Do sertão à Grande São Paulo, uma vida nova sem esquecer as raízes

Por Gabrielly Souza / Kaliny Santos16/10/2026 às 15:415 visualizações

Quando Maria Aparecida Nunes Fernandes, 56, chegou a São Paulo, em abril de 1989, pretendia ficar apenas alguns meses na cidade. Então com 19 anos, deixou o Sítio Samambaia, no sertão da Paraíba, para visitar uma prima na capital paulista.

O plano mudou depois que conseguiu um trabalho como cuidadora de crianças na Vila Medeiros, zona norte da cidade. Os dois meses se transformaram em anos. Em 1994, Cida, como é conhecida, mudou-se para Guarulhos, na Grande São Paulo, e abriu caminho para os outros seis irmãos.

“Meu sonho era vir para São Paulo. Naquela época, todo mundo que chegava aos 18 anos sonhava em vir para cá”, lembra.

Cida no balcão do depósito de materiais de construção Fernandes Meira, em Guarulhos @Gabrielly Souza/Agência Mural
Cida no balcão do depósito de materiais de construção Fernandes Meira, em Guarulhos @Gabrielly Souza/Agência Mural

Os pais trabalhavam na roça do sertão paraibano, próximo à divisa com Pernambuco e, para os sete filhos, a capital paulista representava a possibilidade de estudar e ter melhores oportunidades de trabalho.

Aos poucos, todos os filhos vieram para São Paulo. Em 1995, chegaram a morar juntos em uma casa de apenas dois cômodos. Depois de três anos, alguns irmãos começaram a sair da casa para se casar ou morar com seus companheiros. Hoje, todos conseguiram comprar terrenos em Guarulhos e construir as próprias casas.

Na família, a mais nova a chegar em São Paulo foi Joelma Cipriano de Oliveira, 42, que veio em 1997, quando tinha apenas 11 anos. “Eu vim para cá para estudar e trabalhar. Porque lá o estudo era mais fraco”, conta.

Em Guarulhos, Joelma passou por diferentes empregos. Aos 17 anos, começou a trabalhar em uma lanchonete. Depois trabalhou em um pequeno mercado por 12 anos. Também vendeu roupas, fez sobrancelhas e trabalhou por conta própria.

“Foi sempre um trazendo o outro”, resume Joelma.

Do trabalho ao empreendedorismo

Depois de se estabelecer em Guarulhos, Cida também se tornou empreendedora. Ao lado do marido, que é mineiro, mantém há 20 anos um depósito de materiais de construção.

O comércio funciona na mesma calçada onde hoje está instalado um restaurante da família, na Estrada Velha de São Miguel, em um imóvel alugado.

A relação da família com a comida nordestina começou pelas mãos da irmã, em especial a Do Carmo Maria Nunes de Sousa, conhecida como Carmen, 49. Ela vendia tapioca, bolo e café em uma pequena barraca em Guarulhos, antes de abrir o restaurante, em 2018.

Cida e o marido atendem clientes no depósito de materiais de construção @Gabrielly Souza/Agência Mural
Cida e o marido atendem clientes no depósito de materiais de construção @Gabrielly Souza/Agência Mural

O trabalho começava por volta das 5h e conquistou trabalhadores de empresas próximas, com aquele cafézinho bom antes de iniciar a jornada. As vendas foram interrompidas em 2020, durante a pandemia de Covid-19. Com a retomada do movimento, teve a ideia de ampliar o negócio.

Joelma entrou na sociedade com a irmã, mesmo sem experiência no setor de alimentação e “não gostando de cozinhar”, como brinca. Por isso, passou a cuidar das funções administrativas e do atendimento aos clientes.

O restaurante Sabor do Nordeste foi inaugurado em 29 de setembro de 2021. A ideia inicial era oferecer apenas café, tapioca, bolo e alguns pratos no almoço. A procura, porém, superou as expectativas já no primeiro dia.

A família precisou utilizar mesas usadas na loja de material de construção e até panelas de casa para dar conta da demanda. Três meses depois, foi necessário comprar um buffet.

Joelma, à esquerda, e Carmen, à direita, preparam baião de dois no restaurante Sabor do Nordeste @Gabrielly Souza/Agência Mural
Joelma, à esquerda, e Carmen, à direita, preparam baião de dois no restaurante Sabor do Nordeste @Gabrielly Souza/Agência Mural

O carro-chefe é o baião de dois, preparado com feijão-de-corda, carne-seca, queijo, nata e mandioca. Alguns ingredientes são trazidos do Ceará, estado de origem do marido de Joelma e de outros familiares.

O restaurante é administrado pela família. Maridos, cunhadas, sobrinhos e outros parentes ajudam principalmente nos dias de maior movimento.

Além de cozinhar e atender, as irmãs dividem tarefas como limpeza, compras, administração e preparação dos alimentos. Quando algum funcionário falta, elas assumem a função que precisar.

‘A gente vai limpar o banheiro, vai fazer comida… porque tem que entregar as coisas’

Joelma, proprietária do restaurante

“Você vê os clientes felizes, chega aqui, enche o restaurante, e falam: ‘poxa, senhora, que comida boa’. Aí te dá outro ânimo”, diz.

A família planeja investir em energia solar, reformar o piso e melhorar a estrutura do restaurante, sem nunca esquecer o que ficou para trás.

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Restaurante Sabor do Nordeste durante o horário de almoço @Gabrielly Souza/Agência Mural

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Um dos carros-chefes da casa, o baião de dois é preparado por Carmen e Joelma no restaurante @Gabrielly Souza/Agência Mural

Os pais das irmãs empreendedoras permanecem na Paraíba. O pai, hoje com 80 anos, passou a vida trabalhando na roça. A mãe continua ligada ao lugar onde criou os sete filhos.

Apesar da distância, as raízes permanecem presentes na vida da família — nas viagens, nos encontros entre os irmãos e, principalmente, na comida servida no restaurante. Depois da abertura do negócio, os filhos passaram a retornar à Paraíba com mais frequência.

Uma nova vida em São Paulo

A trajetória da advogada Joicy Mafra, 30, também começou com uma mudança em busca de oportunidades. Em 2013, aos 18 anos, ela deixou Mato Grosso, comunidade rural localizada no município de Rio de Contas, na Bahia, para viver em Osasco, na Grande São Paulo.

Os três irmãos mais velhos já estavam no estado. O pai só permitiu a mudança com a condição de que Joicy buscasse uma formação no ensino superior.

E assim foi. Antes de ingressar na faculdade, ela trabalhou como garçonete em um restaurante. Em 2017, passou no vestibular do Unifieo (Centro Universitário Fieo), em Osasco, e construiu sua carreira no Direito.

Joicy com a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil @Arquivo pessoal/Divulgação
Joicy com a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil @Arquivo pessoal/Divulgação

“Eu não me sentia no ambiente do escritório. Ficava sentada o dia inteiro, fazendo um trabalho de leitura e achava que não estava fazendo nada. Demorei para aprender que também era um trabalho”, relata.

Hoje, Joicy atua como advogada nas áreas de Direito Previdenciário e Trabalhista. Em sua atuação, atende pessoas que buscam acesso a aposentadorias e outros benefícios, incluindo trabalhadores da zona rural, como muitos com quem conviveu quando vivia na Bahia.

“[Antes de mudar de estado] eu me sentia como se eu estivesse em um teatro, mas do lado de fora do palco, apenas assistindo à minha vida passar”, conta. “Aos 18 anos, a gente carrega tantos sonhos, tantas expectativas…”.

Preconceito no trabalho

Durante a faculdade e nos primeiros anos de carreira, Joicy enfrentou episódios de preconceito por sua origem nordestina – e quase desistiu do seu sonho.

“Sofri bastante ouvindo ‘piadas’”, conta. “Me sentia atingida quando faziam comentários sobre o Nordeste: diziam que odiavam o sotaque, que era feio ou que as pessoas eram mal-educadas. Toda vez que falavam sobre o Sul era em tom de elogio”, afirma.

A advogada atua nas áreas de previdência e trabalhista @Arquivo pessoal/Divulgação
A advogada atua nas áreas de previdência e trabalhista @Arquivo pessoal/Divulgação

Após quase uma década, situações de preconceito e discriminação pelo local de origem ainda são realidade no Brasil. Em 2025, foram registradas 308 denúncias de violações de direitos humanos contra pessoas migrantes pela ONDH (Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos), do MDHC (Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania). O número representa um aumento de 70,2% em relação a 2024.

São Paulo concentrou a maior parcela das notificações, com 85 denúncias, o equivalente a 32,7% do total. Entre os registros, aparecem casos relacionados ao ambiente de trabalho e à agressões na internet, além de situações classificadas como violência psicológica ou moral.

As raízes permanecem

A distância do Nordeste não apagou os vínculos com as cidades de origem.

Joicy mantém a ligação com a região onde nasceu e encontra na própria profissão uma maneira de permanecer próxima de sua origem. Durante as visitas a Ibiúna, a advogada atua com os trabalhadores da região, dando orientações sobre como dar entrada na aposentadoria, acompanhando processos e comemorando as conquistas obtidas por meio da sua profissão.

“Já conseguimos aposentar bastante gente. É um público com o qual consigo me identificar”, afirma.

Para a advogada, mudar de cidade ou de estado em busca de uma nova vida demanda coragem. Seu conselho é confiar em si e não internalizar as situações de discriminação.

“Uma pessoa me disse uma vez: ‘eu não sou melhor do que ninguém, mas também não sou pior do que ninguém. Acima de mim, só Deus’. É isso que eu diria: siga sua vida e não deixe que essas experiências definam quem você é.”

Agência Mural

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Agencia Mural
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