amanda Oliveira27/10/2026 às 21:4466 閲覧

Depois de passarmos por um dos períodos eleitorais mais difíceis da história recente e de acompanharmos o envolvimento assíduo de igrejas evangélicas nos rumos do país, restaram os fragmentos do que um dia foi o cristianismo para mim.

De um lado, o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito com 51,79% dos votos. Do outro, Flávio Bolsonaro (PL), que mantinha o slogan de seu pai, Jair Messias Bolsonaro: “Deus, Pátria e Família” – frase que impactou consideravelmente uma parcela da população evangélica.

Eu, neta do pastor Jacinto, fundador de uma das primeiras igrejas da Assembleia de Deus – Madureira, no bairro do Cabuçu, em Guarulhos, cresci no catolicismo. Não demorou muito para que migrasse para o protestantismo e seguisse a origem pentecostal herdada da família paterna.

A igreja me alcançou quando o Estado não nos via. Ela foi casa, escola, hospital e lugar de muito amparo. A sensação de pertencimento quando um culto começava era mágica para mim.

Me envolvi em tudo: grupo de jovens, liderança das crianças, professora da Escola Bíblica Dominical, eventos importantes, grupo de gestos. Fiz de tudo um pouco e desenvolvi habilidades que hoje considero importantes.

Fiz amigos, congreguei e segui tudo aquilo em que acreditava e que devotava no meu coração, até chegarem as eleições de 2018. Grande parte das igrejas evangélicas tinham nitidamente um lado. Os discursos que antes eram sermões baseados na Bíblia passaram a dar lugar à palavra de um político. Estamos falando de Bolsonaro, que concorria à Presidência na época e venceu as eleições.

Magno Borges/ Agência Mural
Magno Borges/ Agência Mural

Novamente, em 2022, os nossos púlpitos, que antes eram ocupados por homens e mulheres que tinham a unção da palavra, passaram a receber políticos. O discurso que tanto me incomodava se tornou frequente. Em 2026, não foi diferente.

A Santa Ceia, celebração que acontece uma vez ao mês para relembrar o sacrifício de Jesus na cruz, tradicionalmente no segundo sábado, foi adiantada para o dia anterior ao primeiro turno das eleições, em 3 de outubro. Recebemos um representante da igreja evangélica-sede, visita rara, para falar sobre candidatos a deputados federal e estadual, entre eles Cezinha de Madureira e Oséias de Madureira, ambos do PL, não foram eleitos.

Imagem do artigo
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O santo mencionado pelo irmão não era o nosso Jesus, mas um pedaço de papel com a indicação de em quem os fiéis deveriam votar.

A cena me entristeceu, principalmente porque eu estava acompanhando o escândalo envolvendo Cezinha de Madureira. O deputado é alvo de uma investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de tráfico de influência em tribunais superiores e é um dos nomes citados em uma apuração sobre possíveis desvios de recursos de emendas parlamentares para eventos da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Segundo reportagem do Terra, a investigação enfrenta entraves no Supremo Tribunal Federal.

Não é de hoje que várias igrejas evangélicas parecem ter escolhido trocar de Messias. Em algum momento, entendeu que o único lado certo é o da direita, como se qualquer pensamento diferente colocasse alguém contra a fé cristã e os princípios que ela prega.

“Estou dizendo que o discurso da extrema direita se apropriou sutilmente dos discursos religiosos e espirituais e das práticas de autocuidado de nossa era, manipulando-os e utilizando-os para seus fins específicos”, disse o pesquisador em comunicação Paolo Demuru, no livro “Políticas do encanto: extrema direita e fantasias da conspiração“.

Amanda Oliveira é editora de engajamento da Agência Mural @Magno Borges/ Agência Mural
Amanda Oliveira é editora de engajamento da Agência Mural @Magno Borges/ Agência Mural

As pessoas te excluem por pensar diferente e entendem, grosseiramente, que se intitular de esquerda é ser a favor do aborto, gritar “viva a liberação das drogas” e proteger bandidos. Quando, na verdade, esses discursos, repetidos à exaustão, fazem parte de um repertório decorado que circula pela internet.

A popularidade de jovens personalidades da extrema direita, como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, e seus expressivos resultados eleitorais, mostram como o discurso de ódio pode fazer mais sucesso do que projetos de lei.

De acordo com o Censo 2022 do IBGE, entre 2010 e 2022, a proporção de católicos na população de 10 anos ou mais reduziu 8,4 pontos percentuais, caindo de 65,1% para 56,7%. Simultaneamente, a proporção de evangélicos cresceu 5,2 pontos percentuais, passando de 21,6% para 26,9%.

Infelizmente, as palavras de Jesus descritas em Marcos 16:15 parecem ter sido interpretadas como uma estratégia de dominação. “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura”. E a massa cristã segue sendo usada como manobra política para angariar votos.

Utilizam-se expressões como “casamento homossexual”, “valores da família”, “educação sexual”, como se ensinar sobre sexualidade fosse ensinar sexo para criança. Além dos jargões “Lula ladrão” e tantos outros argumentos para fortalecer o preconceito enraizado que alguns evangélicos insistem em justificar “em nome de Deus”.

Bispo Samuel Ferreira – Assembleia de Deus – Madureira – Chamando Flávio Bolsonaro ao Púlpito e afirmando que “irmão vota em irmão”

Romper com o conservadorismo e o fundamentalismo que sustentam essas ideias foi um processo longo e doloroso. O lugar de acolhimento se tornou, aos poucos, um lugar onde já não conseguia me encontrar nem me conectar com a minha espiritualidade.

Sigo sendo cristã e acreditando fielmente nos princípios ensinados por Cristo, mas já não me identifico como evangélica. Essa palavra me remete a uma bancada com a qual não concordo. A minha liberdade não pode, sob nenhuma hipótese, ferir o direito do outro.

Ao ler a Bíblia, especialmente o livro Atos dos Apóstolos, percebo o quanto as minhas aspirações coletivas estão atreladas ao evangelho. De forma alguma eu poderia pensar somente em mim e abraçar apenas aqueles que são iguais a mim.

O capítulo 2 do livro, entre os versículos 44 a 47, nos conta que os primeiros cristãos compartilhavam seus bens e repartiam tudo conforme a necessidade de cada um. A comunidade vivia unida, partilhava o pão e cultivava a simplicidade. Como conciliar esse ensinamento com um evangelicalismo que apoia discursos de exclusão?

Em Provérbios capítulo 31, nos versículos 8 e 9, a orientação é clara: “fale a favor daqueles que não podem se defender. Proteja os direitos dos pobres e dos necessitados.” Ainda assim, vi a igreja apoiar políticos que contradizem esses princípios, como um político [Flávio Bolsonaro] que advogou em defesa do policial que assassinou Ana Clara, uma menina de cinco anos.

Pela instituição religiosa – não pela igreja evangélica do bairro, periférica e que ajuda tanta gente – cheguei a desejar largar tudo. É doloroso perceber como algumas denominações parecem mais preocupadas em manter seu poder político e financeiro do que em praticar aquilo que pregam. Mas não posso abdicar do amor mais lindo que me atraiu na vida.

Jesus não precisou ocupar um trono para impactar o mundo. No livro de João, deixou um mandamento que resume muito do que acredito: “Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós.”

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