Especialistas votaram por interromper acréscimo de segundos extras no relógio, e resultado favorece as “Big Techs”

Por Michelle Bastian, Senior Lecturer in Theory, Culture and Environment, University of Edinburgh16/10/2026 às 19:010 visualizações
Perda dos segundos bissextos pode parecer trivial para algumas pessoas, mas vai afetar campos como a Astronomia, em que os cientistas terão que buscar outras maneiras para manter um padrão comum de contagem do tempo alinhado com suas observações.
          artstore / Shutterstock
Perda dos segundos bissextos pode parecer trivial para algumas pessoas, mas vai afetar campos como a Astronomia, em que os cientistas terão que buscar outras maneiras para manter um padrão comum de contagem do tempo alinhado com suas observações. artstore / Shutterstock
Foto: CC BY-ND / The Conversation Brasil

Em 30 de junho de 2015, às 23h59m59s UTC (19h59m59s em Nova York), a artista Sara Morawetz estava no meio da Times Square com um par de pratos. Quando o relógio marcou o segundo seguinte, ela bateu os pratos um contra o outro.

Essa performance simples, intitulada 61/60, teve como objetivo destacar aquele estranho lapso de tempo em que o relógio marcava 23h59m60s UTC (Tempo Universal Coordenado), em vez de 00h00m00s UTC.

Desde 1972, segundos extras, conhecidos como “segundos bissextos”, vêm sendo adicionados ao tempo do relógio sempre que nossa Terra, ligeiramente instável, fica fora de sincronia com os relógios atômicos (que funcionam de maneira mais consistente). Um total de 27 segundos bissextos foi adicionado ao longo das cinco últimas décadas.

Os segundos bissextos são importantes em áreas como a astronomia, pois mantêm a ligação entre o tempo do relógio e o tempo solar — que se baseia no movimento do nosso planeta. Mas na última quinta-feira, 15 de outubro de 2026, os delegados da Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM) em Versalhes, na França, votaram pela sua abolição a partir de 2027.

A perda dos segundos bissextos pode parecer trivial para algumas pessoas. Mas, no campo da medição precisa do tempo, eles são altamente controversos. Os segundos bissextos têm o potencial de afetar tudo, desde o mercado financeiro, as telecomunicações e o setor de energia até os centros de dados e o sistema jurídico.

Na verdade, os segundos bissextos representam uma ameaça de interrupção para qualquer setor que exija cronometragem precisa. Por exemplo, os centros de dados utilizam a sincronização de tempo para garantir que servidores distribuídos funcionem juntos de maneira eficaz. No setor financeiro, os carimbos de data e hora garantem que as ordens sejam executadas com precisão e fornecem uma trilha de auditoria para o cumprimento das regulamentações.

Quando um segundo bissexto foi adicionado em 2012, isso causou a falha de sites como o Reddit e o LinkedIn e atrasos nos voos da companhia aérea Qantas.

Nas reportagens sobre a recente decisão, esses riscos aos sistemas de computação foram frequentemente descritos como a principal razão para o fim dos segundos bissextos. Mas, na verdade, o risco dizia respeito ao único padrão de tempo aceito globalmente.

Em 2012, um segundo bissexto adicionado aos relógios causou interrupções nos voos da companhia aérea australiana Qantas. aiyoshi597 / Shutterstock
Em 2012, um segundo bissexto adicionado aos relógios causou interrupções nos voos da companhia aérea australiana Qantas. aiyoshi597 / Shutterstock

Preocupações das grandes empresas de tecnologia

Em 2008, quando um segundo bissexto deveria ser adicionado ao relógio em 31 de dezembro, a Google não estava disposta a arriscar adicioná-lo de uma só vez. Em vez disso, os servidores de tempo da gigante da tecnologia se desviaram do UTC por um período de 20 horas, “distribuindo” o segundo extra ao longo desse período em incrementos tão pequenos que seus sistemas nem perceberam.

Na prática, a Google determinou que o UTC não era adequado para suas necessidades e, em resposta, criou sua própria forma de medição do tempo. Cada vez mais, outras empresas adotaram suas próprias soluções alternativas, levantando preocupações sobre a capacidade do UTC de manter sua posição como referência predominante para a medição do tempo.

Como resultado, as discussões nos órgãos internacionais responsáveis pela padronização têm se concentrado, nos últimos anos, em maneiras pelas quais o modelo atual de hora do relógio não funciona mais como um padrão para todos.

Algumas empresas temem que os segundos bissextos possam causar interrupções nos sistemas de computador. Frame Stock Footage / Shutterstock
Algumas empresas temem que os segundos bissextos possam causar interrupções nos sistemas de computador. Frame Stock Footage / Shutterstock

Como argumentou Mario Maniewicz, diretor da União Internacional de Telecomunicações (UIT-R), a hora do relógio precisa ser atualizada para que possa atender às necessidades dos usuários do século XXI.

Na reunião da CGPM de 2022, os delegados já haviam concordado que, até 2035, o UTC estaria efetivamente livre de segundos bissextos. Previsões recentes sobre mudanças futuras na rotação da Terra, no entanto, levantaram a possibilidade da introdução do primeiro segundo bissexto negativo, em que um segundo seria subtraído, em vez de adicionado, ao relógio.

O alarme em relação ao impacto sem precedentes que essa situação poderia causar fez com que ela fosse comparada a um novo evento o “Bug do Milênio”. O risco crescente de perder usuários do UTC para sistemas de medição do tempo que não exigem ajustes de segundos bissextos, porém, levou à proposta acordada em Versalhes de antecipar o fim dos segundos bissextos para 20 de maio de 2027.

Atendendo necessidades

O UTC foi, assim, redefinido para que possa ser reafirmado como um padrão global comum de tempo, livre da controvérsia que outrora representava para muitas atividades econômicas.

Como já argumentei anteriormente, o debate sobre o segundo bissexto mostrou que nossas noções habituais de relógios como algo abstrato, matemático e objetivo estão incorretas. Essas noções não levam em conta o fato de que os relógios são ferramentas projetadas que podem ser reformuladas quando as necessidades mudam.

As empresas globais de computação e tecnologia agora têm o tempo necessário para que seus sistemas funcionem com mais fluidez. Mas os astrônomos não poderão mais usar o UTC como um indicador geral da rotação da Terra como faziam antes. A proposta apresentada à CGPM menciona isso, mas basicamente afirma que eles precisarão buscar outras alternativas para atender às suas necessidades.

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O relógio da torre do Hotel Balmoral, em Edimburgo, está três minutos adiantado para ajudar os viajantes a chegarem a tempo à estação ferroviária de Waverley, nas proximidades. Sergey Novikov / Shutterstock

A implicação da decisão parece ser que as necessidades das Big Techs foram colocadas acima das exigências de outros setores. Mas a questão mais ampla levantada pela decisão na CGPM é uma que o público em geral raramente se perguntou: quais outras “necessidades dos usuários” estão ficando insatisfeitas devido à suposição de que todas as atividades humanas podem ser coordenadas por um único horário padronizado? A astronomia oferece um exemplo disso, mas nossas próprias experiências de pressão e ansiedade em relação ao tempo sugerem que há outras.

Podemos reinventar o tempo?

Há um tipo estranho de ousadia até mesmo em considerar a ideia de alterar a hora do relógio para atender às nossas próprias necessidades. A Google conseguiu fazer isso em parte porque é grande o suficiente para tanto.

Mas pense no hábito comum de deixar nossos relógios um pouco adiantados para ajudar a chegar a tempo a reuniões e outros compromissos. Isso é feito com tanta frequência que a Apple teve que introduzir um recurso oficial em seu relógio inteligente, permitindo que as pessoas o ajustem propositalmente para a hora errada.

Relógios públicos também fazem isso ocasionalmente, como o relógio da torre do Balmoral Hotel, em Edimburgo. Desde 1902, o relógio anda três minutos adiantado para ajudar os viajantes a chegarem a tempo à estação ferroviária de Waverley, nas proximidades. Também existem relógios que permitem acompanhar o tempo fora do padrão UTC, agora redefinido.

O designer Scott Thrift criou um relógio chamado The Present, que possui um único ponteiro que se move acompanhando as mudanças das estações ao longo de um ano inteiro. Thrift descreveu o The Present como “sem horas, sem minutos, sem números. Apenas o panorama geral”. Cientistas norte-americanos que trabalham em missões em Marte criaram seus próprios relógios para acompanhar os dias marcianos (chamados de “sols”), que são mais longos do que os dias terrestres.

Muitas pessoas podem pensar que o tempo do relógio é imutável e inevitável. Como mostra a votação recente, a “forma” do relógio continua em debate. Atualmente, se você for grande o suficiente, ele se adaptará às suas necessidades. Precisamos decidir se estamos dispostos a simplesmente deixar isso nas mãos dos grandes players.

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Michelle Bastian não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Fonte
The Conversation Brasil
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