
Capacitação promovida pela Embrapa Meio Ambiente abordou cultivo, manejo e consumo de plantas alimentícias não convencionais, além de oportunidades para a agricultura familiar
As Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) podem contribuir para diversificar a produção agrícola, ampliar a variedade de alimentos disponíveis e valorizar a biodiversidade presente nos territórios. Para discutir esse potencial e capacitar agentes multiplicadores, a Embrapa Meio Ambiente promoveu, em 7 de outubro, o curso “Módulo I – As PANC na Agricultura: Cultivo e Consumo”.
A programação abordou técnicas de propagação, épocas de cultivo, operações de manejo, identificação de espécies e variedades, partes comestíveis, formas de preparo e aspectos nutricionais. Além dos conteúdos teóricos, os participantes realizaram atividades práticas na horta, com orientações sobre as possibilidades de cultivo e utilização das PANCs.
Na abertura, o chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Meio Ambiente, Robson Barizon, destacou a importância de iniciativas voltadas a essas plantas para ampliar a biodiversidade, diversificar a base da alimentação e criar oportunidades para os produtores rurais.
O pesquisador Joel Queiroga explicou que o trabalho desenvolvido pela Embrapa Meio Ambiente com essas espécies teve início a partir da preocupação com a obtenção, multiplicação e a conservação de sementes e materiais adequados para o cultivo. “A partir do Banco de Germoplasma destas espécies constituído, iniciamos a realização de pesquisas integradas sobre práticas de manejo, adaptação as condições de Jaguarúna e região, usos e formas de preparo, fenologia e oferta de recursos florais para polinizadores, complementa Queiroga.
Biodiversidade também na alimentação
As PANCs são espécies ou partes de plantas com potencial alimentício que não fazem parte do consumo cotidiano da maioria das pessoas e, por isto, não são produzidas em larga escala. Muitas crescem espontaneamente e, dependendo do contexto, são vistas como mato ou plantas sem utilidade. O conceito também pode abranger partes comestíveis de plantas conhecidas que tradicionalmente são pouco aproveitadas, como folhas, flores, frutos, tubérculos e outras estruturas.
Apesar do potencial, muitas dessas espécies ainda não estão inseridas de forma significativa nas cadeias produtivas de alimentos. Ao mesmo tempo, agricultores familiares e comunidades tradicionais mantêm conhecimentos sobre cultivo, coleta, preparo e consumo que podem contribuir para a conservação e a valorização da agrobiodiversidade.
O interesse crescente por esses alimentos também pode abrir novas possibilidades de comercialização. Estudos com agricultores familiares agroecológicos indicam que a procura dos consumidores pode estimular a produção e favorecer a presença das PANCs em feiras e outros canais de venda.
Na perspectiva da agroecologia, a diversificação de espécies favorece processos ecológicos nos sistemas agrícolas e ampliar os serviços ambientais associados à biodiversidade. Plantas espontâneas, por exemplo, podem integrar redes de interação ecológica relacionadas a serviços como polinização e controle biológico.
O cultivo de espécies adaptadas às condições locais também pode contribuir para aumentar a resiliência dos sistemas produtivos diante de situações de estresse ambiental. Em um cenário de mudanças climáticas, a diversificação representa uma alternativa para reduzir a dependência de poucas culturas e ampliar as opções disponíveis aos agricultores.
Para a agricultura familiar, as PANCs podem ainda representar oportunidades de geração de renda, especialmente quando associadas a mercados diferenciados e à valorização de alimentos locais. Para que esse potencial se concretize, entretanto, é necessário ampliar o conhecimento sobre estas espécies, estimular seu cultivo e aproximar produtores e consumidores.
Do cultivo ao prato
Para que as PANCs sejam incorporadas aos sistemas de produção e à alimentação, não basta conhecer as espécies. É preciso saber em que condições elas se desenvolvem, como podem ser multiplicadas e manejadas e, principalmente, quais partes são comestíveis e de que forma devem ser preparadas.
Esse foi um dos objetivos do curso. A programação apresentou os fundamentos sobre as PANCs e abordou temas como propagação, épocas de cultivo e práticas de manejo. Na atividade prática, os participantes puderam identificar espécies e variedades, conhecer formas de multiplicação e discutir partes comestíveis, usos e possibilidades de preparo.
A valorização dessas plantas também passa pelo resgate de conhecimentos tradicionais. Muitas PANCs fizeram parte da alimentação de diferentes comunidades e tiveram seus usos transmitidos entre gerações. Com a perda desses conhecimentos, algumas espécies com potencial alimentício deixaram de ser reconhecidas como alimentos.
A Embrapa possui publicações dedicadas ao tema, com informações sobre cultivo, uso e preparo de PANCs, além de destacar o potencial nutricional dessas plantas para a alimentação e a segurança alimentar.
“Na natureza se trabalha com o imprevisto”
Entre os participantes da capacitação estava o gestor ambiental Guilherme Ranieri, especialista em PANCs e autor do livro Matos de Comer, voltado à utilização dessas plantas, aos jardins comestíveis e à autonomia alimentar.
Ao falar sobre a relação entre diversidade e cultivo, Ranieri resumiu uma das características desse universo: “Na natureza se trabalha com o imprevisto”. Para ele, a diversidade de espécies permite trabalhar com plantas que, muitas vezes, já estão adaptadas às condições ambientais de cada território.
Muitas dessas plantas são espontâneas, de cultivo relativamente fácil e podem ser utilizadas em sistemas de produção orgânica. Ranieri também chama a atenção para o valor nutricional e cultural de espécies consumidas por gerações anteriores, mas que perderam espaço na alimentação cotidiana.
A diversidade disponível é muito maior do que aquela que normalmente chega às feiras e aos supermercados. O resgate dessas espécies, portanto, envolve ampliar o olhar sobre o que pode ser considerado alimento e reconhecer plantas que continuam presentes em quintais, roças e áreas rurais.
Ranieri trabalhou por mais de cinco anos no Projeto Inova na Horta, em Jundiaí (SP). Nesse período, segundo ele, mais de 15 toneladas de PANCs foram destinadas às 103 escolas públicas do município, beneficiando mais de 40 mil alunos. Foram produzidas mais de 250 espécies e, após os testes, 35 foram selecionadas para envio às escolas.
“Nas PANCs temos um teor nutricional muito mais elevado, especialmente essas selecionadas, pois, como não passaram por um processo de domesticação, mantiveram essas características ‘selvagens’. Por isso, continuam com teor de fibras, compostos fenólicos, capacidade antioxidante mais altos e, eventualmente, mais vitaminas”, afirma o especialista.
Segundo Ranieri, a diversidade genética dessas plantas também pode representar uma vantagem diante das mudanças climáticas. Por serem espécies e variedades diferentes das culturas mais consumidas atualmente, algumas apresentam capacidade de absorver outros nutrientes do solo e maior adaptação a condições como calor, frio, solos mais pobres e até excesso de chuva.
Produção precisa encontrar o consumidor
Atualmente, segundo Ranieri, agricultores ligados ao Instituto Kairós mantêm PANCs em seus sistemas de produção e trabalham com diferentes formas de comercialização. O principal desafio, porém, ainda é o desconhecimento do público sobre essas espécies e suas possibilidades de consumo.
Algumas plantas já apresentam boa aceitação. É o caso do ora-pro-nóbis e da taioba, que encontram mercado com maior facilidade. Outras, menos conhecidas, enfrentam dificuldades de comercialização. Nesses casos, os agricultores buscam alternativas, como a venda em circuitos com compra garantida, a exemplo das cestas de produtos orgânicos, ou o fornecimento direto para restaurantes.
Para Ranieri, ampliar o consumo passa necessariamente pela educação do público. É preciso divulgar as espécies, apresentar suas características e ensinar formas de preparo, além de capacitar produtores e instituições para que as PANCs possam integrar políticas de compras públicas.
A experiência do Inova na Horta mostrou, segundo ele, que produzir e entregar as plantas às escolas não era suficiente. Também era necessário preparar quem iria utilizá-las na alimentação, especialmente os profissionais responsáveis pelas refeições escolares.
“Imagine que você é uma cozinheira e não conhece aquele ingrediente, não sabe se se come cru ou cozido, que gosto tem, com que combina”, exemplifica.
Por isso, o projeto também envolveu a capacitação de professoras, para que elas pudessem ensinar às crianças como consumir as plantas. A iniciativa criou, assim, uma ponte entre produção, preparo e consumo, mostrando que a introdução de novos alimentos exige informação e envolvimento de toda a comunidade escolar.
Atualmente, o Instituto Kairós conseguiu inserir as PANCs nas opções de compras públicas do Estado. Com isso, municípios interessados em ampliar a diversidade da alimentação escolar podem utilizar esse mecanismo para adquirir as plantas diretamente de agricultores.
A aproximação entre produtores, instituições e consumidores pode contribuir para ampliar os mercados e estimular o cultivo. Ao mesmo tempo, a divulgação de receitas e formas de preparo ajuda a tornar esses alimentos mais conhecidos e acessíveis.
PANCs também podem estar em casa
O cultivo não precisa ficar restrito às áreas rurais. Segundo Ranieri, é possível produzir PANCs em casa, desde que sejam consideradas as características do ambiente e escolhidas espécies adaptadas às condições disponíveis.
Algumas plantas se desenvolvem melhor à sombra. Hortaliças trepadeiras, por exemplo, podem crescer em telas, grades e até muros. Há também espécies adaptadas a ambientes mais secos ou sombreados e, em alguns casos, a áreas alagadas. Algumas PANCs são aquáticas e podem ser cultivadas em lagos.
Outro aspecto destacado pelo especialista é que muitas plantas alimentícias também têm valor ornamental. Ararutão, coromandel, vinagreira-roxa, ora-pro-nóbis, major-gomes e taiobas são exemplos de espécies que podem integrar os espaços domésticos, unindo produção de alimentos e paisagismo.
A presença das PANCs em quintais, hortas, escolas e propriedades rurais mostra que ampliar a diversidade alimentar pode começar pelo reconhecimento daquilo que já existe ao redor. O cultivo dessas espécies também pode aproximar as pessoas da natureza e estimular o conhecimento sobre a biodiversidade local.
Do cultivo ao prato, o desafio passa por conhecer, produzir, preparar e criar oportunidades para que essas plantas voltem a fazer parte da alimentação cotidiana. A capacitação de agricultores e agentes multiplicadores, aliada à divulgação de informações e à criação de canais de comercialização, pode contribuir para ampliar o uso das PANCs e valorizar a diversidade alimentar brasileira.
A atividade foi coordenada por Joel Queiroga e Waldemore Moricone, Eunice Batista e Kátia Braga da Embrapa Meio Ambiente, em parceria com Guilherme Ranieri e Bruno Silva do Instituto Kairós Ética e Educação Responsável e a Rede de Agroecologia do Leste Paulista. O curso foi direcionado a agricultores familiares, técnicos de extensão rural, professores, estudantes e outros interessados no cultivo e uso dessas plantas.
Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
www.embrapa.br/fale-conosco/sac/
