
O Projeto Agrobiodiversidade do Semiárido (AgrobioSA) promoveu, na quinta (8), mais uma atividade de campo no sertão baiano.
Equipes da Embrapa, parceiras e parceiros da Associação Regional de Convivência Apropriada ao Semiárido (Arcas) e outros coletivos do Semiárido se reuniram no povoado Angico, em Fátima, Bahia, desta vez para avaliar cinco variedades de milho crioulo plantadas meses antes no local.
O objetivo é que agricultores e guardiões de sementes desenvolvam capacidade e autonomia para avaliar, na prática, quais variedades têm melhor desempenho nas condições reais do território, possibilitando a identificação daquelas mais adequadas e condizentes com os interesses das famílias produtoras.
Com auxílio da equipe de pesquisa, o grupo fez avaliação qualitativa e quantitativa das plantas no ponto de colheita, pontuando as variedades não apenas pela produtividade, mas também pelo comportamento agronômico, adaptação às condições locais e pelas características valorizadas pelas famílias produtoras.
Degustação de cuscuz crioulo
Nesse encontro, a novidade foi a incorporação da avaliação sensorial dos materiais por guardiães e agricultores selecionados, com prova cega de cuscuz fresco preparado com as cinco variedades de milho colhidas na véspera. Foram avaliados aspectos como cor, textura, maciez, aroma e sabor.
Dona Terezinha da Fonseca, agricultora com muitos anos de lida com a terra em Cícero Dantas, município vizinho, e uma das fundadoras da Arcas, foi uma das degustadoras, e cravou sem hesitar qual das variedades era a plantada há mais de cinco décadas por sua família. O milho da variedade Cateto Semiduro Dona Júlia fez sucesso na prova de cuscuz, conquistando o segundo lugar.
“É uma alegria imensa poder provar hoje e ver o sucesso da semente que minha família protege, conserva e cultiva há tantos anos. Fico muito orgulhosa e feliz! Trouxe até minha neta para o evento hoje”, celebrou.
Confira aqui a galeria completa de imagens da atividade de campo
Inovação social
O AgrobioSA é um projeto de inovação social que busca fortalecer e valorizar as estratégias de convivência com o Semiárido realizadas pelas famílias agricultoras com o uso, conservação e valoração da sociodiversidade e da agrobiodiversidade.
As atividades, coordenadas com redes sociotécnicas locais, buscam promover o compartilhamento e a construção de conhecimentos em processos inovadores.
Estão previstas ações para apoiar e fortalecer a gestão das redes territoriais de casas de sementes, os sistemas locais de produção agroecológica e de conservação da agrobiodiversidade e de espécies da Caatinga, além do fortalecimento das redes e acesso aos canais de comercialização.
Coordenado pela Embrapa Alimentos e Territórios, tendo como líder o pesquisador Amaury Santos, da Embrapa Tabuleiros Costeiros, o projeto envolve ainda a Embrapa Semiárido, Meio-Norte e Recursos Genéticos e Biotecnologia, além da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), com oito de suas organizações. São elas: Associação Regional de Convivência Apropriada ao Semiárido (Arcas), Centro Regional de Assessoria e Capacitação (Cerac), Agricultura Familiar e Agroecologia (Aspta), Centro de Habilitação e Assessoria aos Pequenos Agricultores do Araripe (Chapada), Rede de Escolas Família Agrícola Integradas do Semiárido (Refaisa) e Associação de Agricultores Alternativos (Aagra) e Cooperativa de Pequenos Produtores Agrícolas dos Bancos de Sementes (COPPABACS). No âmbito da Refaisa participam ainda cinco Escolas Família Agrícola (EFA) da Bahia e uma do Piauí.
Leia também:
Projeto une ciência e conhecimento tradicional para conservar sementes no Semiárido
“Hoje as famílias tiveram a oportunidade de manusear essas sementes, essas variedades, e classificar as melhores na percepção delas, no olhar delas, o que é uma variedade boa ou não para a sua realidade local. E a degustação foi muito interessante, pois mostrou que existem diferenças nos sabores, na textura, no aroma, enfim, em vários aspectos, e isso é muito importante para quem produz e quem consome”, avalia Amaury.
O pesquisador apresentou resultados preliminares de desempenho agronômico das variedades plantadas no ensaio, e em breve, após medições detalhadas do material colhido, os dados finais estarão disponíveis em publicações técnicas.
Adriana Sá, presidente da Arcas, considera o ensaio comparativo de variedades de milho uma das principais atividades da parceria.
“O projeto tem uma relevância muito grande para a articulação e para nós, enquanto associação. Na perspetiva da autonomia das famílias, de reintrodução desses materiais, de estocar sementes do próprio Semiárido. Hoje a gente vive um momento ímpar aqui, muito esperado por esse coletivo de casas de sementes, que a gente articula aqui no território”, afirmou.
Rosalvo Peixinho da Cruz é, além de produtor agrícola e apícola local, bolsista do projeto pela Arcas, e tem testemunhado os resultados de resgate e preservação das espécies e da biodiversidade, com destaque para o milho, que é a espécie mais ameaçada pela erosão genética.
“As iniciativas têm fortalecido e motivado os agricultores, e em função disso, ampliado e aprofundado a pesquisa, a observação e o estudo de vários elementos que têm demonstrado esse potencial que tem o milho crioulo, demonstrando que as variedades são adaptadas às condições locais do território e são resistentes e produtivas”, defendeu.
Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
www.embrapa.br/fale-conosco/sac/
