Duas escolhas para as cidades: congestionamentos recordes ou tarifa zero?

Por Yara Baiardi17/10/2026 às 11:0510 visualizações
Congestionamento impediu que muitos torcedores fossem à Arena de Pernambuco assistir Brasil x Argentina, amistoso de futebol feminino
Congestionamento impediu que muitos torcedores fossem à Arena de Pernambuco assistir Brasil x Argentina, amistoso de futebol feminino
Brasil de Fato

Será que é tão difícil assim resgatar a autoestima do povo pernambucano, para que possamos dizer que o metrô é esplêndido, como já foi no passado; dizer que a experiência de chegar à Arena é, a experiência, digna de um grande espetáculo? Até quando ficaremos presos à ilusão de que o transporte individual é a solução, não somente para chegar à Arena, mas também para os deslocamentos diários?

Na última terça-feira (13), a Arena de Pernambuco foi palco de dois espetáculos: o amistoso entre as seleções femininas de futebol do Brasil e da Argentina, que terminou empatado; e o “espetáculo” (estou sendo irônica) da dependência do automóvel particular para se deslocar. O pior é que esse show se repete há anos, com quilômetros e quilômetros de congestionamentos. Afinal, persiste-se na mesma solução fracassada: o acesso a um grande equipamento por um único meio de transporte — pior: individualizado. Como já escrevi, o jogo não está ganho.

A partida de futebol teve início às 20h30 de uma terça-feira ordinária, meio de semana, com previsão de público de aproximadamente 30 mil pessoas. Ou seja, a Arena Pernambuco nem de perto estaria lotada. Ainda assim, formou-se um verdadeiro “tráfego fluvial” de carros por todos os lados (para usar as palavras da charge CARtoons, pág. 93) atropelando a ditadura do automóvel de acesso gratuito.

Abaixo do cartoon há uma expressão atribuída à Adolf Hitler de 1933, que afirma: “Se em épocas passadas tentava-se medir o padrão de vida relativo das pessoas de acordo com a quantidade de quilômetros de linha férrea existentes, no futuro haverá de se usar como medida a quantidade de quilômetros de ruas adequadas ao tráfego de carros”. Então, o que podemos dizer agora, no século 21, sobre o nosso padrão de vida ainda tão dependente dos carros?

Nossa qualidade de vida piorou. Vejamos: imobilidade quase diária, aumento do tempo de deslocamento, consumo excessivo do espaço urbano, aumento dos sinistros de trânsito, contribuição para o aquecimento global e afastamento gradual das pessoas do transporte público. A força do ofício me obriga a registrar um ponto: naquele mar de pessoas presas por horas em congestionamentos, consumindo seu precioso tempo e suas horas de lazer, é duro reconhecer que cada uma delas também fazia parte do famigerado congestionamento.

De maneira contraditória e impactante, a poucos metros da Arena temos uma linha férrea desativada, testemunha de outro tempo. Eis a questão diante da constante superaventura que é chegar à Arena: é realmente impossível modernizar essa linha e integrá-la a um equipamento de grande atração? É impossível tecnicamente fazer um ramal do metrô, o sistema que mais carrega, chegar até a porta da Arena?

Presidente Lula durante entrega de ônibus escolares no Ceará
Presidente Lula durante entrega de ônibus escolares no Ceará — Ricardo Stuckert / Presidência da República

Precisamos romper com esse espírito do tempo, marcado por decisões ultrapassadas. Temos que romper com a lógica do “CARtoons” que diz que “Somos os carros” (p. 17) e que, nas palavras do ex-vice-presidente da General Motors, “o automóvel precisa ser excitante e causar desejo nas pessoas, não se tornar um mero meio de transporte. Do contrário teremos apenas algo inútil e elas irão gastar seu dinheiro em outras coisas”.

A frase exemplifica o porquê de parte da sociedade ainda enxergar o transporte público como algo destinado aos fracassados. Afinal, são décadas de condicionamento cultural que associam o carro próprio à liberdade, ao sucesso, ao desejo. São décadas em que se naturalizou a ideia de que investir em estradas, aeroportos e pavimentação é sinônimo de progresso, enquanto os investimentos e subsídios destinados ao transporte público são frequentemente tratados como desperdício de dinheiro público.

Romper com essa lógica exige uma mudança de paradigma e disposição de tudo e de todos para abrir novos caminhos e novas rotinas. Precisamos rever o que entendemos por progresso e reconhecer que a qualidade de vida nas cidades e a do povo não devem ser medidas pela quantidade de carros nas ruas, mas pela capacidade de garantir às pessoas o direito de se deslocar com dignidade, independentemente do meio de transporte escolhido.

Eis que, no dia 15 de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, propôs a tarifa zero no transporte público aos fins de semana e feriados. Trata-se de uma proposta de mudança disruptiva, que coloca o transporte público no centro do debate. Um antigo desejo daqueles que usam e pagam caro pelo transporte. Na Metropolitana do Recife, a tarifa zero no domingo do 1º turno fez aumentar consideravelmente a demanda por ônibus (aumento de 80%) e metrô (100%).

Considerando que os dias de jogos da Copa do Mundo feminina podem ser tratados como feriados locais, abre-se espaço para uma mudança de perspectiva, se opondo à lógica expressa nas falas atribuídas a Hitler e ao ex-vice-presidente de uma poderosa indústria automobilística.

O ano de 2026 pode ser histórico, pois abre espaço para pensar o progresso não pela extensão das vias destinadas aos automóveis ou pelos subsídios aos carros e às motos — elétricos ou não —, mas pelo acesso das pessoas ao transporte público. Que possamos, enfim, ter esse lindo espetáculo em nossas ruas, pautado pela estruturação do Sistema Único de Mobilidade (SUM).

Fonte
Brasil de Fato
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