De pai para filho: novas gerações se distanciam da profissão de pedreiro

Por Glória Maria30/10/2026 às 19:571 visualizações

Antônio Pedro de Lima, 54, e Naldo José Leite Lima, 50, têm algumas coisas em comum. Moradores de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, os dois chegaram à capital vindos do Nordeste em busca de trabalho e de uma vida melhor.

Começaram na construção civil como ajudantes de pedreiro, não concluíram o ensino fundamental e passaram boa parte da vida em uma profissão marcada pelo esforço físico. Ambos também são pais: Naldo tem três filhos e Antônio, quatro. Nenhum dos filhos, porém, quis seguir o mesmo caminho profissional.

A diferença está nas oportunidades. Quando chegaram a São Paulo, Antônio e Naldo encontraram na construção civil uma das poucas possibilidades de trabalho. Os filhos cresceram com acesso à educação, cursos e projetos sociais que ampliaram as opções de profissão.

Breno ao lado do pai, Antônio, que trabalhou na construção civil para sustentar a família @Glória Maria/Agência Mural
Breno ao lado do pai, Antônio, que trabalhou na construção civil para sustentar a família @Glória Maria/Agência Mural

O tema virou polêmica este ano, quando um empresário da construção civil reclamou da falta de mão de obra.

Antônio veio de Murici, em Alagoas, em 1994, aos 22 anos. Chegou à cidade com uma promessa de trabalho que o irmão havia conseguido para ele. Na República, região central, começou fazendo manutenção em um hotel, lixando paredes e pintando. Depois, foi trabalhar em Itaquera como ajudante de pedreiro. Foi ali que aprendeu o ofício que marcaria sua trajetória.

‘Com seis meses eu já sabia de muita coisa. Foi quando comecei a pegar esses conhecimentos e a levantar minha casa em Paraisópolis’

Antônio, pedreiro

Foi com o trabalho de pedreiro que Antônio sustentou os quatro filhos, entre eles Breno Tenório, 26, publicitário. Ainda criança, Breno percebia os efeitos da rotina do pai.

“Quando a gente é criança, não consegue traduzir muito essas coisas. Mas sempre senti a ausência dele em casa. Via meu pai chegando cansado e via meu pai saindo de madrugada, ainda escuro. Eu pensava: ‘Imagina como é difícil sair de casa às quatro ou cinco da manhã’”, lembra o publicitário.

A mesma realidade atravessou a trajetória de Naldo. Paraibano, ele chegou a São Paulo em 1995, aos 19 anos, para trabalhar na construção civil, em um emprego conseguido por primos. Iniciou a jornada como ajudante e aprendeu o ofício na prática. Foram mais de dez anos dedicados às obras, período em que também aprendeu pintura, encanamento e elétrica.

Gustavo Lira e o pai, Naldo, que trabalhou como pedreiro e atualmente é eletricista @Glória Maria/Agência Mural
Gustavo Lira e o pai, Naldo, que trabalhou como pedreiro e atualmente é eletricista @Glória Maria/Agência Mural

“Quando comecei, não entendia de nada, mas fui aprendendo como ajudante. Era muito puxado. Porque a maioria das pessoas que vieram do Nordeste na minha época não tinha serviço além de coisas pesadas. Lá também é pesado o serviço, só que era diferente. Era agricultura, na roça”, relembra.

Durante os anos de obra, tijolos, concreto, pedras e sacos de materiais fizeram parte da rotina.

‘Carreguei muito tijolo, concreto, encher laje na mão. Você carrega pedra, carrega cimento, saco de 50 quilos praticamente. Não é fácil, exige muito do corpo da gente’

Naldo, eletricista

O filho, Gustavo Lira, 26, diretor de fotografia, cresceu vendo os efeitos dessa rotina.

“Meu pai chegava cansado, só tinha tempo de tomar banho, jantar e dormir para acordar cedo de novo. Durante anos, sempre vivi essa cena”, compartilha o jovem.

Outros caminhos

Breno acompanhou o pai levantar cada cômodo da casa da família. Mesmo assim, nunca se interessou pelo ofício. Quando criança, chegou a ajudar algumas vezes a carregar tijolos, mas logo corria para longe do trabalho pesado.

“Sempre corri, nunca quis ficar carregando peso não”, recorda, aos risos, enquanto conversa com o pai.

Com o tempo, Breno passou a enxergar que a escolha profissional também estava ligada às oportunidades que cada geração teve. Para ele, trabalhos essenciais para o funcionamento das cidades continuam concentrados entre populações mais pobres e migrantes, enquanto outros grupos têm mais possibilidades de escolha.

Breno, publicitário, afirma que busca oferecer uma vida melhor ao pai @Arquivo pessoa/Divulgação
Breno, publicitário, afirma que busca oferecer uma vida melhor ao pai @Arquivo pessoa/Divulgação

Ele encontrou outro caminho por meio da educação. Antes de chegar à faculdade de publicidade, participou de cursos gratuitos de teatro e informática e de diferentes projetos sociais, que considera fundamentais para ampliar suas oportunidades.

Hoje, formado e trabalhando na comunicação, olha para a trajetória do pai, que continua atuando de forma autônoma na construção civil. Antônio teve carteira assinada apenas uma vez, em 1999. Para Breno, o custo desse trabalho não pode ser medido apenas pelo salário.

“E qual que é o lucro que a gente gera disso? Sendo que, em paralelo, a gente perde tempo com a nossa família, perde qualidade de vida”, afirma.

Gustavo tem uma percepção semelhante. Ele diz não conhecer jovens de sua geração que desejem seguir a profissão do pai e atribui essa escolha, em parte, ao que viu dentro de casa.

“Acompanhando meu pai, hoje vejo ele com problemas na coluna, dores. Ele paga com a saúde dele a troco de pouco salário recebido. O valor pago não paga a situação que ele se encontra hoje”, comenta.

Gustavo, diretor de fotografia trabalha com cinema e sonha em aposentar o pai @Arquivo pessoa/Divulgação
Gustavo, diretor de fotografia trabalha com cinema e sonha em aposentar o pai @Arquivo pessoa/Divulgação

Assim como Breno, Gustavo participou de cursos e projetos sociais ainda adolescente. As oportunidades ajudaram a construir a trajetória na direção de fotografia e, para ele, foram fundamentais para encontrar uma opção de carreira diferente da do pai.

As marcas do trabalho

A construção civil deixou marcas no corpo dos dois. Naldo hoje trabalha como eletricista, função que aprendeu durante os anos nas obras. A experiência permitiu que desenvolvesse conhecimentos em pintura, encanamento e elétrica e encontrasse outros ramos de trabalho. As dores, porém, permaneceram.

“Sinto uma dor no joelho, para dobrar, para subir uma escada, e na lombar das costas, imagino que seja por ter carregado tanto peso nesses anos todos”, comenta.

A mudança de profissão também não eliminou o esforço físico. Como eletricista, ele continua carregando materiais, cabos e montando estruturas.

No caso de Antônio, os problemas também estão relacionados aos anos nas obras. A exposição constante à poeira, segundo ele, afetou os pulmões. Em exames, chegou a identificar uma mancha escura que precisou de acompanhamento médico.

Ele também carrega as marcas de acidentes de trabalho. Em um deles, estava sobre um andaime quando a estrutura desabou. Cerca de três metros e meio de blocos caíram sobre ele. Antônio sofreu ferimentos nas costas e na cabeça, levou doze pontos e ainda carrega as marcas do acidente.

A coluna também se tornou uma das principais fontes de dor. Depois de passar horas agachado para colocar cerâmicas, ele diz sentir os efeitos do esforço físico.

Profissionais da construção civil estão desaparecendo?

Os dados do Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, mostram uma mudança no perfil do mercado da construção civil em São Paulo.

As vagas de entrada, como ajudante de obras civis, tiveram saldo positivo de 1.878 postos em 2025. Já as funções especializadas, que exigem anos de experiência prática, perderam 1.895 postos.

Entre os trabalhadores de estruturas de alvenaria — categoria que reúne a função de pedreiro propriamente dita — o saldo foi negativo em 739 vagas. Profissionais de acabamento também terminaram o ano no negativo, com 141 postos a menos.

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Magno Borges/Agência Mural

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Uma escolha que os pais desejavam

Para Antônio e Naldo, a redução no número de jovens interessados em seguir a construção civil não é necessariamente um problema. É também o resultado de uma geração que passou a ter oportunidades que eles próprios não tiveram.

“Hoje os jovens não querem ser pedreiros porque têm muitas possibilidades de estudo, né? E é pesado esse trabalho. No meu tempo eu fui porque não tinha a oportunidade de estudar, mas eles estão certos de estudar e querer outros rumos”, afirma Antônio.

Naldo compartilha da mesma visão. Ele diz que nunca quis que os filhos precisassem enfrentar a rotina que marcou sua trajetória.

Magno Borges/Agência Mural
Magno Borges/Agência Mural

“Eu nunca tive intenção de que eles trabalhassem com isso, porque é difícil. Sempre tentei dar o melhor para eles, mas preferi que estudassem, porque não tive estudo e sofri muito por isso. Ser sem estudo aqui em São Paulo era complicado. Ainda é.”

Breno, porém, vê a própria trajetória como algo que também traz responsabilidade. Em eventos, viagens ou restaurantes, muitas vezes pensa que o pai passou a vida trabalhando para construir coisas para outras pessoas e talvez nunca tenha tido acesso a muitas dessas experiências.

“Não quero vencer sozinho. Acho que o meu maior sonho é conseguir proporcionar para os meus pais coisas que eles não tiveram oportunidade de viver. Não porque eles peçam isso, mas porque sinto que eles merecem.”

Gustavo também começou cedo a pensar em como ajudar a família. Ainda criança, percebia as dificuldades financeiras e evitava aumentar os gastos dos pais.

“Sempre entendi a pobreza desde pequeno. Quando era pequeno, não pedia dinheiro para os meus pais, porque sabia que eles não tinham. Catei latinha porque queria ter minha grana.”

Hoje, com uma profissão construída a partir das oportunidades que encontrou fora da construção civil, ele tem um objetivo que considera um dos maiores sonhos: conseguir proporcionar uma aposentadoria ao pai.

“Um dos meus sonhos é poder proporcionar uma aposentadoria para o meu pai, para que ele não precise se matar de trabalhar. Quero poder dar uma vida digna para ele, para que aproveite o resto da vida, possa descansar, porque ele começou a trabalhar muito cedo.”

Agência Mural

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Agencia Mural
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