Democracia como meta: a política dentro e fora dos algoritmos 

Di Atahualpa Blanchet15/10/2026 às 14:560 visualizzazioni
A Meta é proprietária do Facebook, do Instagram e do WhatsApp
A Meta é proprietária do Facebook, do Instagram e do WhatsApp
Brasil de Fato

A crescente centralidade das plataformas digitais nos processos eleitorais tem suscitado questionamentos em diversas partes do mundo sobre a transparência dos algoritmos, os critérios de moderação e as condições de circulação das informações. 

No Brasil, manifestações públicas e relatos recentes sobre o funcionamento de ferramentas da Meta, empresa responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp, reacenderam o debate sobre a distribuição de conteúdos eleitorais e a necessidade de assegurar condições equitativas de participação. 

A empresa atribuiu parte dos problemas apontados a inconsistências técnicas. Independentemente das explicações para cada episódio, esses questionamentos convidam a uma reflexão mais ampla sobre a dependência da comunicação política em relação a plataformas privadas e sobre os mecanismos necessários para garantir transparência, pluralismo e integridade da informação durante as eleições.

Em um país em que a média de tempo de tela da população é superior a nove horas diárias, é fundamental compreender os impactos decorrentes de critérios algorítmicos pouco transparentes sobre a formação da opinião pública e a participação democrática. Ao mesmo tempo, torna-se necessário questionar em que medida estamos diante de uma simples mediação tecnológica ou de uma forma de controle sobre o debate público. 

A falsa neutralidade do espaço digital

A arquitetura da comunicação digital não é neutra. Isso vale tanto para a programação algorítmica das plataformas como para os seus impactos em termos de recomendação, priorização e alcance de conteúdos, interferindo diretamente nas possibilidades de circulação de ideias e informações. Os algoritmos de recomendação organizam fluxos de informação, selecionam conteúdos e influenciam o que milhões de pessoas veem diariamente. 

Os acontecimentos recentes no Brasil tornam esse problema concreto. Além das denúncias de restrições ao alcance de conteúdos ligados à campanha de Lula, a disputa eleitoral foi marcada pela suspensão temporária do canal de WhatsApp Exército do Lula, administrado pelo deputado André Janones, e por decisões judiciais sucessivas sobre seu funcionamento. O canal, que chegou a reunir milhões de participantes, foi objeto de controvérsia envolvendo alegações de disseminação de desinformação e questionamentos sobre as condições de sua suspensão e reativação.

O episódio evidencia uma segunda dimensão do problema: além das decisões empresariais, a atuação das instituições responsáveis pela regulação eleitoral também precisa observar critérios de proporcionalidade, fundamentação e tratamento isonômico. 

Em um cenário dominado pelos algoritmos de recomendação das redes sociais, a escuta e o diálogo presencial oferecem possibilidades para reconstruir vínculos, promover a reflexão e fortalecer a confiança, recuperando a dimensão humana do diálogo político. Técnicas como o deep canvassing evidenciam essa afirmação.

Reconquistar a capacidade de dialogar

O conceito de deep canvassing, ou abordagem aprofundada, diferentemente de uma conversa voltada exclusivamente a apresentar propostas ou pedir votos, procura compreender as experiências, dúvidas e preocupações do interlocutor. Em vez de simplesmente transmitir uma mensagem pronta, busca estabelecer uma escuta ativa e uma troca que permita rever percepções, reconhecer experiências alheias e construir confiança.

Há evidências científicas de que esse tipo de abordagem pode produzir mudanças relevantes de atitude. Em estudo publicado na revista Science, em 2016, os pesquisadores David Broockman e Joshua Kalla avaliaram uma intervenção de visitas domiciliares na Flórida, nos Estados Unidos. Uma conversa de aproximadamente dez minutos, estruturada para estimular a tomada de perspectiva e a reflexão sobre experiências pessoais, reduziu significativamente o preconceito contra pessoas transgênero. 

Os efeitos foram observados ainda três meses depois, e a intervenção também aumentou o apoio a uma legislação antidiscriminatória. O estudo oferece evidências de que o diálogo presencial, quando estruturado para promover escuta e reflexão, pode influenciar atitudes que pareciam consolidadas.

A Experiência do Frente Amplio no Uruguai

A experiência do Frente Amplio uruguaio oferece pistas sobre por que, muitas vezes, alguns minutos de conversa podem valer mais do que milhares de visualizações. Em 2019, após uma dura derrota nas eleições presidenciais, o Frente Amplio não evitou a palavra autocrítica e realizou um processo de análise sobre as causas do indesejado resultado das urnas.

A estratégia desenvolvida nos anos seguintes valorizou a presença nos territórios, reuniões com organizações locais, realização de rodas de mate, conversas informais e visitas domiciliares. Em 2024, a campanha “Juntate por Uruguay” retomou explicitamente essa orientação, enquanto a mobilização “Voto a voto, día a día” convocou militantes a intensificar o contato direto com os eleitores incluindo aqueles que diziam não se identificar mais com a esquerda.

Durante o período de oposição, o Frente Amplio percorreu centenas de localidades e realizou mais de 1.400 reuniões com organizações de bairros, produtores rurais e representantes empresariais. Essa estratégia de proximidade, associada a outros fatores políticos e sociais, contribuiu para a vitória de Yamandú Orsi em 2024, marcando o retorno da esquerda ao governo do Uruguai.

A resposta à derrota não passou pelo abandono das redes sociais, mas em reconhecer que a disputa política não poderia ser vencida apenas no âmbito digital. A experiência uruguaia oferece uma reflexão oportuna para o Brasil. A poucos dias de uma decisão eleitoral que mobiliza o país. 

O direito à comunicação como base da democracia

Provavelmente a principal lição dos fatos ocorridos nestas últimas semanas seja que não podemos permitir que a nossa capacidade de existir politicamente dependa exclusivamente da recomendação de um algoritmo. A democracia exige que ideias possam circular, garantido  o acesso de forma equilibrada e igualitária.

A poucos dias das eleições, a experiência uruguaia sugere uma possibilidade prática. Em vez de concentrar todos os esforços na tentativa de obter maior visibilidade algorítmica, campanhas e organizações podem intensificar conversas presenciais, encontros comunitários e diálogos diretos com eleitores.

Isso não significa deixar de lado as redes digitais e as disputas pela democratização de acesso e integridade das informações. Significa reconhecer que a comunicação democrática não pode depender exclusivamente de canais cuja distribuição é controlada por empresas privadas estrangeiras.

Uma conversa de alguns minutos não substitui a escala das redes, mas pode produzir algo que a circulação acelerada de conteúdos nem sempre oferece: a oportunidade de compreender as razões de quem pensa diferente. Em vez de tratar cada interlocutor como um destinatário passivo ou um adversário a ser derrotado, o diálogo permite reconhecer preocupações concretas e responder a elas com argumentos, experiências e propostas.

A capacidade de mobilizar pessoas não deve ser medida apenas pelo número de visualizações, curtidas, compartilhamentos e outras métricas de alcance e engajamento, mas também pela qualidade das relações sociais que uma organização consegue construir.

O desafio é particularmente importante para os espaços comprometidos com a ampliação de direitos como partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais. Não basta denunciar a concentração de poder nas plataformas se a própria ação política se torna inteiramente subordinada às condições de visibilidade que elas oferecem.

*Atahualpa Blanchet é pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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