Críticas do público fazem imprensa dar nome a golpismo de Bolsonaro, aponta Fabiana Moraes

Por Amanda Audi28/10/2026 às 23:3143 visualizações
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil / Agencia Publica

Assim que foi divulgada a carta golpista na qual o candidato derrotado Flávio Bolsonaro se autoproclamou “presidente” do Brasil, muitos jornais brasileiros divulgaram a fala como se fosse mais uma notícia, em tom declaratório, sem evidenciar seu teor golpista.

“Em carta divulgada por aliados, Flávio Bolsonaro se diz presidente eleito do Brasil após chegar aos EUA fugido”, noticiou a Folha de S.Paulo. “Nos EUA, Flávio se autodeclara ‘verdadeiro presidente eleito’ e agradece a Trump e a Milei”, manchetou o Estadão. Outros veículos também fizeram títulos similares.

Depois de alguns minutos no ar, a maioria dos portais corrigiu o tom. “Flávio Bolsonaro se diz presidente eleito do Brasil em carta golpista divulgada por aliados”, reformulou a Folha. O Estadão também mudou: “Após fuga, Flávio se autodeclara ‘presidente eleito em carta golpista e agradece a Trump e a Milei”. Mais tarde, o próprio candidato derrotado postou uma nova carta, na qual se chama “líder do Brasil”.

A Agência Pública conversou com Fabiana Moraes, professora e pesquisadora do Núcleo de Design e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), para quem a mudança de postura dos grandes veículos nesta ocasião pode ter sido fruto de um maior “letramento midiático” do público depois das últimas eleições, que atua de forma mais crítica ao trabalho da imprensa.

A professora, que pesquisa a objetividade jornalística — isto é, a crença de que o jornalismo consegue ser isento de ideologias e vieses — relembra como a mídia foi alvo de muitas críticas nesta cobertura eleitoral. “Flávio almoçar com a Globo antes da entrevista no Jornal Nacional foi um escândalo”, disse, sobre a reunião do ex-senador com executivos da emissora no dia em que seria sabatinado. “Acho que essas eleições ensinaram para uma população maior algumas questões que geralmente ficariam meio uma conversa entre jornalistas.”

A pesquisadora aponta que parte dos veículos que em um primeiro momento normalizaram o discurso golpista “queriam Flávio presidente, ou sempre tiveram uma enorme antipatia por Lula”. “Eu não diria que há uma nova postura [deles], mas uma correção nesse caso específico porque rapidamente as pessoas questionaram as manchetes.”

A pesquisadora relembra que ficou evidente que os algoritmos das redes sociais não são puramente técnicos e, por isso, podem ser questionados. Do mesmo modo, o jornalismo também não é puramente técnico, no entendimento de Moraes. “Acho que há uma questão de mostrar para onde a imprensa estava indo”, aponta, citando como exemplo as relações da imprensa com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que atuava quase como um ‘editor-chefe’ de algumas redações. A Pública mostrou a interferência editorial de Vorcaro no alto escalão do grupo Globo.

Moraes também aponta que, nessas eleições, ficou mais claro o peso do jornalismo independente, além do peso de estratégias diferentes da cobertura tradicional, como o uso de humor, ficção e de influenciadores digitais.

Um dos livros de Moraes é “A pauta é uma arma de combate”, em que trata sobre como os jornalistas definem o que vai ser ou não notícia, muitas vezes reproduzindo preconceitos e hierarquias de gênero, classe social e raça.

Moraes acredita que essa eleição será importante para “riscar o chão com a faca” para pactuar novas posturas. “Por exemplo, que precisamos promover de fato o jornalismo independente e financiá-lo. Porque é isso: Lula se torna presidente em uma eleição mais do que histórica, e, no dia seguinte, os jornais estão falando sobre a Bolsa de Valores – algo que sempre acontece –, mas minimizam o tamanho dessa vitória. Quando você olha para a imprensa internacional no dia seguinte, a cobertura e o peso que se dá a essa vitória do Lula são bem diferentes”, afirma.

“A imprensa vai continuar seguindo suas apostas, como a Globo com Flávio – apostas mesmo, né? Mas acho que há uma coisa boa, que é o reconhecimento do jornalismo que olha para a democracia não como negócio, mas como  um ambiente necessário para respirar.”

Fonte
Agencia Publica
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